Via de regra, os estudiosos de
Heidegger dividem seu pensamento em duas grandes fases. Uma primeira até o
final da década de 1920, sintetizada em sua obra magna, Ser e tempo, e outra, que se inicia com a preleção O que é metafísica, de 1929, e se estende
até sua morte, em 1976. Em comum, ambas têm como pano de fundo aquela que
Heidegger considera ser a questão fundamental a filosofia: a questão sobre o sentido do ser.
A questão do ser, die Seinsfrage, é pensada por Heidegger
à luz de uma “destruição” (Destruktion) ou “desconstrução” (Abbauen)
de todo o pensamento metafísico ocidental. Para compreendê-la, é preciso
inicialmente distinguir duas acepções do termo ser. Há o verbo ser,
empregado no sentido de existir (ser vermelho, ser mesa, ser mulher, se etc.), e
o substantivo (um ser vivo, um ser
humano, um ser divino etc.). Heidegger emprega o vocábulo ente (Seiende, no alemão)
para esta última acepção, e deixa a palavra ser
(Sein) exclusivamente para a primeira.
Todo ente é, está presente, existe. Mas, todo ente tem um ser: o ser da mesa, o
ser da cadeira, o ser do homem etc. Heidegger denomina diferença ontológica essa distinção entre ser e ente.
À luz dessa tese, Heidegger
observa que o pensamento filosófico consolidado após Platão e Aristóteles,
progressivamente desrespeitou essa diferença, “esqueceu o Ser”, tratando-o como
ente, objetificando-o. Por exemplo, se me pergunto “o que é essa mesa?”, posso
fazer um inventário de todos os seus predicados: é retangular, é de madeira, é
marrom etc. Contudo, a soma desses predicados não é capaz de dar conta do que é
esse “é” da mesa. O ser da mesa ultrapassa essa soma e, ao mesmo tempo, não é
nenhum desses predicados. Por isso, Heidegger vale-se da construção alemã Es gibt
para indicar o Ser. No português corrente, traduzimos essa expressão por
“há”. Es gibt etwas hier, por
exemplo: “há algo aqui”. Mas, a rigor, a expressão alemã indica um “dá-se” (es é um pronome pessoal indefinido, análogo
ao it inglês, e gibt é a conjugação da terceira pessoal do singular verbo geben, “dar”). Literalmente, portanto, es gibt significa: “algo se dá”. Assim, es gibt einen Tische, é, em português
corrente, traduzido como “há uma mesa”. Mas, seguindo a indicação de Heidegger,
seria preciso traduzir como “algo se dá uma mesa”. E o que seria esse algo? O
Ser. O Ser dá-se uma mesa, isto é, torna-a presente, aqui, diante de mim, ao
lado da parede etc. Pelo pensamento, eu acolho esse “dar-se” do ser.

Contudo, convém sublinhar: o ser heideggeriano
não é a “coisa em si” inapreensível de Kant, o “Espírito” hegeliano, ou a
“vontade de poder” de Nietzsche. Todas essas construções, para Heidegger, são
indicativas da tentativa de tornar o ser um ente. As coisas não “escondem” nada
atrás de suas aparições, como observa o mestre intelectual de Heidegger,
Husserl, pai da fenomenologia. As coisas são o que são em sua aparição. O Ser é
aquilo que torna as coisas presentes e se revela por essas coisas – é ser do
ente –, ao mesmo tempo em que não se confunde com elas. Nesse sentido, o Ser
não é, é Nada (
Nichts).
Ora, é esse paradoxo que, na
visão de Heidegger, os primeiros filósofos (os pré-socráticos, sobretudo,
Parmênides e Heráclito) observaram e tentaram expressar em suas filosofias. Entretanto,
a confusão oriunda da ambiguidade do termo ser (como verbo e como substantivo,
como indicado no início), resultou no esquecimento do Ser. Assim, a distinção socrático-platônica
entre o mundo sensível e o inteligível, a cadeia aristotélica de ser que
culminava no “Primeiro motor”, o Deus tomista ou de Descartes, todas essas
construções são indicativas daquele esquecimento, pois, nelas, o que se fez foi
tomar o Ser como um objeto que servisse de Grund,
solo, fundamento, ponto fixo a partir do qual o pensamento poderia se mover.
Por isso, diz Heidegger, é preciso “destruir” toda a metafísica para recuperar
o verdadeiro sentido do Ser.
Em grandes linhas, é esse
agenciamento que ocupará o conjunto da reflexão heideggeriana. Nesse sentido, o
que fundamentalmente distingue as duas grandes fases de seu pensamento é que,
na primeira, o filósofo busca desvendar o sentido do ser por meio de uma
investigação analítica do ente cujo modo
de ser é, nele mesmo, uma indagação sobre o sentido do ser – o ser humano – ao
passo que, na segunda, a reflexão é deslocada para a tentativa de desvelamento
do Ser nele mesmo.
Expliquemos. Em Ser e tempo (Sein und Zeit), Heidegger assinala que o ser humano o único ente que pode
questionar o ser. Para indicá-lo, porém, o autor rejeita o uso dos conceitos
antropológicos tradicionais, bem como aqueles usualmente empregados pela
tradição: eu, mente, espírito, alma etc. O ente que se coloca a questão sobre o
Ser é Dasein, traduzido literalmente
como “ser-aí”. Apenas Dasein pode compreender o Ser, indagar seu sentido. Como?
Encontramo-nos no mundo cercados de coisas (isto é, de entes) que nos aparecem
como estando “à nossa mão”. Dasein é o
ente para o qual a totalidade dos entes aparece, para o qual há um mundo. Dasein é ser-no-mundo (In-der-Welt-sein).
Ao relacionarmo-nos com essas coisas, nos ocuparmos desse mundo e estabelecemos
nossos possíveis. Através deles, isto
é, da tentativa de realizá-los, podemos compreender nossa existência e, por
conseguinte, o Ser. Por isso, a relação com o mundo é relação consigo mesmo e
vice-versa. Para explicar essa relação, Heidegger a define como cuidado (Sorge). Nossa relação, a relação de Dasein com o mundo (e aí incluso si mesmo e os outros) é uma
relação de cuidado.

Sem adentrar na “analítica
existencial” de
Ser e tempo (isto é, a explicitação das categorias através das quais é possível compreender
Dasein) e seus temas palpitantes, como a angústia, a alienação e a morte,
o que mais interessa aqui é demarcar uma segunda distinção capital, desta vez no
plano dos entes (plano que Heidegger denomina
ôntico). Todo ente, toda coisa, é. Apenas
Dasein, o ser humano,
existe.
Existir é se fazer presente, em cada momento, “aí”, no mundo, em uma
determinada situação. Heidegger nota que “existir” vem de ec-sistire, a
partícula “ec” sinalizando um lançar-se no mundo, para frente, ser-fora-de-si-mesmo.
Eis porque, para
Dasein, fala-se em
possibilidade – algo que não existe para os objetos em geral, que são o que são.
Contudo, nem tudo é possível para a realidade humana. Ao existir, deparamo-nos,
cada um de nós, com aquilo que Heidegger denomina de
facticidade. Esta nada mais é do que o
conjunto de circunstâncias que permite a cada indivíduo fazer
determinadas projeções em detrimento de outras, alcançar certas realizações e
não outras etc. Assim, como não é um dado inerte, a existência, para Heidegger,
só pode ser pensada como uma interrogação permanente em torno dessa
facticidade, desse lançar-se no mundo em busca de concretizar suas
possibilidades. Portanto,
Dasein ec-siste
no
tempo.
Por isso, o filósofo por vezes trata
sua filosofia inicial como uma “fenomenologia hermenêutica”. Mas,
diferentemente do emprego antigo do termo, a hermenêutica aqui não diz respeito
à interpretação de textos, mas interpretação
da própria existência e, através dela, do sentido do ser. O Ser, diz
Heidegger, é aquilo que se revela em seu encobrir-se, aquilo que se encobre ao
revelar-se. É abertura. Como a abertura entre as árvores numa floresta, que não
é nem uma árvore em particular, nem seu conjunto, nem o solo, nem o céu etc.,
mas é aquilo pelo qual a floresta se apresenta. O ser é ele mesmo. Ser ele
mesmo, é ser essa abertura, é Es gibt mencionado
no início, e, portanto, é ser Nada. O Nada pelo qual as coisas positivamente
podem ser, existir. O “dar-se” do ser é, enfim, temporal. Quer dizer, o tempo é a condição sem a qual não existe
o ser, desde que este seja entendido a partir do ser do ente que se pergunta
sobre o ser, isto é, a partir de Dasein,
da realidade humana. Só no tempo é que Dasein
se projeta, se ocupa e cuida do mundo e, com isso, pode trazer à luz esse
mistério do Ser.

Na segunda fase de seu
pensamento, Heidegger desloca sua atenção para apreender a “Verdade do Ser”. O
ser, como dito, é um processo de ocultar-se e revelar-se. Por isso, sua verdade
não pode ser pensada ao modo tradicional, como “convergência do pensamento e da
coisa”, típico da metafísica a ser combatida. Afinal, o Ser não é coisa. Com efeito, a “verdade do Ser” é aletheia, termo grego que, em sentido
literal, significa “não-esquecido” ou “descoberto”. A verdade do ser é
anunciada pelo Ser. Por isso, o Ser é linguagem, e o ser humano é o guardião da
verdade do Ser, o responsável por atender seu apelo e explicitá-la. É pela
linguagem, não obstante suas limitações intrínsecas, sobretudo a poesia, que o
Ser revela-se em seu próprio ocultamento.
Para além da tecnicidade do
vocabulário heideggeriano, e de certo misticismo nele e nesse modo de tratar o
Ser, há um desdobramento ético-político dos mais interessantes (nada a ver,
sublinhe-se, com as relações do autor com o nazismo, o que é outra história) no modo como Heidegger lê a
história da filosofia – ou seja, a formação da própria racionalidade ocidental –
enquanto “esquecimento do ser”. Ele se encontra presente no entrecruzamento da “objetificação”
do ser com o domínio da técnica na modernidade, o que conduz, no entender do
filósofo, a uma existência alienada, inautêntica, típica de nossa era, e que tem importantes pontos de convergência com a tematização da alienação em Marx. Contudo,
dada sua extensão, em breve tentarei dedicar outro post exclusivamente a essa questão.