Ainda que essa pesquisa esteja forte e propositalmente contaminada pelo impacto do acidente de Campos, e que Marina sofra uma queda nas intenções de voto nas próximas semanas, entendo que ela ao menos reflete certa tendência: uma disputa ferrenha pela passagem ao segundo turno entre Aécio Neves e Marina Silva. Este quadro, que me parece estava quase que descartado com a presença de Campos, a meu ver, se dá por dois fatores. Em primeiro lugar, porque sua sucessora na cabeça de chapa, Marina Silva, é uma candidata mais forte
eleitoralmente. Isso não só porque ela tem o recall dos votos
recebidos em 2010, que a deixaram em terceiro lugar naquela eleição para
presidente, mas também por sua messiânica auto-proclamação de "encarnação do espírito das ruas” que surgiu em junho de 2013, ideia que muitos compraram (Campos, por exemplo, não conseguiu, em nenhum momento, se apresentar como interlocutor dessa parcela da sociedade). Não à toa, até meados do
primeiro semestre, quando seu nome ainda era testado nas pesquisas, Marina aparecia
com uma margem de votos bastante superior àquela conseguida, até a última
semana, por Eduardo Campos, fato confirmado na referida pesquisa desta segunda-feira. Inegavelmente, muitos desses eleitores de Marina eram/são
aqueles que se identificam com a abstração política que as manifestações do ano
passado acabaram representando (o “contra tudo e contra todos”, que nada mais é
do que a negação da própria política), o que sem dúvida alavanca sua candidatura. Basta ver a diminuição no patamar de votos brancos e nulos entre as pesquisas anteriores e esta para notar. Em segundo lugar, como ficou claro desde
o anúncio do falecimento de Campos, e se reafirmou em seu velório, a tragédia com
o ex-governador de Pernambuco deverá ser explorada para fins políticos pela
coligação que ele encampava, e que Marina dará continuidade, o que também deverá gerar, ao menos num primeiro momento, algum dividendo eleitoral.

No fundo, muito dos rumos dessas
eleições vai depender da forma como Marina conduzirá sua campanha. Se se
enveredará pela via messiânica da negação da “política tradicional” (que,
insisto, da forma como está posta, é a negação da própria política) ou se
formatará um programa sólido – e qual será o viés do mesmo. Mas, ainda é precipitado
para avançar em análises mais profundas. Nestes primeiros dias, naturalmente, o impacto da
morte de Campos ainda deixará o cenário nebuloso. Até o final do mês, no
entanto, creio que já haverá condições de apontar um caminho mais seguro sobre
o desenrolar dessa disputa.
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