Há um poema maravilhoso de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, que começa assim:
"O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia".
Sei que o Kiss já executou milhares de vezes (literalmente) a música Detroit rock city. Mas, para mim, esta versão abaixo é a melhor de todas. Não porque ela seja a melhor de fato. Mas porque, assim como o Tejo não poderia ser mais belo que o rio que corria na aldeia do poeta - mesmo que fosse - porque não era o rio que corria em sua aldeia, esta versão é a melhor já feita, porque foi esta a que vi, ao vivo, pela primeira vez, no último sábado, em São Paulo. Foi com ela que meu coração disparou, aguardando a realização daquele velho sonho de adolescência. Por isso, para mim, ela é - e sempre será - a melhor.
Rock on!
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
Um menino, uma banda, um sonho
Corriam os primeiros meses do ano
2000. O mundo não tinha acabado, e eu me preparava para cair na noite pela
primeira vez. Primeira balada. Primeira vez que ficaria até altas horas na rua.
Era sábado à noite, festa organizada pelo colégio onde estudava. Nada demais.
Mas, como seria a tônica dali para frente, estava ansioso. Muito ansioso.
Inseguro. Não sabia o que esperar, como me comportar. Muitos de meus amigos já
tinham certa experiência no assunto. Eu não. Caseiro e extremamente tímido,
minha vida social até então (tinha 14 anos à época) limitava-se a sair para
comer pizza com a turma, ir ao cinema ou coisas assim. Agora, de alguma forma,
eu dava um passo além. Para mim, ao menos, era.
Sem saber muito o que fazer para
matar o tempo até às 23 horas, quando deveria chamar meu pai, que então dormia,
para me levar, me fechei no meu quarto e decidi ouvir um pouco de música para
tentar me distrair. A escolha, àquela altura, só poderia ser uma: algum CD de
rock, especialmente do Kiss, à época a banda que eu mais ouvia e tentava, na
minha guitarra, copiar. Coloquei o mítico álbum Destroyer, de 1976, e meio que por impulso, pulei para uma de
minhas faixas prediletas, “Shout it out loud”. O Kiss, como se sabe, nunca foi
uma banda marcada por letras profundas, mas conta, ao longo de sua trajetória,
com algumas peças e versos interessantes, especialmente sobre a necessidade
de aproveitarmos a vida ao máximo, acreditar em nosso potencial, além de várias
canções sobre o amor, sexo e relacionamentos, como é de praxe no rock’n’roll, especialmente no chamado hard rock. E
“Shout it out loud”, naquele momento, me caiu como uma luva. Não era bom de
inglês, acabara de começar fazer um curso particular, mas conhecia
algumas letras e suas respectivas traduções através de revistas que comprava.
Ao ouvir uma canção sobre alguém que quer ter um pouco de diversão e precisa se
sentir confiante, aquela música parecia feita para aquele meu momento: “’cause
it’s time o take a stand”, dizia o último verso, que eu repeti na minha cabeça aquela
noite toda, e durante outras vezes mais.
Muitos anos se passaram. Algumas
conquistas, muitas cabeçadas, a companhia de pessoas certas, acrescidas a
alguns aninhos de terapia, me fizeram me conhecer melhor, e conhecer um pouco
mais do mundo que me cerca. Fizeram-me superar um pouco a timidez, a
insegurança, e até certa baixa auto-estima. Mas, de alguma forma, mesmo que
indiretamente, aquela banda de cabeludos mascarados participou de todo esse
processo. Afinal, era o Kiss uma das trilhas sonoras que me ajudavam a
prolongar o êxtase dos momentos de alegria – como quando passei no vestibular,
ou comecei a namorar minha atual esposa –, ou que também arranhava na guitarra
para descontrair e sonhar. Também era o Kiss que eu colocava quando tentava ou
precisava ficar “pra cima” nos (nada raros em certo período) momentos de depressão,
incerteza, angústia e medo.
Apesar disso, nunca achei que os
veria pessoalmente. Quando eles vieram para o Brasil pela terceira vez, em
1999, tinha acabado de conhecê-los. Aliás, foi um cartaz anunciando aquele show
da Psycho Circus Tour, na antiga
revista Showbiz (que acho que nem
existe mais), que me encantou. Ficava olhando aqueles personagens que variavam,
dependendo do ângulo, entre palhaços (no bom sentido) e demoníacos, e dizia
para mim mesmo: “preciso saber quem são esses caras”. Depois de muitas idas e
vindas (deles e minha), o Kiss retornou ao Brasil em 2009. No entanto, a falta
de $$, mais os compromissos acadêmicos do mestrado que eu fazia à época,
abortaram minha chance de vê-los. Sinceramente, já tinha desencanado da
possibilidade de ir a um show – afinal, nunca se sabe até quando vai o fôlego
de uma banda quase quarentona –, quando eles anunciaram um novo disco para
2012, Monster, e uma turnê que passaria por essas bandas. Depois de ouvi-lo e
aprová-lo, só poderia comprar meu ingresso para o show de Sampa e, quase sem
querer, realizar um velho sonho adolescente – mesmo que não tenha oportunidade
de conhecer um de meus integrantes preferidos, o guitarrista Ace Frehley, que infelizmente não está mais na banda.
Enfim, muita coisa aconteceu
desde aquele sábado à noite. Muita mesmo. Mas, de alguma forma, um pouco do que
sou hoje, e mesmo daquilo que desejo e sonho (para mim e para o mundo), ainda devo
à influência inesperada daquela banda norte-americana de rock alegre e
descompromissado. Por isso, toda vez que me pego ouvindo alguma música do Kiss,
para além das memórias que muitas me trazem, não posso deixar de gritar bem
alto, mesmo que seja só dentro da minha cabeça: “obrigado”.
A seguir, um vídeo devastador de
“Shout it out loud”, abrindo o primeiro show da Reunion tour, turnê que marcou a volta da formação original da
banda, em 1996 (e durou até 2002).
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
Notas sobre meio ambiente e socialismo
Tema historicamente negligenciado
pela esquerda (a começar pelo próprio Marx), o meio-ambiente foi colocado em
pauta a partir dos anos 1970 até se tornar, neste século, um tópico obrigatório
em qualquer discussão política progressista – especialmente para partidos e
movimentos anti-capitalistas. Se as experiências pós-capitalistas do século XX
nos demonstraram a impossibilidade de se construir o socialismo sem democracia,
como nos lembrava Carlos Nelson Coutinho num célebre ensaio (A democracia como valor universal),
agora é preciso acrescentar à gama de conceitos obrigatórios do roteiro
socialista a preservação ambiental.
No entanto, até mesmo por conta
da falta de bons referenciais teóricos a respeito, há dificuldade, sobretudo em
setores de esquerda historicamente mais vinculados ao marxismo ou a teorias
marxizantes, em assimilar essa pauta. Mesmo um partido grande e estruturado como
o PT padece desse mal. Apesar disso, é preciso chamar a atenção para o fato de
que a luta pela sustentabilidade ambiental recoloca na ordem do dia – e por
vias inéditas – a utopia socialista. Senão, vejamos.
Desde o último quarto do século
passado, o fordismo deixou de ser o padrão
hegemônico de acumulação capitalista. Por conseguinte, a estrutura social que
sustentava esse modelo (e dialeticamente se constituía a partir dele) foi
severamente modificada. O mundo mais rígido e homogêneo do fordismo, da
produção e do consumo em massa de mercadorias padronizadas, cedia lugar, como
observa Terry Eagleton, “ao mundo efêmero e descentralizado da tecnologia, do
consumismo e da indústria cultural, no qual as indústrias de serviços, finanças
e informação triunfam sobre a produção tradicional, e a política clássica de
classes cede terreno a uma série difusa de ‘políticas de identidade’”. É o
modelo da acumulação flexível,
segundo a definição do geógrafo David Harvey. A contrapartida mais evidente
deste novo padrão de acumulação de capital, foi (e é) a crescente dissolução do
antigo mercado de trabalho: a precarização dos empregos, a disseminação dos
“subempregos” informais, bem como uma ofensiva inédita, em escala global, de
flexibilização dos direitos, ajustada à nova realidade de dispersão espacial e
temporal das unidades produtivas, bem como ao ritmo de giro cada vez mais
acelerado do capital.
De um ponto de vista político, Marx
enxergava um lado positivo no aparecimento da grande indústria: ela permitia a
concentração, num único local, de centenas de trabalhadores que, explorados em
iguais condições, poderiam mais facilmente adquirir consciência de sua situação
em comum. Assim ,
a luta contra o capitalismo seria facilitada pelos próprios meios fornecidos
pelo capital. “A burguesia cria seus próprios coveiros” dizia o célebre Manifesto Comunista.
No mundo do trabalho
contemporâneo, essa concentração, quando existe, é cada vez mais residual. Agora
há, na verdade, um movimento crescentemente diáspórico, relacionado à realidade
– hoje duramente experimentada pelos europeus, mas que nos é bastante familiar
– de desemprego estrutural, subempregos etc., que acirra ainda mais a
competição entre os trabalhadores, exacerba o individualismo, e desacredita a grande política, como dizia Gramsci. Diretamente
vinculada à velocidade do giro do capital em seu processo reprodutivo atual,
vivemos a época do aqui-agora sem
profundidade dimensional, a estetização da vida, o elogio do simulacro,
ampliado de modo praticamente ilimitado e facilitado pelas novas tecnologias,
sobretudo virtuais.
Politicamente, os referenciais
objetivos de luta comum dos trabalhadores, que permitiam a construção de uma
subjetividade em consonância com sua posição no processo produtivo, isto é, que
permitiam alguma forma de consciência de
classe, foram praticamente dissolvidos. As dificuldades atuais da luta
sindical são um exemplo patente dessa conjuntura. Num mercado fragmentado, em
que cada dia se trabalha (por necessidade) num local diferente, para um patrão
diferente, muitas vezes sem direitos e/ou garantias trabalhistas mínimas, sem
direito a férias etc., qualquer traço de solidariedade requisitado pela ação
sindical (para não falar daquela ação política de maior magnitude) torna-se
exíguo.
Todo esse amplo movimento, aqui
apenas esboçado, cuja finalidade explícita nada mais é do que renovar as
possibilidades de acumulação do capital diante das contradições estruturais do
próprio sistema, e que ficou conhecido como neoliberalismo,
foi devidamente legitimado nas últimas décadas pelo discurso ideológico pós-moderno.
Em linhas gerais, contra visões “totalizantes”, amplas, da sociedade e da
História, como é o caso do marxismo, que almeja construir uma nova sociedade universal, cujo princípio organizador se contraponha ao princípio vigente
(também universal) do mercado capitalista (a assim chamada globalização), o pós-modernismo celebra uma experiência “volátil e
efêmera”. Desconhecedora de “qualquer sentido de continuidade”, tal experiência
“se esgota no presente vivido como instante fugaz”, a partir de “uma adesão à
descontinuidade e à contingência bruta”, como explica Marilena Chauí. Na
ideologia pós-moderna, prossegue a filósofa, a sociedade “aparece como uma rede móvel, instável, efêmera de organizações
particulares definidas por estratégias particulares competindo entre si”.
Assim, o pós-modernismo transforma as exigências (econômicas, políticas,
culturais e ideológicas) do capital em virtude. Por conseguinte, reforça a percepção de
que a luta política por uma outra sociedade já não faz sentido.
Ora, o problema da preservação
ambiental coloca justamente em xeque a ideologia pós-moderna, ao mostrar que o
problema do meio-ambiente é um problema universal.
Que não se relaciona apenas a um momento efêmero, circunscrito a um espaço
particular, mas que põe em risco, de fato, a própria sobrevivência da
humanidade como um todo. E que, portanto, só pode ser resolvido
nesta perspectiva.
Marx definia o capitalismo como “uma
formação social em que o processo de produção domina os homens, e ainda não o
homem o processo de produção”. Ao protestar contra a relação atual do homem com
a natureza, o que a questão ambiental precisamente nos demonstra é a
necessidade (e mesmo a urgência) de invertermos a lógica que subsume o homem ao
capital. Afinal, a preservação do meio-ambiente e da vida em nosso planeta
depende fundamentalmente do uso racional
dos recursos finitos, da aplicação de nosso conhecimento no melhor
aproveitamento desses recursos, da melhor distribuição da produção e do consumo
sustentável. No entanto, tais exigências não podem ser satisfeitas numa
conjuntura na qual a última palavra é da irracionalidade da acumulação do
capital.
A preservação do meio-ambiente
requer uma nova relação com a natureza, uma nova forma de utilizarmos os
recursos naturais. Numa palavra, uma nova forma de trabalho. Mas a forma como consumimos está diretamente relacionada
à forma como produzimos e distribuímos aquilo que foi produzido.
Produção-distrbuição-consumo perfazem um nexo estruturalmente indissociável. Não
se muda de fato um dos elementos sem que se alterem os outros. Isso significa
que novas formas de consumo exigem formas racionais de produção, ambientalmente
sustentáveis, que exigirão novas formas de distribuição, orientadas em atender
as necessidades básicas de todos e minimizar (ou anular) o desperdício. Essa
configuração é impossível na
perspectiva da anarquia intrínseca ao mercado capitalista e da acumulação de
capital. Há, de fato, uma contradição essencial entre uma produção de bens
planejada e orientada segundo critérios racionais de sustentabilidade ambiental
e a produção capitalista de mercadorias, com suas relações (inter-humanas e com
a natureza) cujo fim último é tão somente reproduzir o capital. Por isso, cumpre
sempre destacar que o controle do homem sobre seu trabalho, sobre sua relação
com o meio-ambiente e os outros homens, sobre as formas de satisfazer as
necessidades básicas de todos, só é possível a partir do momento em que
começamos a inverter a lógica vigente.
Nesse sentido, a pauta ambiental
traz positivamente, a partir de um problema objetivo da maior gravidade, um
novo fôlego para a luta anti-capitalista. Sem cair no catastrofismo (que também
pode servir a interesses escusos daqueles que lucram com a degradação
ambiental), é preciso que o discurso socialista, em sua disputa por uma nova
hegemonia, seja capaz de refletir e incorporar de fato (e não apenas de modo formal, como acontece muitas vezes) a
defesa do meio-ambiente e de uma nova e saudável forma de o homem se relacionar
com a natureza, orientado pela impossibilidade estrutural de o modo de produção
atual responder satisfatoriamente a esse desafio. Com isso, mesmo diante das
dificuldades inéditas de fazer acreditar a grande política, a velha questão
sobre o sujeito histórico da mudança pode ganhar novos ares,
inclusive pela possibilidade de incorporação de novos atores que, ausentes na
perspectiva marxista clássica centrada exclusivamente na oposição insuperável
capital-trabalho (sobretudo os setores “médios” da sociedade, e mesmo parte da
“pequena-burguesia”), também podem se alinhar à causa socialista em nome da
defesa necessária da vida e do planeta contra o “trabalho-morto” do capital.domingo, 28 de outubro de 2012
Vitória do PT nas eleições 2012
Mesmo com toda a campanha midiática contrária, apoiada na "coincidência" do "julgamento" do mensalão com o período eleitoral, o PT cresceu em número de prefeituras, ganhou a disputa em São Paulo e sai vitorioso dessas eleições, como o partido mais votado do país. Mais do que isso: consolida o projeto democrático-popular que tem mudado e, esperamos, mudará ainda mais a cara do Brasil.
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
Reta final do Brasileirão
No dia 26 de agosto, publiquei um
post (leia aqui) com um balanço do primeiro turno do Brasileirão e alguns
prognósticos para o segundo turno. As previsões basicamente se confirmaram, conquanto
eu não acreditasse numa queda tão acentuada do Vasco, nem que o Fluminense, virtual campeão, fosse capaz de disparar na primeira liderança. Tampouco, acreditava que o
Palmeiras chegasse a essa altura tão próximo do rebaixamento, embora ainda ache
que é possível que os palestrinos escapem.
Quanto ao São Paulo, as últimas
rodadas demonstraram um amadurecimento da equipe, que conta, depois da
afirmação de Denílson e Wellington como volantes e, surpreendentemente, de
Paulo Miranda na lateral, com um sistema defensivo mais sólido. Na frente, além do motorzinho Lucas, Osvaldo finalmente tem mostrado serviço, e Luis Fabiano continua o artilheiro
de sempre. Por isso, é absolutamente plausível acreditar na última vaga para a
Libertadores, hoje restrita a São Paulo e Vasco, mas com boa vantagem para o
tricolor do Morumbi, que conseguiu abrir cinco pontos do rival carioca. No
entanto, é preciso abrir o olho: as próximas rodadas serão difíceis para o time
do Morumbi, que enfrenta Flamengo e Sport fora, Fluminense em casa e Grêmio
fora. É a hora de o São Paulo definitivamente se garantir na competição
sul-americana do próximo ano. Algo que, para um time que teve Leão no comando
por sete meses, é uma grande conquista.
terça-feira, 9 de outubro de 2012
O PT, Chávez e Che
O dia 07 de outubro de 2012 foi
um dia especial para a luta dos trabalhadores e para as causas populares. No
plano nacional, apesar de algumas derrotas importantes como em BH, Recife (para
não falar da minha São Carlos, que depois de 12 anos petistas entregou dolorosamente
a prefeitura para os tucanos), o PT obteve recorde histórico de votos para
prefeito, consolidando seu crescimento constante na última década. Enquanto
PDSB, DEM e mesmo o PMDB encolheram, o PT obteve 17, 2 milhões de votos neste
ano, contra 16,5 milhões em 2008 (o que representou também um aumento
significativo no número de prefeituras comandadas pelo partido, que até aqui
somam 624). Isso apesar da campanha permanente contrária da grande mídia e de
certos setores da sociedade, que, neste ano, abastecidos com o julgamento do “escândalo
do mensalão”, não se cansaram de emitir prognósticos sobre uma suposta
derrocada do partido. Mas, o que o impacto nulo que o circo armado pelo STF
para condenar os dirigentes petistas às vésperas do primeiro turno das eleições
demonstrou, é que o PT não morrerá por decreto de ninguém, porque sua causa é
justa, porque o projeto político popular de justiça e igualdade social que o
partido representa (apesar de todas as suas contradições) não desaparecerá
enquanto não for plenamente realizado.
No plano internacional, a vitória
expressiva de Hugo Chávez, na Venezuela, acentuou o caráter histórico desse dia.
Afinal, o presidente venezuelano enfrentou uma batalha não apenas contra seu
adversário direto, o direitista Henrique Caprilez, e contra os problemas naturais de seu governo, mas também contra a
burguesia local, com todo seu poder econômico, político, e midiático; contra a
torcida escancarada das burguesias latino-americanas e de seus porta-vozes da
grande imprensa (basta notar que o destaque dos jornalões e das TV brasileiras foram
a boa votação de Capirlez, jamais a vitória chavista, que para eles nunca teve
mérito por nada, mas só ganha porque “controla” o povo e a imprensa); e contra
o imperialismo norte-americano. A vitória de Chávez é, como já havia dito no
post anterior, a vitória da América Latina livre e progressista, de nossa
soberania e de nosso processo de integração calcado na solidariedade e na
justiça social.
Aliás, por falar nisso, nesta
terça-feira, 09 de outubro, completam-se 45 anos do assassinato de Ernesto
“Che” Guevara. Embora esteja longe de ser uma data festiva para a esquerda (na
verdade, para toda a humanidade), ela nos lembra da importância da luta e do
legado deste homem excepcional, a quem o filósofo francês Jean-Paul Sartre certa vez definiu como "não apenas um intelectual, mas também o homem mais completo de nosso tempo e o ser humano mais perfeito de nossa era". Pois, como bem disse o companheiro Stanley
Burburinho no twitter (@stanleyburburinho), “há 45 anos assassinaram Che
Guevara, mas não conseguiram matá-lo”. De fato, o sonho de Che por uma América livre,
por uma sociedade justa e fraterna, segue vivo. Apesar de todos aqueles que
lutam para sufocá-lo.
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
Na Venezuela, o futuro da América Latina
No próximo domingo, dia 07/10, enquanto os olhos dos
brasileiros estiverem voltados para as eleições municipais, em outro pleito
decisivo, na Venezuela, o futuro de toda a América Latina estará em jogo. O atual presidente
Hugo Chávez tentará sua reeleição, numa disputa com o direitista Henrique
Capriles, candidato da elite local e dos EUA.
Chávez foi o primeiro presidente
de esquerda eleito após a onda neoliberal que assolou nossa região nos anos
1980/1990, em 1998. Com um governo popular, de inversão de prioridades e
privilegiando as classes mais baixas, vem promovendo uma verdadeira revolução naquele país, financiada pelo
dinheiro do farto petróleo venezuelano (daí o interesse dos EUA na Venezuela),
que pela primeira vez é usado para atender os interesses do povo, e que permite
a setores historicamente marginalizados, o papel legítimo de sujeitos políticos de seu país. Isto, naturalmente, provocou uma tensão
permanente no país, um processo agudo de luta
de classes. Sobreviveu
(literalmente) a um golpe de Estado em 2002, promovido pela burguesia local com
apoio norte-americano. Foi reeleito em 2005, e agora tenta prosseguir sua
“Revolução Bolivariana”. Tem apoio popular, lidera todas as pesquisas de intenção de voto com boa margem (cerca de
20%), mas luta contra forças que sabidamente podem se valer de qualquer meio
para conseguir seus objetivos – a começar pelo imperialismo norte-americano.
O medo dos apoiadores de Chávez é
que a oposição não reconheça os resultados das eleições do dia 07 (se de fato
perderem) e tentem – sob a acusação de “fraude”, “compra de votos” etc. –
desestabilizar o país e sua democracia. Independentemente das críticas pontuais
que se possa fazer a Chávez, ao seu governo etc., neste momento, é preciso ter
em mente que uma derrota chavista seria um duro golpe no cenário progressista,
que tomou conta da região depois de sua vitória e da vitória de Lula, em 2002.
Hoje, a América Latina, especialmente no Sul, é um verdadeiro laboratório de
experiências que buscam superar o neoliberalismo e seus efeitos nefastos. A
Venezuela é uma das pontas deste processo. Uma derrota de Chávez poderia servir
de combustível para a direita combalida, mas jamais morta, em nosso continente
– da mesma forma que sua vitória e seu governo foram importantes impulsos para
os sucessos subsequentes da esquerda na região. Portanto, como disse há alguns
meses o ex-presidente Lula (ver ) em mensagem ao Foro de São Paulo (congresso que reúne os partidos de esquerda e
movimentos sociais do continente), a vitória de Chávez, mais do que a vitória
do povo venezuelano, é a vitória de toda a América Latina.
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