25 de janeiro de 2017: se vivo ainda fosse, o Maestro Soberano da música brasileira, Antônio Carlos Jobim, estaria completando 90 anos. Para marcar a data, compartilho aquela que considero ser uma das melodias mais belas da MPB (se não a mas), criada pelo gênio de Tom e brilhantemente letrada por Chico Buarque: Anos dourados.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2017
segunda-feira, 16 de janeiro de 2017
Ricardo Darín - 60 anos
O ano no blog se inicia com uma homenagem ao grande ator argentino Ricardo Darín, que neste 16 de janeiro completa 60 anos. Mas, ao contrário do usual, não vou aqui publicar algum trabalho dele. Nesse tributo, deixo vocês com dois trechos de entrevistas de Darín, nas quais ele demonstra não apenas ser talentoso em sua profissão, mas também ser um cidadão acima da média. No primeiro, fala de sua recusa a trabalhar em Hollywood, deixando o entrevistador desconcertado, No segundo, sobre a utopia.
No dia em que é publicada a notícia de que oito pessoas detêm riqueza maior do que a metade mais pobre do planeta (leia aqui), as palavras de Darín reforçam a necessidade de se pensar em um modo de vida diferente do que aquele em que vivemos.
sexta-feira, 30 de dezembro de 2016
Um ano intenso
2016 foi um ano intenso – o que não significa dizer positivo. Para todos os efeitos, na verdade, foi histórico. Um ano em que todos os dias levantávamos a espera de uma notícia bombástica. E, invariavelmente, ela vinha, na forma de tragédias e mortes, ou jogando constantes baldes de água fria em todos que se preocupam com o futuro do país. Neste último aspecto, o ápice, claro, foi o golpe que apeou Dilma Rousseff da presidência, e mergulhou o país em uma agenda abertamente regressiva.
Mas, como desgraça pouca é bobagem, a deposição de Dilma se inscreve em um cenário de recrudescimento da extrema-direita pelo mundo, simbolizado pelo Brexit e pela eleição de Trump, cujo desfecho ainda é imprevisível. Nesse sentido, 2017, no Brasil e no mundo, será um ano em que esses movimentos deverão ganhar contornos mais definitivos, respondendo algumas questões latentes neste fim de 2016. Por exemplo: até que ponto Temer conseguirá se manter na presidência e impor seu (e do PSDB) programa de reformas neoliberais? A Lava Jato conseguirá cumprir sua missão maior, ou seja, prender Lula e criminalizar simbolicamente toda a esquerda? E ainda: para onde vão os EUA e a Europa diante da força dos discursos ultranacionalistas, xenófobos e racistas?
Do ponto de vista pessoal, porém, o ano foi positivamente marcante. Em que pesem algumas decepções particulares e a raiva com o fraco desempenho do São Paulo, 2016 fica marcado em minha vida como o ano da realização de mais um sonho profissional: a aprovação em concurso para professor efetivo de uma universidade pública (a UFBA). Angelica, minha esposa, que segurou a barra durante todo o período de tentativas e frustrações, é a única pessoa que tem ideia do que essa conquista significou. E fica aqui meu registro público de que, sem o apoio dela, essa conquista seria impossível.Enfim, não obstante o próximo ano aparentemente não despontar com as cores mais brilhantes, é preciso manter um fio de esperança. O futuro não está pré-determinado, mas depende exclusivamente de nossas ações. Por isso, desejo sinceramente a todos os leitores e leitoras do blog um ano de sucessos e realizações, tanto pessoais quanto nacionais.
O blog retorna em breve!!!
segunda-feira, 12 de dezembro de 2016
A morte e a ausência de Deus: "O sétimo selo" de Bergman à luz da filosofia de Sartre
Motivado por uma atividade na
UFBA, resolvi escrever este post esboçando uma interpretação do filme O sétimo selo, do diretor sueco Ingmar
Bergman, à luz da filosofia de Sartre. Mais particularmente, de um eixo
temático comum a ambos: a ligação entre a existência de Deus e a morte.
O enredo do filme – cujo título
remete a uma passagem do Apocalipse, na Bíblia – é relativamente simples: no
final da Idade Média, um cavaleiro e seu ajudante retornam das Cruzadas e se
deparam com uma população avassalada pela Peste. O cavaleiro, Antonius Block
recebe a visita da Morte e, a fim de estender sua vida, convida-a para um jogo
de xadrez. Se perdesse, partiria com ela. Enquanto o jogo não terminasse,
permaneceria vivo, em busca de um sinal da existência de Deus e de que sua vida
não teria sido em vão. A Morte, que nunca fora derrotada, aceita o desafio.
A partir daí, o filme retrata a
jornada de Block em busca das respostas à suas aflições existenciais em um
mundo fortemente marcado pela religiosidade e pelo medo. Neste contexto, dois
temas tipicamente afeitos ao pensamento de Sartre brotam ao longo da película.
O primeiro é precisamente a busca por um sentido transcendente, uma
justificativa para a vida, que atravessaria o próprio ser do homem, mas cuja
resposta seria impossível, dada a ausência de Deus. Por exemplo: em dado
momento, Block se desespera porque quer abandonar tudo, se entregar ao seu
inevitável destino, mas, ao mesmo tempo, sente-se incapaz dessa resignação,
porque não consegue se desvencilhar da dúvida, da inquietação por saber se sua
vida, integralmente dedicada a Deus, teria tido algum sentido.
Com efeito, Bergman elabora uma a
permanente tensão que perpassa toda a jornada de Block: a tensão entre sua
crença, isto é, o desejo de que Deus forneça algum sinal de que a vida – a sua
em particular, mas também a de todos acometidos pela tragédia, que não
abandonam a fé – e a ausência de qualquer resposta concreta. O fracasso, a paixão inútil do ser humano, diria Sartre.
Nesse sentido, quase como um
Sancho Pança do célebre romance de Cervantes, o ajudante de Block, Jöns, funciona
no filme como uma espécie de “voz da razão”. Cético, em toda oportunidade
aponta para a gratuidade do existir – a contingência
do ser, para usar outro conceito de Sartre. Isso fica claro, por exemplo, no
momento em que uma mulher acusada de “bruxaria” – por conseguinte, culpada pela
disseminação do castigo da Peste – será crucificada e queimada. Observando seu
olhar aterrorizado e sem direção nos instantes que precedem a sua terrível
execução, Block se pergunta o que ela estaria vendo. Jöns, sem rodeios,
simplesmente responde: “O vazio”. Em outros termos, ela estaria percebendo, à
beira da morte, que não há nada: nem além, nem salvação...
Mas, a cena mais emblemática do
filme talvez seja aquela em que Block vai a um confessionário e ali expõe sua
angústia. O diálogo denso, típico da obra de Bergman, sintetiza as questões
filosóficas de O sétimo selo. E
igualmente ilustra a inevitabilidade do fim. Isso porque Block pensa estar
conversando com um padre, quando, na verdade, é a própria Morte quem está no
confessionário. Enganado, acaba entregando uma jogada que faria na partida de
xadrez e que, a seu ver, resultaria em vitória. A Morte está sempre um passo a
frente. Seu triunfo ante a vida é inexorável.
Aqui, no entanto, convém fazer
uma ressalva no que diz respeito à aproximação de O sétimo selo com Sartre. É que, ao contrário do que pode parecer à
primeira vista, o pensamento sartriano em nenhum momento abraça o niilismo –
como o longa pode eventualmente respaldar. Não haver sentido a priori para a existência humana, não
haver justificativa para estarmos aqui, não haver Deus, enfim, não representa,
para o filósofo, a simples celebração da gratuidade. Pelo contrário, Sartre
entende que todos esses elementos convergem para a afirmação da absoluta
liberdade (e, consequentemente, responsabilidade) do ser humano diante de si,
de outrem, do mundo. Têm, portanto, um caráter antes positivo do que negativo.
Não se trata de ceder ao desespero diante do desamparo da solidão existencial,
mas de tomar a contingência como ponto de partida para a criação de sentido.
Finalmente, nessa linha, a última
tomada do filme permite reaproximar Bergman e Sartre – ao menos, o Sartre dos
anos 1930, 1940, francamente empenhado em uma literatura engajada, e uma interpretação não niilista do filme. A ciranda da
Morte leva todos os personagens do filme, exceto um casal de artistas com seu
bebê. De certo modo, pode-se afirmar que a arte aparece, para o diretor sueco,
como fonte de salvação: provisória, pode-se replicar. Ainda assim, no entanto, como
salvação. Com Sartre, se poderia complementar: não como salvação para o além,
mas como meio de conferir algum sentido no aqui e agora da vida diante da
absoluta gratuidade do real – o que também, de certo modo, é um “salvar-se”. Aliás,
é essa conclusão a que chega Antoine Roquentin, protagonista do romance
sartriano A náusea. Ou, para usar uma
feliz definição do recém-falecido Ferreira Gullar: “a arte existe porque a vida
não basta”. Bergman e Sartre certamente ratificariam as palavras do poeta
brasileiro.
domingo, 4 de dezembro de 2016
Chapeocense, Ferreira Gullar e o aprendizado da vida
Desnecessário dizer o quão pesada foi a semana que passou. Optei por nada escrever até agora, porque não conseguia achar palavras capazes de descrever a tragédia. Eis que, nesse domingo, também se foi o grande poeta maranhense Ferreira Gullar. E, por essas trágicas casualidades, encontrei nos versos de "Aprendizado" uma forma de expressar um pouco desse drama cheio de contradições que é viver. Drama que desvela suas entranhas justamente quando nos deparamos com a fragilidade da vida.
Aprendizado
(Ferreira Gullar)
Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.
Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão
que a vida só consome
o que a alimenta.
terça-feira, 22 de novembro de 2016
Neoliberalismo, subjetividade e crise da democracia
A eleição de Donald Trump à presidência dos EUA acendeu um alerta global. Particularmente, porque parece desnudar algumas das mais agudas contradições das “democracias ocidentais” contemporâneas. Com efeito, não por acaso, a questão que atravessou a cena política desde o último dia 09/11 pode ser resumida do seguinte modo: como teria sido possível que, em uma democracia consolidada como a norte-americana, um fenômeno de viés proto-fascista, como a candidatura de Trump, pudesse prosperar?
Este texto propõe uma resposta a essa indagação que não se pretende exclusiva, mas que, dentro dos limites que o espaço impõe, visa realçar aquilo que entendemos ser a causa subterrânea desse acontecimento. O que sugerimos aqui é que o significado dessa vitória se assenta, ainda que de modo aparentemente remoto, nos pilares do modelo de globalização dominante desde os anos 1980, comumente denominada “neoliberalismo”. Ou, para ser exato, em seu fracasso. Em linhas gerais, adotamos a perspectiva de que a fissura aberta na hegemonia neoliberal pela crise econômica de 2008 ganhou agora (somada ao Brexit, sobretudo) uma notável – e preocupante – complementação ético-política.
Nesse sentido, importa inicialmente destacar que, a nosso ver, uma das principais consequências da emergência da nova era de acumulação capitalista foi a correspondente formatação de um novo tipo de subjetividade. Trata-se da dissolução quase completa da antiga identidade baseada na articulação entre indivíduo e trabalho social – que, como Hegel bem observara, presidiu a constituição da subjetividade moderna –, em nome daquilo que Pierre Dardot & Christian Laval bem classificaram como uma “hiper-subjetividade”: o sujeito “desobjetivado”, ensimesmado, constrangido ao novo, à mudança, porque sem possibilidade de estabelecer laços efetivos com o mundo (materiais ou espirituais, geográficas ou jurídicas). Não que o vínculo entre sujeito e trabalho tenha desaparecido, ou que este último tenha perdido sua centralidade. Ocorre que, dada sua mútua imbricação, as mudanças profundas sofridas no mundo laboral não poderiam deixar de impactar na própria constituição e expectativas dos sujeitos contemporâneos.
Aqui, por mudanças profundas entenda-se, não apenas as revoluções tecnológicas inquestionáveis, mas, sobretudo: o esforço permanente de desregulamentação e precarização da mão de obra assalariada, a desindustrialização, a ameaça constante a direitos adquiridos etc. Ora, não apenas, do ponto de vista material, este cenário consolidou uma nova forma de proletarização – os trabalhadores “precarizados”, mais sujeitos às vicissitudes e à instabilidade da reprodução do capital, sem empregos fixos, sem direitos, com um acesso cada vez mais restrito à esfera do consumo –, mas, do ponto de vista ético, dissolveu a base dos antigos mecanismos de subjetivação, baseados na hegemonia das formas clássicas de trabalho e de seus processos de socialização correlatos.
Como era de se esperar, porém, essa dissolução agora cobra seu preço. Do novo “mundo do trabalho” seguiu-se a formação de uma massa de indivíduos sem identidade, fragmentados, abandonados à própria sorte, permanentemente ameaçados de serem lançados às margens de um sistema que, com a mesma velocidade, promete e retira suas perspectivas de futuro. Se o mundo globalizado, como explica David Harvey, caracteriza-se pelo imperativo da mudança permanente, pelo rápido giro temporal exigido pelos novos padrões de acumulação capitalista, o temor e a insegurança daqueles – a maioria – que não podem usufruir das eventuais benesses desse novo modo de vida, ou que se tornaram vítimas em potencial de sua volubilidade intrínseca, torna-se inevitável. Tanto quanto são inevitáveis suas repercussões éticas.
Com efeito, o cenário rapidamente descrito proporciona, dentre outras coisas, o surgimento daquilo que, há quase duas décadas, Immanuel Wallerstein alertava como sendo “a era do grupismo”. Ao afrouxamento do tradicional processo de subjetivação calcado na articulação sujeito-trabalho – logo, em determinada relação de pertencimento do indivíduo à sociedade –, surgiam tentativas múltiplas, difusas, frequentemente contraditórias, da sempre necessária constituição de subjetividade e socialização, a partir do atrelamento individual a um grupo qualquer que transmita algum sentido de pertencimento – uma comunidade religiosa, uma torcida organizada, uma gangue etc. Ocorre que, nesse momento de fragmentação absoluta, o “grupismo” exige, como condição de funcionamento, a construção de seu outro, a partir do qual o grupo, ente fechado em torno de seus membros, pode se reconhecer enquanto tal, garantindo sua unidade e coesão. Em outros termos, a identidade particular do grupo se forma pela oposição com seu exterior – o diferente, o adversário, o inimigo, o infiel.
O que se insinua aqui é que este quadro global complexo, em que elementos materiais, políticos e éticos se entrelaçam, permite a um outsider como Trump atacar um problema real – a crescente (ameaça de) penúria material provocada pelos processos econômicos e políticos de precarização do trabalho, com suas consequências objetivas e subjetivas – através de fórmulas simplistas, mas de fácil assimilação, porque seu eixo não se volta para o futuro, fatalmente incerto – e, portanto, indesejável diante da instabilidade corrente daquela massa –, mas se dirige à fixidez do passado (real ou imaginário, pouco importa). Numa palavra, promete restabelecer a “segurança” de um suposto tempo “glorioso”, “puro”, desde que tudo aquilo que se interpõe à concretização desse ideal – ou seja, todos aqueles “outros” que seriam responsáveis pelas transformações que culminaram no presente – seja removido. Desse modo, o magnata forneceu para seu eleitorado, acima de tudo, uma identidade grupal sólida (de cunho extremamente nacionalista, proto-fascista), capaz de transmitir àqueles que se sentem ameaçados pelos dissabores econômicos, e abandonados pela “política tradicional” – isto é, que sentem a falência da democracia guiada pelos políticos do establishment –, uma nova forma de integração e de subjetivação, calcada em um conflito permanente contra seu “outro”, mas no qual, aqueles que “nada têm a perder”, mostram-se dispostos a se engajar.
O desfecho desse cenário, evidentemente, é trágico: se a política é, por essência, democrática, e demanda uma ética de respeito e diálogo com o outro, como sugeria Hannah Arendt, o que se tem aqui é o triunfo da anti-política, de uma ética às avessas, por assim dizer. Ambas costuradas sobre o tecido da crise da sociedade capitalista neoliberal, mas que, como se nota, passam longe de resolvê-la.
Ademais, para além da importância que a eleição norte-americana tem para o mundo, é preciso notar que algo semelhante se passa, dentro de nossas idiossincrasias, no Brasil. Com efeito, na esteira do contexto de criminalização da esquerda (em sentido bastante amplo) que teve como ápice o recente processo de impeachment, o crescente apoio a discursos extremistas, o fortalecimento do poder das igrejas evangélicas, os projetos que visam suprimir o pensamento crítico-formativo das escolas etc., são sinais da construção progressiva de uma práxis política anti-democrática, de uma ética da beligerância típica do proto-fascismo que encontrou em Trump um porta-voz global. O que resta é saber se aqui, como lá, o desfecho será o mesmo.segunda-feira, 7 de novembro de 2016
Led Zeppelin - IV
Há exatos 45 anos, em 07 de novembro de 1961, o quarto álbum do Led Zeppelin chegava às lojas – e entrava para história. Para resumir o que penso de IV (o disco, na verdade, não tem nome, mas é chamado de IV justamente por ser o quarto trabalho da banda), diria o seguinte: se um extraterrestre chegasse à Terra e quisesse saber o que é rock'n'roll, eu poderia gastar horas explicando o ritmo, a história, as bandas; ou poderia deixá-lo ouvir essa obra-prima.
Confira, no link abaixo, a íntegra desse clássico. Audição obrigatória para qualquer amante da música.
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