
Uma das principais novidades
trazidas da modernidade foi a instituição da noção de indivíduo. Em oposição às concepções medievais de família e
consanguinidade, o surgimento desse conceito representou uma conquista
civilizatória importante, na medida em que garantia, ao menos formalmente, que
cada pessoa pudesse gozar igualmente de liberdade e direitos independentemente do
meio em que nasceu. No entanto, o desenvolvimento capitalista, fortemente
apoiado na consigna da “livre iniciativa individual”, desfigurou essa noção. Por
conta da própria dinâmica da sociedade fundada sobre as leis do mercado, e
baseada numa ideologia que prega a dissolução de qualquer traço de comunidade
ou fraternidade em nome da competição agressiva, da exaltação do eu e da
satisfação imediata, o conceito de indivíduo tornou-se o suporte do que
comumente se define por individualismo:
separados dos outros por nossos próprios interesses – entendidos e vividos como
absolutos –, comungamos mais e mais daquela máxima tão conhecida do “cada um
por si”.
Marx vislumbrava este quadro
negativo já no século XIX: o homem no capitalismo, alienado do mundo que ele
produz cotidianamente por seu trabalho, terminava por estranhar-se a si mesmo e
aos outros, a tal ponto de se tornar incapaz de se reconhecer como membro de um
conjunto mais amplo, a que chamamos humanidade. De lá para cá, as coisas, neste
ponto, pioraram sensivelmente. Quem, por exemplo, nunca ouviu ou soltou um:
“ninguém tá nem aí com ninguém”? Com efeito, ninguém pode negar que, globalmente,
vivemos hoje uma era na qual, em consonância com o predomínio dos ideários
neoliberais, fortemente anti-comunitários, o individualismo tem se acentuado de
modo exorbitante (vale notar, a ponto de colocar em xeque até mesmo a percepção
que temos de nós mesmos como indivíduos dotados de uma história única e singular,
com um passado e de uma perspectiva de futuro). Com isso, o antagonismo ou a
indiferença em relação a outrem se tornaram a via de regra da forma como (não) percebemos
e (não) lidamos com os outros.

Sartre, em sua Crítica da razão dialética, denominava
esse modo de vida, em que nos isolamos cada vez mais, mesmo em meio à multidão,
de serial, e o definia como um dos
produtos mais genuínos das grandes cidades surgidas com o advento capitalista e
de sua dinâmica intrinsecamente alienante. O conceito se explica: serialidade,
diz Sartre, porque vemos uns aos outros como números de uma série, isto é, como
num cenário em que a mudança de qualquer elemento e sua substituição por outro
em nada alteram o quadro geral. Podemos exemplificar do seguinte modo: tanto
faz, para mim, se a pessoa que está ao meu lado no ônibus seja uma jovem,
estudante, preocupada com suas provas, ou que a pessoa na minha frente na fila
do banco seja um senhor de meia idade, aparentemente com dificuldades para pagar
suas contas. Afinal de contas, nada mudaria se outros ocupassem aqueles
lugares, tendo outras histórias, outros interesses, outros motivos para estarem
ali. Não tenho nenhum vínculo com eles, exceto pelo fato – que foge ao meu
alcance – de ocuparmos um mesmo “campo material” num determinado momento, isto
é, pegarmos o mesmo ônibus ou estarmos na mesma agência bancária. Para mim,
cada um deles é apenas “um outro qualquer”, como eu também sou para eles. Formamos,
deste modo, e cada vez mais, uma pluralidade
de solidões, alienados que estamos de nosso ser em sociedade, e se
permanecemos lado a lado, isto não se dá a partir de qualquer vínculo de
solidariedade, mas por simples justaposição, acaso. Paradoxalmente, portanto, não
nos reconhecemos plenamente como indivíduos. É, na verdade, a indiferença a tônica de nossa (falta de)
percepção do outro, e só o notamos, de fato, quando ele interfere diretamente
em nossa vida, nossos interesses etc. – por exemplo, se o atendimento da pessoa
à minha frente, no banco, atrasa o meu.

Sartre ainda chamava a atenção
para o fato de que se, por um lado, essa solidão em meio à multidão à qual estamos
encarcerados em nossa vida cotidiana é fruto da dinâmica característica de
nossa sociedade, por outro, trata-se de algo com o qual também acabamos,
consciente ou inconscientemente, respaldando. O filósofo dava o exemplo de
quando leio um jornal aguardando o ônibus, me valendo, assim, de um coletivo
nacional (no limite, da vida de todos os demais) para me isolar das cinco ou
seis pessoas que estão na fila comigo. Atualmente, poderíamos facilmente
acrescentar a este exemplo aquele dos Ipod, Smatrphones, MP3 etc. Afinal, não
utilizamos frequentemente essas tecnologias em locais públicos justamente para
nos afastar dos outros, para evitar qualquer contato ou conversa? Enfim, como
Sartre explica, nestes casos, o “projeto de solidão” de cada um faz com que a possibilidade
de uma reciprocidade exista (estamos no mesmo ônibus ou aguardamos igualmente
um atendimento bancário), mas seja negada ao mesmo tempo (nos isolamos abrindo
um jornal, ouvindo música, navegando na internet, ou simplesmente ignorando a
presença alheia, como se estivéssemos diante de um objeto qualquer).
Temos dois graves problemas
diante desta conjuntura: em primeiro lugar, trata-se de uma situação extremamente
prejudicial para nossa vida, pois somos seres sociais, e necessitamos indispensavelmente
uns dos outros para sobreviver; precisamos da comunidade, do cuidado e da
solidariedade negada cotidianamente por nosso modo de vida. Daí, provavelmente,
nos sentirmos cada vez mais “vazios”, “deprimidos” etc., mesmo na companhia de
outros. Em segundo lugar, esse cenário de isolamento e indiferença também é
danoso justamente porque dificulta, dissolve ou mesmo bloqueia qualquer projeto
– forçosamente coletivo e de longo prazo – de construção de outra forma de convívio
social. Isso ajuda a explicar, por exemplo, as dificuldades de adesão a
qualquer ação política séria que vise superar esse modo de vida, na medida em
que ela exige, em sua própria essência, uma tomada
de consciência de nossa situação e, por conseguinte, a negação prática da “serialidade” – isto é, da
vida cotidiana na qual estamos mergulhados, com suas urgências e preocupações, mas
também com suas benesses e prazeres momentâneos –, em nome de um engajamento
voltado quase que exclusivamente para o futuro, ou seja, orientado para além da
perspectiva individualista da ideologia dominante (portanto, da qual todos, em
alguma medida, compartilhamos), centrada unicamente na imediatez do aqui e
agora.
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Resta, assim, uma pendência: é
possível sair desse cenário? Em caso afirmativo, como, então, equacionar o
paradoxo de que a superação dessa situação extremamente nociva para todos dependa
de um gesto frequentemente tolhido por esta mesma situação? Bastaria a força da
necessidade, por exemplo, para reverter uma ideologia que desencoraja a
solidariedade e o coletivo e aplaude a busca incessante pela satisfação
instantânea e egoísta como modo de vida? Ou seria preciso reconhecer que
estamos fadados a mergulhar cada vez mais em nossas solidões particulares, encerrados
em nossas tarefas e interesses imediatos, abrindo mão de toda forma de
esperança e utopia? Não acredito nesta última alternativa, mas é fácil perceber
que não há respostas simples às demais questões. Em outra oportunidade, porém,
pretendo voltar a refletir sobre elas com vocês.