quinta-feira, 1 de setembro de 2011

A reforma política avança


No último dia 17/08, o deputado Henrique Fontana (PT-RS), apresentou o seu parecer final sobre as propostas de reforma política. Trata-se de um passo decisivo para o fortalecimento da democracia brasileira, de sua representatividade e extensão. Entre as principais mudanças indicadas no relatório, estão o financiamento público exclusivo de campanha, o voto proporcional misto, o fim das coligações em eleições proporcionais e a possibilidade de criação das federações partidárias.

Em primeiro lugar, é preciso indicar que adoção do financiamento público exclusivo possibilitará uma forte redução dos custos de campanha. Como diz Fontana: “Não me parece razoável um sistema que a cada quatro anos, os futuros tomadores de decisão, os futuros eleitos tenham que bater a porta de todos os financiadores pedindo recursos para campanha, gerando uma situação realmente que não é a mais adequada para a democracia. Evidente que a corrupção tem múltiplas causas, mas eu não tenho dúvidas de dizer que o financiamento público exclusivo é uma arma muito eficaz e muito poderosa para ajudar no combate a corrupção, além de qualificar os mandados e dar mais independência para os futuros eleitos”. De fato, esta é uma das medidas mais importantes para a redução dos níveis de corrupção no Brasil, uma vez que grande parte dos problemas que se percebe hoje na gestão pública e nos processos eleitorais é oriunda do modelo de financiamento privado, que facilita a ação do poder econômico, bloqueia a participação de candidatos com menos recursos e cria injustiças num processo de competição que deveria ser pautado por regras equânimes. Além disso, aumenta o custo das eleições para a população em geral, uma vez que, não raro, votações no Legislativo, pautada pelos interesses dos financiadores privados, vão na contramão dos interesses da maioria.

Outro ponto importante é a adoção do voto proporcional misto. Não é meu modelo preferido (defendo o voto em listas partidárias, o que significa um voto mais ideológico, centrado nos programas políticos de cada partido, e não em pessoas/celebridades), mas, no contexto atual, representa o limite que se pôde atingir e, de fato, pode ser considerado um avanço. Para Fontana, “trata-se de um sistema que garante ao eleitor um voto duplo, fortalecido, primeiro escolhendo o partido de sua preferência, votando na lista, e a seguir votando no candidato preferido”. Nessa proposta, a lista de cada partido deverá ser constituída com o voto secreto dos filiados, mecanismo que irá fortalecer as estruturas partidárias. Por este sistema, se um partido eleger dez deputados, por exemplo, metade serão os cinco primeiros da lista e os outros cinco serão os que receberem mais votos na votação nominal. Fontana também sugere o aumento da participação das mulheres no Parlamento. Seu relatório determina que na lista preordenada será garantida a indicação de a cada três candidatos um ser de sexo diferente, ou seja, dois homens e uma mulher ou duas mulheres e um homem.

O relator do projeto, deputado Henrique Fontana (PT/RS)
Para terminar com as coligações nas disputas para cargos proporcionais, cujo interesse não é prograático, mas apenas eleitoral, Henrique Fontana propõe a criação de federações partidárias com duração de no mínimo três anos. Esta medida, segundo o relator, garante a manutenção e a possibilidade de crescimento dos partidos menores com perfil programático definido. No relatório, o parlamentar também apoia a ampliação da participação direta da população na política brasileira permitindo a apresentação de projetos de lei e emendas constitucionais de iniciativa popular através da internet, com menos exigências e menor burocracia.

O texto também acaba com o suplente de senador. Segundo o anteprojeto, passará a ocupar o mandato vago de senador o candidato a deputado federal mais votado nas últimas eleições para a Câmara, pelo mesmo partido do titular, ainda que não eleito.

Agora, os deputados que integram a Comissão Especial da Reforma Política terão até o dia 13 de setembro para apresentar emendas ao anteprojeto apresentado no dia 17/08. O parecer final do relator – com a incorporação ou recusa das emendas – deve ser apreciado e votado no dia 21 de setembro.

Numa semana em que a Câmara dos Deputados feriu qualquer preceito básico da ética pública, e se deslegitimou perante à sociedade ao absolver uma deputada (Jaqueline Roriz - PMN/DF) de comprovada culpa apenas porque "seus atos de corrupção forma praticados antes de seu mandato", qualquer manifestação otimista acerca dos rumos da política brasileira parece descabida. No entanto, é preciso separar as coisas, e entender que uma reforma do sistema político-eleitoral brasileiro é o primeiro passo para que episódios dessa natureza sejam definitivamente superados. Por isso, há que se dizer que, em seu conjunto, o relatório é bastante positivo, corrige distorções  graves, e representa um verdadeiro progresso em nossa democracia,  embora menor do que o necessário. Mas, como eu disse acima, parece o melhor possível na atual conjuntura, numa Câmara marcada pelo fisiologismo e pelo corporativismo mais rasteiro. Se aprovada para 2014, essa reforma criará novas perspectivas políticas para o país, e uma nova dinâmica na relação posterior entre eleitor e eleito, bem como entre Executivo e Legislativo, além de possibilitar maior controle público nos gastos eleitorais. Além disso, abrirá maiores brechas para uma participação mais efetiva da população nos processos decisórios do país, o que é essencial para uma democracia cada vez mais plena. No entanto, a aprovação dessa reforma deverá enfrentar fortíssima oposição de setores conservadores, sobretudo em seus dois pontos centrais: o financiamento público exclusivo de campanha e a mudança no modelo de eleição em cargos proporcionais. Por isso, a pressão da sociedade civil, movimentos sociais, entidades de classe e partidos comprometidos com uma democracia substancial e transparente será de suma importância para que ela se concretize*.

*Com informações do site www.ptnacamara.org.br

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Sobre a Líbia

Intervenção, ajuda, governo de transição, podem chamar do que for. Para mim, a presença das tropas da OTAN em território Líbio significa apenas uma coisa: guerra. Em março, quando as ameaças de invasão começaram, escrevi esse post: (link aqui). De lá para cá, nada mudou. O tirano Kadafi deve cair mais cedo ou mais tarde, não pela revolta legítima dos opositores a seu regime, mas pela força militar imperialista da OTAN. Esta, por sua vez, liderada pelos EUA (e sua sede inesgotável de petróleo alheio), pilhará a Líbia, fazendo dela um novo Iraque, ou seja, um país com zero de democracia, respeito aos direitos humanos, desenvolvimento social ou paz. Por que, ao invés de se preocupar com a Líbia, os EUA e seus aliados não investem seus recursos num país devastado pela fome e pela miséria como a Somália, por exemplo? A pergunta é retórica. Todos sabemos a resposta. Renato Russo, na infelizmente sempre atual Canção do senhor da guerra, dizia: “pra que exportar comida / se as armas dão mais lucros na exportação”?

Aliás, por falar em música, o Guns N’ Roses tem uma que diz o seguinte: “I don’t need your civil war / It feeds the rich while it buries the poor”. Essa música, Civil war, e esse refrão em particular, resumem o mote de toda guerra imperialista: alimentar os ricos às custas do povo. Não é preciso dizer mais nada. Afinal, dessa vez, não será diferente. Por trás dos belos discursos, as mesmas velhas intenções, o mesmo ataque ao direito à autodeterminação dos povos, o mesmo fim. Só resta saber, agora, quem poderá defender o povo líbio de seus novos “salvadores”...

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Tom Jobim & Miúcha - Pela luz dos olhos teus

Nesse dia 17 de agosto, Angelica e eu completamos 4 anos juntos! Para comemorar esse momento maravilhoso, que se combina com nosso noivado, compartilho com todos essa belíssima canção, com versos do poeta Vinícius de Moraes e música do maestro Tom Jobim. Especialmente dedicada, claro, para a luz dos olhos meus!



domingo, 7 de agosto de 2011

Soneto para Angelica

Para celebrar nosso noivado, um singelo poema que escrevi para meu amor, Angelica.
















Soneto para Angelica

Quando eu percorria ruas desertas
Em dias gris, ou em noites sombrias
Adentrava portas entreabertas
Mas, nada encontrando, tudo perdia

Então meu coração erguia montes
Contra os ares frescos da primavera
E maldizia que tamanho afronte
A vida, sem porquê, o impusera

Mas, um dia, uma lágrima inocente
Decretando para sempre a minha sorte
Abrigou o infinito no meu peito

E, desde então, tuas mãos pacientes
Construíram um amor que de tão forte
Das imperfeições se faz perfeito.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Crise lá, esperança aqui

Cenários diametralmente opostos caracterizam a situação atual na América do Sul, na Europa e nos Estados Unidos.

O Velho Continente vê-se ainda chocado com o massacre provocado pelo terrorista norueguês de extrema-direita Anders Behring Breivik. Longe de ser uma situação isolada, simples fruto de uma mente doentia, os ataques na verdade expressam, da maneira mais dramática possível, a onda conservadora, xenófoba e racista que assola a região, resultado, sobretudo, do fracasso das políticas de caráter neoliberal adotadas em larga escala na Zona do Euro, responsáveis pelo desemprego em massa, pela ampliação dos níveis de desigualdade e pela extinção de direitos sociais conquistados ao longo de décadas de luta.

O quadro é preocupante: na Itália, por exemplo, um senador da Liga do Norte, partido da extrema-direita italiana que compõe o governo Berlusconi, afirmou que, “fora a violência”, Breivik tem alguns ideias “boas” e outras “ótimas”. Conquanto tenha sido o único, até aqui, a externar sua opinião publicamente, não se trata, certamente, uma voz dissonante. Na França, cujas eleições presidenciais estão agendadas para 2012, recentes pesquisas de opinião apontaram que, pela primeira vez, a maioria dos franceses aceitaria de bom grado a vitória de um candidato ultra-nacionalista. Na Espanha, a direita volta a se fortalecer, depois do fracasso do plano de ajustes do governo “socialista” de Zapatero (embora, lá, a juventude se mobilize fortemente em direção contrária, e tensione o cenário político local). Na Alemanha, a conservadora Angela Merkel tornou-se a principal líder da União Europeia. É ela quem coordena as operações de “ajuda” aos países endividados, como Irlanda e Grécia, sempre exigindo como contrapartida a aplicação de rigorosos programas de ajustes fiscais (isto é, mais corte nos gastos públicos). Mesmo um país com altíssima qualidade de vida, como a Finlândia, não saiu ilesa da crise. Resultado? Votação recorde da extrema-direita nas eleições de abril deste ano. Os exemplos, infelizmente, poderiam se estender a quase todo o continente.

Nos EUA, a situação não é muito diferente. A economia norte-americana, fundamentada no militarismo, também se encontra à beira de um colapso. Pela primeira vez na história, o país correu o risco real de decretar calote em sua dívida, já acima da casa de inacreditáveis US$ 14 trilhões, graças, principalmente, à política belicista de George Bush, que Obama infelizmente não reverteu. Por isso, o presidente democrata encontra-se à mercê dos Republicanos, atualmente liderados pelos ultra-conservadores membros do movimento Tea Party que, como defensores radicais do capitalismo neoliberal, propuseram um acordo para salvar os EUA da falência centrado num já conhecido receituário de defesa do estado mínimo: obriga o governo Obama a eliminar praticamente todos os gastos sociais e ajudar financeiramente (com corte de impostos) os ricos! Para se ter uma ideia: as despesas do governo americano estão limitadas ao mesmo patamar daquelas praticadas pelo governo Eisenhower, nos anos 50. Seria como se, no Brasil, a Dilma fosse obrigada a investir o mesmo montante de dinheiro que Juscelino Kubitschek!

As equações não são casuais: adoção de políticas neoliberais ortodoxas, destruição das bases sociais do velho estado de Bem-Estar, igual à crise europeia. Políticas neoliberais ortodoxas, gastos recordes com um militarismo desenfreado, igual à crise norte-americana. Somadas essas equações, o saldo é alarmante (mas não inédito): crescimento nítido da direita e da extrema-direita nos dois maiores polos de sustentação do capitalismo global.

Na América do Sul, porém, o contraste é evidente. A vitória de Dilma Rousseff, em 2010, somada à de Ollanta Humala, no Peru, neste ano, são sinais de que uma nova década progressista, de consolidação de políticas pós-neoliberais, se abre no continente. Como característica em comum, esses governos – cada qual ao seu modo, com seus limites, enfrentando os obstáculos e as contradições particulares a cada país – têm constituído um processo de radicalização democrática, imprimindo às suas democracias um acentuado caráter social. Nesse sentido, são extremamente saudáveis as notícias de consolidação da Unasul (União das nações sul-americanas), como mais um mecanismo de integração, cooperação e fortalecimento econômico continental, sobretudo diante das investidas do capital especulativo mundial e desse momento de aguda crise externa, e que vem se somar às experiências do Mercosul e da Alba, que também avançam e criam uma dinâmica política e uma perspectiva sócio-econômica diferente para nosso continente. No caso brasileiro específico, temos – apesar de tudo o que é propagado – um bom panorama. Além da política externa, concentro-me em outros dois temas, que considero fundamentais.

A meu ver, o governo Dilma deve ser analisado, prioritariamente, a partir de seu eixo de ação principal: o combate à miséria. E, nesse campo, temos boas notícias. Medidas importantes, como a implementação dos programas “Brasil sem miséria” e “Água para todos”, somam-se positivamente à continuidade das políticas sociais macro-econômicas (crescimento sustentado com fortalecimento do mercado interno, valorização do salário mínimo e distribuição de renda) e de investimentos em infra-estrutura oriundas do governo Lula. Aqui, ainda, temos outra notícia que me parece importante: em agosto, um seminário, organizado pela Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, discutirá, na presença da presidenta, a reconfiguração da estrutura de classes no Brasil, com especial atenção às camadas emergentes da “nova classe média” que se consolidaram graças às políticas sociais do governo petista. A ideia básica do seminário, e que demonstra a importância conferida ao combate à miséria e à desigualdade social no governo Dilma, é, nas palavras do ministro Moreira Franco, “entender o protagonismo da nova classe média no quadro social brasileiro, (...) conhecê-la, saber quais são seus sonhos e aspirações, para pensar em políticas que possam impedir que esse ativo do país retorne à situação anterior”.

Outro aspecto importante é a mobilização, dentro e fora do governo, em torno da educação, concentrada nas discussões sobre o novo PNE. Neste tema, a bandeira de 10% do PIB para a educação, factíveis a partir da utilização dos recursos do Pré-sal, combinados ao PL 8039, que cria a Lei de Responsabilidade Educacional, podem fazer o Brasil marchar decisivamente na resolução de seus históricos problemas nessa área. Um primeiro passo foi dado neste ano, com a declaração de constitucionalidade, por parte do STF, do Piso Nacional do Magistério, fundamental para a valorização da carreira docente, historicamente menosprezada no país.

Além disso, o combate à corrupção, bandeira da qual a direita brasileira tentou se apropriar, dá passos importantes no governo Dilma, como se viu, recentemente, por exemplo, com a exoneração de todos os suspeitos de desvios de recursos no Ministério dos Transportes, independentemente de sigla partidária.


Naturalmente, nem tudo são flores. Além do natural descontentamento de alguns setores, cujas reivindicações específicas não foram atendidas até aqui, o fato é que, em termos gerais, há problemas importantes em alguns domínios estratégicos que precisam ser enfrentados o quanto antes. A cultura, por exemplo, uma das áreas mais bem avaliadas na gestão anterior, sofreu, inexplicavelmente, uma descontinuidade regressiva nas mãos da ministra Ana de Hollanda. O debate sobre a democratização dos meios de comunicação não progride. Já as discussões – e as propostas apresentadas até aqui –, inclusive no Congresso, acerca das reformas tributária e política, também se mostram, no mínimo, insuficientes, o que é extremamente preocupante, uma vez que ambas são indispensáveis para o fortalecimento e a continuidade de nosso processo de radicalização democrática. Nesses pontos, me parece, é necessária uma mobilização intensa de todos os setores da sociedade civil (movimentos sociais, partidos, entidades de classe etc.) comprometidos com o projeto em curso no país.

No entanto, mesmo com esses percalços, e ainda que as mudanças estruturais se dêem em ritmo mais lento do que gostaríamos e sonhamos, o Brasil avança, no compasso progressista da América do Sul. Enquanto o centro hegemônico do capitalismo vacila de uma crise a outra, a “periferia” sul-americana, mesmo com todas as dificuldades, lança ao mundo sinais de esperança.

domingo, 24 de julho de 2011

Há filosofia no Brasil?

Essa velha pergunta, já esmiuçada nos anos 60 por Bento Prado Júnior (ver referências abaixo), tem obviamente um quê de retórico. É claro que, no Brasil, como em qualquer outra parte, se faz filosofia – e, mais do que isso, uma filosofia rica e plural. Contudo, ela também tem um tom provocativo, que decorre de um certo desconforto meu, mas que, possivelmente, é compartilhado por outras pessoas que estão nesse meio: se é feita filosofia no Brasil, onde estariam os filósofos brasileiros?

Em primeiro lugar, é preciso demarcar que o que se entende, aqui, pelo adjetivo “brasileiro”, não diz respeito à ideia de se pensar uma “filosofia nacional”, expressão do espírito de um povo ou de uma nação (numa palavra, uma ideologia), ideia que Bento tão bem critica no texto supracitado – o que não impede, claro, certa confluência entre autores de um mesmo país, em relação ao estilo ou à escolha de determinados temas e problemas filosóficos em detrimento de outros (o que, segundo o trabalho de Luiz Alberto Cerqueira, também ocorreria no Brasil). Mas, dispondo a filosofia de uma tendência irresistível à universalidade (embora, naturalmente, a boa compreensão do pensamento de um autor passe também pela compreensão das condições particulares em que seu pensamento se desenvolveu), a ideia de uma espécie de programa filosófico nacional (advogada por alguns) torna-se altamente controvertida – e, nesse momento, dispensável. Sendo assim, “filósofo brasileiro”, aqui, tem apenas o seguinte sentido: há pensadores, em solo local, que contribuíram (ou contribuem) original e criativamente, não apenas para o estudo da história da filosofia (o que, por si só, já não é pouco), mas também para o desenvolvimento e florescimento de novas ideias, novas categorias ou conceitos, ou mesmo novas “escolas”, tal como ocorre frequentemente nos países que poderíamos chamar de “centrais”?

É curioso notar que essa pergunta não caberia a outras áreas do Saber. Ninguém se pergunta se há uma sociologia brasileira, uma economia etc. Talvez (e essa é só uma das perspectivas pelas quais poderíamos abordar semelhante questão) porque todo estudante de sociologia tenha, desde cedo, contato com o pensamento de Florestan Fernandes, Octavio Ianni, Sérgio Buarque de Hollanda ou Fernando Henrique Cardoso. Ou porque todo futuro economista deva conhecer a obra de Celso Furtado ou de Caio Prado Junior. No entanto, por mais que incomode lembrar, o mesmo não se aplica à filosofia. Aqui, resta sempre a dúvida. Temos, de fato, filósofos autônomos no Brasil? Ou o que temos são “apenas” grandes historiadores e professores de filosofia?

Essas questões, não têm, absolutamente, caráter depreciativo. Parece-me muito claro que fazer a história da filosofia já é filosofar, e que não há filósofo que não seja ao mesmo tempo um historiador da filosofia. No entanto, creio, igualmente, que fazer apenas história da filosofia não esgota todas as possibilidades de desenvolvimento desse campo. No entanto, é flagrante o privilégio que quase sempre se conferiu ao trabalho erudito, em prejuízo do trabalho autônomo, no cenário filosófico brasileiro. E esse privilégio me incomoda profundamente. Por que exploramos apenas uma das facetas da práxis filosófica?

Não obstante o que disse acima, é curioso notar que, conquanto não tenham formado nenhuma “escola” ou “tradição” filosófica autônoma, há, sim, filósofos brasileiros. Acontece que, em geral, não os vemos. Por exemplo, poderia se indagar: qual estudante de filosofia, independente do juízo que possamos fazer acerca de suas obras, tem a oportunidade de conhecer, ao longo de sua formação, pensadores como Gonçalves de Magalhães, Tobias Barreto ou Farias Brito? Mesmo autores contemporâneos, como o já citado Bento Prado Júnior ou Marilena Chauí, dentre outros, que têm contribuições inéditas e importantes (ainda que não desenvolvidas de forma sistemática), são lidos pela academia muito mais pelos excelentes comentários e interpretações a textos clássicos (quando não são reconhecidos apenas pelos trabalhos de tradução), do que estudados, nas filigranas de seus pensamentos, com o intuito de se descobrir aí elementos que apontassem para os aspectos autônomos de sua própria reflexão filosófica – como se faz, por exemplo, quando se examina um texto de Descartes, Kant, ou Sartre. Qual a razão desse ofuscamento?

Bento Prado Júnior
Julio Cabrera, num artigo que despertou minha atenção para o tema (embora eu não sobrescreva integralmente), aponta duas vertentes que explicariam essa ausência de pensadores brasileiros de referência nos currículos e nos debates de filosofia. Ambas advogam a impossibilidade de que haja realmente um pensamento filosófico brasileiro original. A primeira, ele denomina de vertente universalista ou internacionalista. Segundo Cabrera, os defensores dessa tese “pensam que deve criar-se uma comunidade de estudiosos de textos, de bons comentadores e conhecedores de filosofia clássica e moderna, capazes de gerar papers e livros que possam concorrer dignamente no plano internacional. Essa deve, segundo eles, ser considerada como a contribuição brasileira à filosofia. Alguns deles não vêem qualquer sentido na questão de se tal tipo de prática filosófica acaba gerando ou não um pensar ‘genuinamente brasileiro’, enquanto outros apostam numa continuidade às vezes difícil de compreender, entre essas atividades eruditas e o nascer de um pensamento original brasileiro. A ideologia universalista parece-me hoje predominante entre os professores”. Essa tese compartilha, a meu ver, dos resquícios de um pensamento subalterno, fortemente marcado por nossa herança colonial (aquilo que o dramaturgo Nelson Rodrigues denominou “complexo de vira-lata”) e que o Brasil ainda tenta superar (em algumas áreas com mais sucesso do que em outras). É a divisão internacional do trabalho aplicada à filosofia. Infelizmente, como observa o autor, ela parece predominar nos meios acadêmicos – o que é bastante preocupante.

Marilena Chauí
A segunda tese, Cabrera classifica de independentista. Seus partidários “acham que devem criar-se condições sociais, culturais e mesmo institucionais que favoreçam um pensamento original e criador, devendo-se lutar contra o colonialismo ainda presente nas mentes dos pensadores brasileiros, que os leva a copiar moldes externos em lugar de pensar por si mesmos”. Aqui, o trabalho dos filósofos atuais seria criar um panorama propício à reflexão filosófica e ao surgimento de filósofos brasileiros originais no futuro.

Para Cabrera, apesar de suas flagrantes diferenças, tratam-se, em ambos os casos, de conceber a práxis filosófica criadora dentro de um contexto sócio-cultural que permitiria seu desenvolvimento “como se a partir de condições sociais determinadas fosse surgir um autêntico filósofo”. Esquece-se, segundo o professor da UnB, “o motivo profundamente singular do ato de filosofar”, o “impulso singular de expor o mundo de uma maneira inevitavelmente pessoal, mas que, de um modo o outro, apela para o humano, para o que afeta a todos”. Assim, ambas as teses tornam-se insustentáveis. A primeira, pelo absurdo de acreditar que a função de um filósofo no Brasil (ou em qualquer outro país “periférico”) reduz-se a refletir sobre o pensamento fornecido pela “metrópole”. A segunda, tanto porque advoga uma espécie de determinismo inócuo, quanto porque entende não existirem “ainda” condições de um pensamento criador e original em terras brasilis – e que, se corroborada, acabaria postergando a possibilidade de uma produção filosófica independente, como no primeiro caso, para um futuro longínquo e indeterminado.

Ainda assim, como apontado anteriormente, há filósofos originais no Brasil. Então, porque não os identificamos, não os estudamos? A resposta de Cabrera para essa nossa cegueira é precisa: “O que não existe são os mecanismos, institucionais e valorativos, para poder visualizá-los”. Assim, prossegue: “A ‘não existência’ de filosofia no Brasil (e em muitos outros países) é um efeito produzido pela particular distribuição da informação hoje dominante no mundo, pela particular estrutura das instituições de ensino e de pesquisa, e por ideias unilaterais do que seja ter ou não valor como filosofia. Alterando estas condições, começaremos a ‘ver’ os nossos filósofos, ou seja, quando deixarmos de buscá-los nos lugares errados e com as imagens e expectativas erradas”. Nesse sentido, conclui o autor, “as condições institucionais [no Brasil], longe de favorecerem o surgimento de filósofos, na verdade podem estar afogando-os e eliminando-os antes mesmo deles nascerem”.

Em suma, as condições são claramente importantes, mas não determinam, como passe de mágica, o surgimento de indivíduos dispostos a exercer o pensamento crítico de maneira independente. Contudo, podem concorrer fortemente no sentido de impedir o seu florescimento. É, me parece, o que se passa hoje, no âmbito filosófico brasileiro. Primeiro, porque tendemos a não valorizar o pensamento que não se enquadre ao establishment. Em segundo lugar, porque não temos o hábito de dialogar filosoficamente com nossos pares. Ademais, no “trash império dos papers”, como definia Bento Prado, um paper no currículo (e o status que um currículo repleto de publicações, mesmo que protocolares, oferece) vale mais do que o risco de se propor uma ideia, uma categoria, um conceito original – e se dispor a debatê-los. E, verdade seja dita (e eu me incluo nela), os novos alunos de filosofia acabam, mais cedo ou mais tarde, sendo forçados (sob pena de não poderem continuar militando no meio da filosofia) a entrar de alguma forma nesse jogo – e são poucos os que conseguem sair dele e se manter. Contudo, parece-me contraditório com o próprio espírito da filosofia restringir a produção filosófica de valor ao que se faz em meia dúzia de nações "iluminadas", que deteriam o monopólio da criação filosófica, cabendo ao resto do mundo o papel de mero apêndice. Com efeito, não há porque não acreditar (e trabalhar para) que possam surgir trabalhos inovadores em países como o Brasil, igualmente capazes de criar, paulatinamente, uma tradição de pensamento filosófico autônomo. Mas, para isso, seria importante, dentre outras coisas, que, junto ao estudo dos clássicos, também abríssemos espaços, nos currículos de filosofia, para o exame da história e do pensamento de autores brasileiros (ainda que, como foi indicado, essa história e esse pensamento tenham se construído de forma pouco ou nada coesa, sem criar nenhum tipo de “unidade”, “tradição” ou “memória filosófica brasileira”, como se observa em países como França, Alemanha etc.).

Com efeito, acredito que a “descoberta” do que já se produziu por aqui, combinada à valorização de nossa produção intelectual e ao necessário estímulo à reflexão criadora e ao debate que faz girar a roda da filosofia, fomentaria a ousadia dos atuais e futuros estudantes, no sentido de agregar ao nosso imprescindível trabalho de historiadores da filosofia, o desafio (e os riscos que ele envolve) de também tentarmos pensar por conta própria – como muitos já fizeram e fazem (ou tentam), mas sem o reconhecimento ou o suporte devido. Assim, estaríamos certamente contribuindo para a progressiva constituição de uma verdadeira tradição de pensamento, não mais pautada exclusivamente pelas orientações trazidas do exterior, mas igualmente capaz de responder à altura os desafios com os quais o pensamento crítico se depara a cada período. E, afinal, quem ganharia com isso, seria a filosofia como um todo.

Referências bibliográficas:

CABRERA, Julio. O que significa dizer: "Não existem filósofos no Brasil"? Disponível em: http://vsites.unb.br/ih/fil/cabrera/portugues/fibra.htm

CERQUEIRA, Luiz Alberto. Filosofia brasileira: ontogênese da consciência de si. Petropolis: Vozes, 2002.

PRADO JR, Bento. “O problema da filosofia no Brasil”. In: Alguns ensaios – filosofia, literatura, psicanálise. 2ª edição. São Paulo: Paz e Terra, 2000.


terça-feira, 19 de julho de 2011

Boa sorte, Adílson!

É o desejo que resta ao torcedor são-paulino. Adílson não era – nem de longe – meu nome preferido, nem da maioria da torcida. Fosse há um ano, talvez, o quadro seria diferente – e a confiança do torcedor no novo treinador, maior. Mas, depois de três trabalhos infelizes, a desconfiança é mais do que justificada. Além disso, há um desconforto com o fato de que, mesmo no seu auge, Adílson era conhecido como “Professor Pardal” – algo que, já vimos com Carpegiani, é meio caminho para o fracasso.

No entanto, com as chegadas de Cícero, Denílson, do meia argentino Cañete e do lateral-direito paraguaio Piris, com Lucas mais experiente depois da passagem pela seleção, Rivaldo com confiança e Luis Fabiano voltando bem (esperamos!), não dá para negar que o SPFC ficará com um elenco bastante consistente. Na minha opinião, faltaria ainda mais um zagueiro e um lateral-esquerdo. Mas, de qualquer forma, temos time para brigar na parte de cima da tabela. Desde que Adílson não invente, e consiga fazer o trabalho que o consagrou no Cruzeiro.