O termo “esquerdismo” foi
popularizado na literatura política de esquerda pelo ensaio de Lênin, Esquerdismo, doença infantil do comunismo,
de 1920. Nele, Lênin se contrapunha aos chamados “comunistas de esquerda” que
exigiam do governo soviético e do partido bolchevique posições radicais equivocadas,
voluntaristas e afastadas da dinâmica própria da luta de classes (em nível
nacional e internacional) que então se desenvolvia. Por exemplo, a recusa
daqueles grupos de participar de parlamentos ou sindicatos “reacionários”, ou
se aliarem a setores médios da sociedade.
Para Lênin, a primeira tarefa a
ser observada por um partido socialista, representante das massas
trabalhadoras, era “levar em conta, com estrita objetividade, as forças de
classe e suas relações mútuas antes de empreender qualquer ação política”. Tratava-se,
assim, de preparar um exame correto das forças em disputa, com o intuito de
agir em conformidade com a realidade presente da luta de classes, o estágio de
desenvolvimento e mobilização das organizações dos trabalhadores, o grau de
dominação da burguesia e das demais forças opositoras, e as possibilidades de
construir alianças ou consensos, ainda que pontuais ou efêmeros, com outros
setores sociais.
Gramsci, na esteira de Lênin,
dizia que, diante da realidade da reprodução capitalista, de seu amplo domínio,
não apenas material, mas também de corações e mentes, apenas a transformação
paulatina da realidade material e cultural, em nome da construção de uma nova
“hegemonia” das classes populares, poderia estabelecer um novo rearranjo
político e cultural, uma nova correlação de forças e, com eles, novos
parâmetros para a sequência da luta de classes. Com efeito, apenas neste
movimento o horizonte para novas mudanças significativas poderia se alterar.
Mas, não necessariamente de modo positivo, pois não se trata de um processo
linear ou homogêneo, mas assentado intrinsecamente à dialética da luta de
classes. Seu sucesso, portanto, dependeria essencialmente daquele exame
minucioso da realidade concreta presente, em particular das forças em disputa.

“Somos comunistas” (diziam em seu
manifesto os comunardos-blanquistas), “porque queremos atingir nosso objetivo
sem nos determos em etapas intermediárias e sem compromissos, que nada mais
fazem que tornar distante o dia da vitória e prolongar o período de
escravidão”. Diante dessa posição, Engels se contrapunha nos seguintes termos:
“Os comunistas alemães são comunistas porque, através de todas as etapas
intermediárias e de todos os compromissos criados não por eles, mas pela marcha
da evolução histórica, veem com clareza e perseguem constantemente seu objetivo
final: a supressão das classes e a criação de um regime social onde não haverá
lugar para a propriedade privada da terra e de todos os meios de produção. Os
33 blanquistas são comunistas por imaginarem que basta seu desejo de saltar as etapas intermediárias e os compromissos
para que a coisa esteja feita, e porque acreditam firmemente que se ‘a coisa
arrebenta’ num dia desses e o Poder cai em suas mãos, o ‘comunismo será
implantado’ no dia seguinte. Portanto, se não podem fazer isto imediatamente,
não são comunistas. Que pueril ingenuidade a de apresentar a própria
impaciência como argumento teórico!”.
O esquerdista crê que a política
e a transformação social se reduzem a uma questão de vontade. Bastaria que o governante quisesse encaminhar a sociedade numa
determinada direção para que, na sequência, sua vontade se fizesse lei e o status quo fosse superado. Não é à toa,
portanto, que em governos oriundos ou capitaneados pela esquerda, a crítica
esquerdista renasça com mais força. É que, em sua visão, nestes casos, seria
ainda mais plausível a possibilidade de “saltar etapas” e “implantar o
comunismo amanhã” (palavras traduzidas por outras, de acordo com a situação e o
momento histórico). Afinal, eles teriam o “poder” em suas mãos. Por isso,
quando governantes ou partidos de esquerda não se encaminham nesse sentido, são
tachados de “traidores”, “oportunistas”, “conservadores” etc.
Não que não haja aqueles partidos,
militantes ou governantes de esquerda que eventualmente mereçam essas
designações. O problema do esquerdismo é generalizá-las diante de sua própria miopia
teórica e política, de sua “impaciência pueril”. Afinal, ele não consegue
compreender que a política é uma disputa
de forças, logo, que qualquer avanço
requer a construção (em todas as frentes diria Lênin e, depois, Gramsci), de
uma força maior do que aquela que se pretende vencer (ou seja, construir as
possibilidades de conquista do poder). Por isso, em nome da preservação
de sua pureza ideológica – que jamais é afetada, na medida em que se recusa a
tomar parte da política tal como ela é – resta ao esquerdismo um discurso
radical que termina por prendê-lo na armadilha do “ou tudo ou nada”. Desnecessário
dizer que, invariavelmente, ele fica com o nada.