
Tema historicamente negligenciado
pela esquerda (a começar pelo próprio Marx), o meio-ambiente foi colocado em
pauta a partir dos anos 1970 até se tornar, neste século, um tópico obrigatório
em qualquer discussão política progressista – especialmente para partidos e
movimentos anti-capitalistas. Se as experiências pós-capitalistas do século XX
nos demonstraram a impossibilidade de se construir o socialismo sem democracia,
como nos lembrava Carlos Nelson Coutinho num célebre ensaio (
A democracia como valor universal),
agora é preciso acrescentar à gama de conceitos obrigatórios do roteiro
socialista a preservação ambiental.
No entanto, até mesmo por conta
da falta de bons referenciais teóricos a respeito, há dificuldade, sobretudo em
setores de esquerda historicamente mais vinculados ao marxismo ou a teorias
marxizantes, em assimilar essa pauta. Mesmo um partido grande e estruturado como
o PT padece desse mal. Apesar disso, é preciso chamar a atenção para o fato de
que a luta pela sustentabilidade ambiental recoloca na ordem do dia – e por
vias inéditas – a utopia socialista. Senão, vejamos.
Desde o último quarto do século
passado, o fordismo deixou de ser o padrão
hegemônico de acumulação capitalista. Por conseguinte, a estrutura social que
sustentava esse modelo (e dialeticamente se constituía a partir dele) foi
severamente modificada. O mundo mais rígido e homogêneo do fordismo, da
produção e do consumo em massa de mercadorias padronizadas, cedia lugar, como
observa Terry Eagleton, “ao mundo efêmero e descentralizado da tecnologia, do
consumismo e da indústria cultural, no qual as indústrias de serviços, finanças
e informação triunfam sobre a produção tradicional, e a política clássica de
classes cede terreno a uma série difusa de ‘políticas de identidade’”. É o
modelo da acumulação flexível,
segundo a definição do geógrafo David Harvey. A contrapartida mais evidente
deste novo padrão de acumulação de capital, foi (e é) a crescente dissolução do
antigo mercado de trabalho: a precarização dos empregos, a disseminação dos
“subempregos” informais, bem como uma ofensiva inédita, em escala global, de
flexibilização dos direitos, ajustada à nova realidade de dispersão espacial e
temporal das unidades produtivas, bem como ao ritmo de giro cada vez mais
acelerado do capital.
De um ponto de vista político, Marx
enxergava um lado positivo no aparecimento da grande indústria: ela permitia a
concentração, num único local, de centenas de trabalhadores que, explorados em
iguais condições, poderiam mais facilmente adquirir consciência de sua situação
em comum. Assim,
a luta contra o capitalismo seria facilitada pelos próprios meios fornecidos
pelo capital. “A burguesia cria seus próprios coveiros” dizia o célebre Manifesto Comunista.

No mundo do trabalho
contemporâneo, essa concentração, quando existe, é cada vez mais residual. Agora
há, na verdade, um movimento crescentemente diáspórico, relacionado à realidade
– hoje duramente experimentada pelos europeus, mas que nos é bastante familiar
– de desemprego estrutural, subempregos etc., que acirra ainda mais a
competição entre os trabalhadores, exacerba o individualismo, e desacredita a
grande política, como dizia Gramsci. Diretamente
vinculada à velocidade do giro do capital em seu processo reprodutivo atual,
vivemos a época do
aqui-agora sem
profundidade dimensional, a estetização da vida, o elogio do simulacro,
ampliado de modo praticamente ilimitado e facilitado pelas novas tecnologias,
sobretudo virtuais.
Politicamente, os referenciais
objetivos de luta comum dos trabalhadores, que permitiam a construção de uma
subjetividade em consonância com sua posição no processo produtivo, isto é, que
permitiam alguma forma de consciência de
classe, foram praticamente dissolvidos. As dificuldades atuais da luta
sindical são um exemplo patente dessa conjuntura. Num mercado fragmentado, em
que cada dia se trabalha (por necessidade) num local diferente, para um patrão
diferente, muitas vezes sem direitos e/ou garantias trabalhistas mínimas, sem
direito a férias etc., qualquer traço de solidariedade requisitado pela ação
sindical (para não falar daquela ação política de maior magnitude) torna-se
exíguo.
Todo esse amplo movimento, aqui
apenas esboçado, cuja finalidade explícita nada mais é do que renovar as
possibilidades de acumulação do capital diante das contradições estruturais do
próprio sistema, e que ficou conhecido como neoliberalismo,
foi devidamente legitimado nas últimas décadas pelo discurso ideológico pós-moderno.
Em linhas gerais, contra visões “totalizantes”, amplas, da sociedade e da
História, como é o caso do marxismo, que almeja construir uma nova sociedade universal, cujo princípio organizador se contraponha ao princípio vigente
(também universal) do mercado capitalista (a assim chamada globalização), o pós-modernismo celebra uma experiência “volátil e
efêmera”. Desconhecedora de “qualquer sentido de continuidade”, tal experiência
“se esgota no presente vivido como instante fugaz”, a partir de “uma adesão à
descontinuidade e à contingência bruta”, como explica Marilena Chauí. Na
ideologia pós-moderna, prossegue a filósofa, a sociedade “aparece como uma rede móvel, instável, efêmera de organizações
particulares definidas por estratégias particulares competindo entre si”.
Assim, o pós-modernismo transforma as exigências (econômicas, políticas,
culturais e ideológicas) do capital em virtude. Por conseguinte, reforça a percepção de
que a luta política por uma outra sociedade já não faz sentido.

Ora, o problema da preservação
ambiental coloca justamente em xeque a ideologia pós-moderna, ao mostrar que o
problema do meio-ambiente é um problema
universal.
Que não se relaciona apenas a um momento efêmero, circunscrito a um espaço
particular, mas que põe em risco, de fato, a própria sobrevivência da
humanidade como um
todo. E
que, portanto, só pode ser resolvido
nesta perspectiva.
Marx definia o capitalismo como “uma
formação social em que o processo de produção domina os homens, e ainda não o
homem o processo de produção”. Ao protestar contra a relação atual do homem com
a natureza, o que a questão ambiental precisamente nos demonstra é a
necessidade (e mesmo a urgência) de invertermos a lógica que subsume o homem ao
capital. Afinal, a preservação do meio-ambiente e da vida em nosso planeta
depende fundamentalmente do uso racional
dos recursos finitos, da aplicação de nosso conhecimento no melhor
aproveitamento desses recursos, da melhor distribuição da produção e do consumo
sustentável. No entanto, tais exigências não podem ser satisfeitas numa
conjuntura na qual a última palavra é da irracionalidade da acumulação do
capital.
A preservação do meio-ambiente
requer uma nova relação com a natureza, uma nova forma de utilizarmos os
recursos naturais. Numa palavra, uma nova forma de trabalho. Mas a forma como consumimos está diretamente relacionada
à forma como produzimos e distribuímos aquilo que foi produzido.
Produção-distrbuição-consumo perfazem um nexo estruturalmente indissociável. Não
se muda de fato um dos elementos sem que se alterem os outros. Isso significa
que novas formas de consumo exigem formas racionais de produção, ambientalmente
sustentáveis, que exigirão novas formas de distribuição, orientadas em atender
as necessidades básicas de todos e minimizar (ou anular) o desperdício. Essa
configuração é impossível na
perspectiva da anarquia intrínseca ao mercado capitalista e da acumulação de
capital. Há, de fato, uma contradição essencial entre uma produção de bens
planejada e orientada segundo critérios racionais de sustentabilidade ambiental
e a produção capitalista de mercadorias, com suas relações (inter-humanas e com
a natureza) cujo fim último é tão somente reproduzir o capital. Por isso, cumpre
sempre destacar que o controle do homem sobre seu trabalho, sobre sua relação
com o meio-ambiente e os outros homens, sobre as formas de satisfazer as
necessidades básicas de todos, só é possível a partir do momento em que
começamos a inverter a lógica vigente.

Nesse sentido, a pauta ambiental
traz positivamente, a partir de um problema objetivo da maior gravidade, um
novo fôlego para a luta anti-capitalista. Sem cair no catastrofismo (que também
pode servir a interesses escusos daqueles que lucram com a degradação
ambiental), é preciso que o discurso socialista, em sua disputa por uma nova
hegemonia, seja capaz de refletir e incorporar
de fato (e não apenas de modo formal, como acontece muitas vezes) a
defesa do meio-ambiente e de uma nova e saudável forma de o homem se relacionar
com a natureza, orientado pela impossibilidade estrutural de o modo de produção
atual responder satisfatoriamente a esse desafio. Com isso, mesmo diante das
dificuldades inéditas de fazer acreditar a grande política, a velha questão
sobre o
sujeito histórico da mudança pode ganhar novos ares,
inclusive pela possibilidade de incorporação de novos atores que, ausentes na
perspectiva marxista clássica centrada exclusivamente na oposição insuperável
capital-trabalho (sobretudo os setores “médios” da sociedade, e mesmo parte da
“pequena-burguesia”), também podem se alinhar à causa socialista em nome da
defesa necessária da vida e do planeta contra o “trabalho-morto” do capital.