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Cena do filme O sétimo selo |
Com efeito, do prisma que tento adotar, os
dois filmes se complementam: no primeiro, o professor de medicina Isak Borg, em
viagem para receber um prêmio pelos cinquenta anos de carreira, revive momentos
marcantes de sua vida, ao mesmo tempo em que é atormentado pela iminente da
morte. No segundo, um cavaleiro medieval, voltando das Cruzadas, em plena época
da Peste, se depara com a Morte (encarnada). Na esperança de encontrar um
sentido para sua existência e compreender Deus, o cavaleiro propõe um jogo de
xadrez com a Morte que, enquanto durasse, prolongaria sua vida, permitindo-lhe
uma última chance de realizar aquela procura. O que é possível depreender de
uma conjunção dos filmes de Bergman, dentre outras coisas, é a articulação
entre a inexistência de um sentido a
priori para a vida (a vida de Borg poderia ter sido outra, e ao
relembrá-la, ele não parece tão contente com o rumo que ela tomou, especialmente em
termos amorosos) com a inevitabilidade da morte (que faz questão de ressaltar
que nunca perdeu, nem perderá, uma partida de xadrez); logo, que não haveria
sentido em questionar o porquê de tudo – porque, efetivamente, não haveria
qualquer sentido (e por que deveria haver?).

No entanto, se recusarmos a hipótese de um Deus
transcendente (logo, não havendo nada a que imputar o “pecado” ou a “salvar”) esse
dualismo também perde sua função. Isso, porém, não obrigaria a optar entre as
alternativas de que somos seres exclusivamente materiais ou exclusivamente
corporais. Na verdade, poderíamos considerar que somos ambos ao mesmo tempo, isto é, que consciência
e corpo coexistem em uma relação de reciprocidade mútua, sem privilégio ao polo
interior, como defendem as filosofias pós-cartesianas ou as religiões monoteístas.
Quer dizer, talvez sequer seja possível, como Merleau-Ponty insinuava, separar,
ainda que analiticamente, consciência e corpo...

Assim,
poderíamos supor que essa imbricação mútua de alma e corpo, matéria e
consciência, é o que ao mesmo tempo motiva e dificulta abordar as questões
sobre e vida e morte que, por exemplo, este texto trata. Com efeito, para a ciência, não há dúvida de que compartilhamos
a matéria, inclusive em nossos corpos, com todo o restante do universo. Somos,
como disse no post anterior, poeira estelar, tendo, ipso facto, uma relação umbilical com tudo que nos cerca. Ao mesmo
tempo, porém, essa relação se mostra desoladora. Pois, o fato de sermos
conscientes de nossa pequenez, sugere que pudéssemos ser algo mais do que “caniços
pensantes”, como definia Blaise Pascal.
É claro que, por termos consciência dessa
insignificância, procuramos contorná-la. Via de regra, utilizando nossa imaginação
(mitos, religiões, lendas e crendices em geral). O próprio pensador francês
valia-se deste paradoxo para justificar sua “aposta” na fé cristã. Entendo se
tratar de um movimento quase natural, espontâneo: seria necessário que tudo
isso, a vida, a morte, a dor e o sofrimento, fizessem algum sentido! Raramente
paramos para pensar que talvez o faça, mas apenas do ponto do vista do Todo, como sugeria
Hegel. No século XX, a física quântica ensinou que a supressão de um único
átomo destruiria, de imediato, todo o espaço-tempo universal. Por isso, como já
havia observado Lavoisier, “na natureza nada se perde, tudo se transforma”.
Entretanto, incomoda-nos pensar que somos apenas parte de uma engrenagem muito maior, e que nosso desaparecimento é mesmo um ponto
final em nossa existência tal como a concebemos. Ou seja, que a morte de nosso corpo servirá para dar nascimento a outro e assim
sucessivamente, sem privilégios, sem cerimônias e, sobretudo, sem vida em outro
plano. E que isso, afinal, seria a fria letra da lei de tudo. Ou, novamente parafraseando
Hegel: pensar que o particular, o finito, simplesmente é dissolvido no
universal, no infinito, o único que realmente é. Esta seria sua perfeição.
Para a maioria, essa tese é inaceitável. Confesso
que, diante da morte de minha avó, mencionada no início, gostaria de refutá-la também.
Pois, o que me fez mais sofrer neste caso, menos do que seu falecimento (que,
obviamente, doeu bastante, e doeria em qualquer circunstância, dada nossa
proximidade afetiva), foi a impossibilidade de dizer um adeus. Será possível
que nunca mais voltarei a vê-la? Essa é a pergunta que todos fazemos quando
alguém querido nos deixa. E, confesso, é triste pensar que a resposta pode ser afirmativa
– eventualmente insuportável. De fato, não há como negar o
conforto que traz a fé em uma vida futura, especialmente nos momentos de perda,
bem como na da companhia divina, sobretudo quando estamos em dificuldades. Contudo,
essa resposta, inicialmente frustrante, poderia positivamente nos abrir a vivenciar
o mundo, a nossa existência, nossa relação com os outros e com nosso único e
conhecido destino (a morte), de outro modo – um modo, talvez, menos servil e mais saudável
para nós mesmos.
Em outros termos, seria preciso verificar o que ganhar
fazendo um percurso no sentido contrário do habitual. Ou seja, supondo que a
vida nesse pale blue dot (como Carl Sagan
definia o planeta Terra) seja tão somente uma manifestação mínima da grandiosidade
de um universo espaço-temporalmente infinito. Vivemos em um pequeno planeta, que
orbita ao redor de uma pequena estrela, em uma pequena galáxia, em um ponto
qualquer de um cosmos mais vasto do que qualquer mente é capaz de supor. E,
mesmo neste planeta, somos apenas uma das milhões de espécies que existem ou
existiram por aqui (não apenas animais, mas também vegetais, minerais etc...). Fazendo
um parêntese pessoal, lembro-me, aqui, de uma frase de minha esposa, no alto da
Torre Eiffel, em Paris, ao olhar para os transeuntes lá embaixo: “olha como daqui de cima as pessoas são pequenas, todo mundo fica tão insignificante. Como pode, por exemplo, essas pessoas insignificantes acabarem com nosso dia?...” Se a alguns metros do solo já temos essa
percepção – quer dizer, em minha opinião, essa verdade –, imaginem diante da imensidão do universo! Literalmente,
para parafrasear Sartre, não somos nada, ainda que muitos pensem o contrário...

Talvez seja por isso, pensando numa analogia lúdica, exclusivamente
pessoal, é que o lema “rock and roll all
night and party every day”, da banda de rock KISS, me tocou desde a
primeira vez que o ouvi. Independentemente de seu sentido literal, o que ela (me) sempre me transmitiu é a ideia fundamental de que é preciso aproveitar a vida! Isso, vale
dizer, não implica necessariamente em abraçar o puro e simples hedonismo (ou a completa resignação ou niilismo). Acima de tudo, significa assumir a brevidade de nossa existência não como algo a se lamentar, mas como motivo para não desperdiçá-la ou não hipotecá-la em nome de uma vida futura completamente intangível (Dr. House mais uma vez me vem à mente).
Ao mesmo tempo, porém, como seres conscientes, é imperativo notar que nossa atual condição socio-histórica bloqueia ou dificulta para a maioria aproveitar a vida naqueles termos. Também por isso que, para mim, o comunismo, superação do “reino da necessidade” e instauração do “reino da liberdade humana”, sempre fez tanto sentido enquanto modo de organizar nossa vida social. É que, segundo o interpreto, Marx visava, acima de tudo, demonstrar a existência de condições (materiais, históricas, “espirituais”) de nos livrarmos de um modo de existir que privilegia entidades abstratas que nos dominam (o dinheiro, o capital, a propriedade privada etc.), e vivermos de modo a valorizar aquilo que há de mais importante: a própria vida, nossa e de outrem – e repito, sem a expectativa de que ela continuaria em algum momento futuro em outra dimensão. Se não há criação, transcendência, salvação post mortem, o único sentido da existência humana seria aquele que nos damos aqui e agora, como frequentemente sublinhava Sartre. Numa palavra, tornamo-nos livres; logo, igualmente responsáveis por tudo o que fazemos.
Ao mesmo tempo, porém, como seres conscientes, é imperativo notar que nossa atual condição socio-histórica bloqueia ou dificulta para a maioria aproveitar a vida naqueles termos. Também por isso que, para mim, o comunismo, superação do “reino da necessidade” e instauração do “reino da liberdade humana”, sempre fez tanto sentido enquanto modo de organizar nossa vida social. É que, segundo o interpreto, Marx visava, acima de tudo, demonstrar a existência de condições (materiais, históricas, “espirituais”) de nos livrarmos de um modo de existir que privilegia entidades abstratas que nos dominam (o dinheiro, o capital, a propriedade privada etc.), e vivermos de modo a valorizar aquilo que há de mais importante: a própria vida, nossa e de outrem – e repito, sem a expectativa de que ela continuaria em algum momento futuro em outra dimensão. Se não há criação, transcendência, salvação post mortem, o único sentido da existência humana seria aquele que nos damos aqui e agora, como frequentemente sublinhava Sartre. Numa palavra, tornamo-nos livres; logo, igualmente responsáveis por tudo o que fazemos.

Não nego que esta tese pode provocar dificuldades. Acima de tudo, certo desamparo existencial. Mas, quem sabe, esse desconsolo não resulta apenas de uma expectativa que, criada para resolver um problema, promove outros? Enfim, como alertei desde o início, tratava-se apenas de uma meditação livre, uma divagação. Espero, em outras oportunidades, conseguir desenvolver algumas “pontas” deste texto para além desta epifania – como a questão ética que ele implica, a política, ou mesmo, me aprofundar um pouco mais nesse agenciamento entre o finito e o infinito. Por ora, apenas espero que este texto possa despertar alguma reflexão em quem o acompanhou até aqui.