Não é novidade para ninguém que
não está fácil decifrar o atual momento político brasileiro. Por isso, me
parece pretensão demais querer fazer uma análise conjuntural neste espaço. Contudo,
algumas coisas podem ser deduzidas do turbilhão de acontecimentos que ocupam a
agenda política nos últimos meses, e elas podem dar pistas de qual caminho
Dilma e seu o governo poderiam tomar.
Em primeiro lugar, é evidente que
há um descontentamento quase generalizado em relação ao governo federal. Isso significa
que não, não creio que as manifestações do último 15 de março, e as que devem
vir em abril, sejam frutos exclusivos dos setores médios e ricos da sociedade –
ainda que estes estejam encabeçando os protestos. No entanto, há sim uma
diferença entre o que incomoda um ou outro lado, e é por este caminho que, a
meu ver, passa a chave para uma reabilitação do governo.
Há uma parte da população – leia-se:
classe média tradicional e a elite – cuja posição diante do governo Dilma se
cristalizou com os recentes “panelaços”: não importa o que a presidenta faça
para agradá-los (e, diga-se de passagem, ela tem feito muito), eles continuarão
se opondo a seu governo (e, eventualmente, a seu direito de terminar o recém
iniciado segundo mandato). A lógica dessa oposição indiscriminada se ampara na narrativa midiática e falaciosa de
que a “crise econômica” é fruto de um suposto aumento da corrupção patrocinada pela
presidenta e seu partido. É o pessoal da indignação seletiva, que se mostra
claramente avesso (neste momento, pelo menos) a qualquer diálogo. Neste caso,
entendo que a única coisa que Dilma pode fazer, neste momento – e é o que ela
tem feito – é não interferir nos rumos das investigações da Lava Jato.

Mas, como disse acima, é inegável
que outras parcelas da população também estão incomodadas com o governo. Estes,
porém, por algo muito mais concreto: as dificuldades na economia (inflação, em
particular, mas também a ameaça do aumento do desemprego) os atingem
diretamente. Para quem ganha 2 ou 3 salários mínimos, por exemplo, é nítida a
diminuição do poder de compra neste último período. E, se eles votaram em Dilma
e no PT, era com a expectativa exatamente oposta. Ademais, causou espanto que o
governo, em nome de “equilibrar as contas” da União, tenha optado por começar
seu ajuste através da revisão (em bom português: redução) dos benefícios
trabalhistas e previdenciários. Não há como negar que tais medidas, propostas ainda
no final do ano passado, soaram como uma afronta à base de apoio de Dilma, e
sinalizaram que o governo não pretendia afetar interesses dos setores mais
poderosos. Em outras palavras: que quem pagaria (ou pagará) a conta seriam (serão) os setores mais
frágeis de sempre.
Ora, nessa frente se concentra o
grande equívoco de Dilma até aqui. Há problemas na economia? Há. Há uma crise
generalizada que está levando o país ao caos? Não. Portanto, nesta área, o
problema pode ser menor do que parece. Com efeito, a dificuldade da presidenta,
que se agravou com a composição do Parlamento nesta legislatura, é
especialmente de ordem política. E problemas políticos se resolvem fazendo... política! Pode parecer óbvio, mas o óbvio às vezes é tão óbvio que nos esquecemos dele...
Mas, o que é fazer política neste caso? Um
bom começo seria direcionar as principais ações do governo na defesa dos interesses daqueles que
reelegeram Dilma – ou seja, deixar de se pautar por aqueles que
pretendem derrubá-la (inclusive o capital financeiro). Por exemplo, seria o caso não apenas de rever, mas de retirar
as MPs que reduzem os direitos trabalhistas e encampar publicamente o projeto de
taxação de grandes fortunas como solução à necessária captação de receitas. “Ah, mas este projeto jamais será aprovado pela ‘casa
do Cunha’”? Pode até ser verdade. Mas, é preciso que o governo (isso vale para
o PT também) deixe de fazer do vício virtude: o fato de haver dificuldade não
significa que se deva abrir mão da ideia e se resignar ao tosco pragmatismo do
possível. Uma medida como esta serviria para Dilma nortear a agenda política –
que hoje foi sequestrada pela mídia e pela oposição no Parlamento – e reaglutinar sua base de
apoio (os setores que a elegeram, o PT e os demais partidos de esquerda),
tirando-a do isolamento social no qual se encontra (e que claramente só se agravará,
se a presidenta continuar a crer que base de apoio só existe no Congresso). Outra
medida – essa a mais imprescindível de todas – é tomar a frente nas discussões pela
Reforma Política e pautar abertamente esse debate na sociedade (algo que o PMDB
está tentando – e conseguindo – fazer).

É claro que isso poderia criar
ainda mais tensões na já problemática relação com os partidos da “base”, por
exemplo. No entanto, me parece que, neste momento, o único antídoto ao
oportunismo de seus “aliados” no Congresso é conseguir mostrar força no seio da
sociedade civil. Do contrário, enfraquecida como está, a presidenta ficará cada vez mais refém dos "achacadores" do Congresso...
Por fim, uma última observação: para
fazer política nestes termos, é verdade, Dilma e seu governo precisam rever
urgentemente sua estratégia de comunicação. Construir uma narrativa paralela - e real - em relação àquela tramada pela grande mídia (que, sem contraponto, tem se disseminado facilmente). Afinal, um governo no qual a
dificuldade em se comunicar chegou ao ponto de o presidente da Câmara, e não o
Planalto, anunciar a demissão de um ministro, pode ser um governo fadado a
permanecer o tempo todo encurralado contra as paredes que ele mesmo está
ajudando a construir.