Passada uma semana das eleições
que consagraram um quarto mandato ao Partido dos Trabalhadores, e já um pouco
recuperado da estafa provocada pelo pleito, é hora de retomar as atividades no
blog. Infelizmente será preciso, ainda uma vez, e contra minha vontade traçar
algumas linhas de análise política. Digo infelizmente porque, com toda
sinceridade, desejaria fazer um post tratando de alguma amenidade, ou mesmo de
filosofia pura. No entanto, estes dias já foram ricos de fatos e prenúncios do
que virá pela frente. E os sinais são inquietantes.
Podemos ver se desenhar no
horizonte alguns dos elementos que deverão dar a tônica da política no próximo
período. Queria me ater aos dois movimentos que simbolizam, a meu ver, o
confronto político que se estabelecerá no início do segundo mandato de Dilma, e que nos obrigam a deixar o sinal de alerta ligado.
Do lado da presidenta, a vitória
por estreita margem, a dificuldade em dialogar com alguns setores influentes da
sociedade e, mais importante, a percepção de que o projeto transformador que
ela encarna encontrou seus limites nos atuais padrões de governabilidade,
levaram Dilma a propor repactuar o país em torno daquela que,
corretamente, ela diz ser a “mãe de todas as reformas”: a reforma política. A estratégia me parece a mais pertinente. Como já afirmei reiteradamente por aqui nos últimos anos, de fato, apenas uma
reforma política capaz de radicalizar nossa democracia pode abrir uma saída
positiva para resolver os históricos problemas estruturais do país. Contudo,
temos visto como esta agenda está longe de ser consensual, em especial num
Congresso cada vez mais conservador. Por isso mesmo, tirá-la do papel exigirá uma
ampla capacidade de mobilização de partidos e movimentos sociais de esquerda,
além do próprio governo, em torno do tema. Este gesto, porém, tenderá a
aumentar a temperatura do debate político, fenômeno que, se não for bem
controlado, pode se reverter contra o próprio governo e o PT.

Assim, é no cruzamento destes
dois vetores que se jogará o futuro brasileiro no curto e, provavelmente, no
médio prazo. Se a política é uma disputa de forças, a tensa conjuntura atual reclama
maturidade ao conjunto das forças de esquerda e centro-esquerda (no Congresso e na sociedade
civil). Pois, mais do que nunca, é preciso se unir em torno de um programa
mínimo, tendo como eixo a reformulação de nosso anacrônico sistema político – algo que, aliás, já tem sido esboçado desde o segundo turno das
eleições, mas que urge prosseguir –, para fazer o vetor resultante deste
confronto pender para o lado progressista. Apenas assim, a meu ver, será
possível isolar os germes de golpismo presentes em setores da oposição (e que,
certamente, serão mais e mais alimentados por parte da grande mídia), e
recuperar a capacidade de impor uma pauta avançada de reformas que o Brasil
tanto necessita. Não é uma tarefa simples, pois é inegável que o ambiente político
está acirrado como talvez nunca antes (em um passado recente, ao menos). Contudo,
este é o desafio que a história nos legou. Resta-nos, então, encará-lo de
frente, sob pena de, em caso de fracasso, não apenas vermos a esquerda e seu
projeto se esfacelarem – é assumidamente o que desejam os oposicionistas – mas,
além disso, assistirmos o país retroceder a níveis (sociais, políticos,
econômicos, culturais) que imaginávamos completamente superados.
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