quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Doriva?

Torço muito para estar errado, mas entendo que a escolha de Doriva para substituir o demissionário Juan Carlos Osorio entrará na lista como mais um dos incontáveis erros da tenebrosa “gestão” (sic) de Carlos Miguel Aidar.

O estilo de futebol mais retranqueiro praticado pelas equipes de Doriva em nada se assemelha àquele ofensivo promovido pelo treinador colombiano. Se a ideia, ao trazer Osorio, era buscar uma novidade (em métodos, em planejamento tático etc.), com Doriva, o SPFC escolhe o “mais do mesmo” que nada acrescenta ao futebol. Ainda assim, podemos chegar no G4 do Brasileirão ou ganhar a Copa do Brasil? Sim, claro. Celso Roth foi campeão da Libertadores pelo Inter chegando ao clube gaúcho em uma fase semifinal em 2010 (eliminando o próprio SPFC àquela altura, aliás). Mas, pensando a médio e longo prazo, o tricolor paulista parece ter escolhido o caminho da regressão dentro de campo. A mesma, aliás, que vemos escancarada fora dele.

Enfim, numa semana em que a administração Aidar naufragou de vez – registre-se: não há alternativa para salvar o clube que não passe pela saída do atual mandatário tricolor – a opção por Doriva não surpreende. Opiniões à parte, porém, só nos resta torcer. Por Doriva e pela saída de Aidar.

PS: desejo toda sorte ao Profe. Juan Carlos Osorio. Quem sabe um dia ele possa voltar, em um ambiente menos hostil, para terminar o que começou.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

John Lennon - Power to the people

Um recado do mestre, para esses dias estranhos na política... porque não há outra solução!

 

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Vitória da democracia

Há anos, neste blog e em outros espaços, venho batendo na tecla de que o avanço da democracia no Brasil depende forçosamente, dentre outros fatores, do bloqueio da influência do poder econômico na política, em particular nas eleições. Hoje, uma importante vitória foi conseguida nesse sentido: o STF ignorou a atuação patética de Gilmar Mendes na sessão de ontem e proibiu, por 8 votos a 3, as doações empresariais para campanhas eleitorais já a partir do próximo ano. É verdade que o Senado, através da confecção de uma PEC, pode ainda reverter essa decisão. Entretanto, não parece haver clima para tal manobra naquela Casa.

Por isso, vale o registro: neste 17 de setembro de 2015, a democracia brasileira começou a dar um enorme salto de qualidade. E, de mais a mais, em meio ao caos dos acontecimentos dos últimos tempos, essa novidade ainda serve de alento de que dias melhores virão.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Adorno, Horkheimer e a razão instrumental

Na abertura da Dialética do Esclarecimento, Adorno e Horkheimer questionam: “por que a humanidade, em vez de entrar em um estado verdadeiramente humano, está em uma nova espécie de barbárie?”. De fato, esperava-se que, com a civilização científica e com o triunfo do pensamento esclarecido (Iluminismo), isto é, o pensamento livre dos mitos e superstições, a humanidade entraria em uma idade de ouro, livrando-se da barbárie própria de nossa vida natural. No entanto, nossa situação mostra que os sonhos do iluminismo eram apenas ilusões: atualmente, o pensamento crítico e emancipado encontra-se em regressão, convertido em pensamento único. Este fracasso pode ser lido como o fracasso do projeto moderno de articular a autonomia da razão e a conquista da felicidade, cujo ideal está na base da noção de ciência que emerge após a Renascença. Quais as suas razões?

Segundo os autores, a causa elementar é a ausência da capacidade de julgar e discutir nos cidadãos que vivem na sociedade tecnológica e bem “administrada”. A busca de conhecimento crítico é abandonada e usa-se a razão exclusivamente para criar instrumentos e meios que garantam a conservação da vida. Com efeito, o ideal de felicidade, inscrito nos primeiros sistemas filosófico-científicos da modernidade (Bacon, Descartes), foi transmutado em uma tentativa desesperada de auto-conservação. A modernidade iluminista criou a sociedade de massa e o pensamento massificado ou o pensamento único, “unidimensional”, como diria Hebert Marcuse. Ou seja, fez surgir uma sociedade na qual todos, para garantirem sua conservação, devem pensar de modo normatizado, de acordo com padrões de uma inteligência tecnológica, econômica e pragmática.

Essa uniformização do pensamento – na verdade, sua submissão aos ditames de uma lógica heterônoma, no limite, a reprodução do capital – encontra suas bases teóricas já naqueles primeiros filósofos modernos. Por exemplo, a unidade da razão em Descartes, que exportava o método da evidência matemática para todos os demais campos do saber, como a moral. Único método, único objeto. Essa unidade, porém – a história assim o demonstrou – prejudicaria a articulação necessária entre teoria e prática, entre ciência e a emancipação humana prometida, ao mesmo tempo em que seria a chave do progresso, ideal tão característico do período.

O progresso da razão esclarecida, de fato, criou dialeticamente sua própria antítese: a realização da autonomia da razão resultou no estabelecimento de um modelo único de racionalidade ao qual se subordina todo o conhecimento, e que se põe como requisito do próprio exercício da razão. O resultado é paradoxal: como explicado no ensaio O conceito do Iluminismo, que abre a Dialética do esclarecimento, a razão iluminista, que surge na modernidade com o intuito de emancipar o ser humano dos constrangimentos naturais, das superstições e dos mitos, recaiu em uma nova forma de mitologia.

O núcleo dessa nova mitologia se expressa na confusão entre racionalidade e dominação, típica da prática científica moderna. O indivíduo dominado pelo pensamento mítico, não esclarecido, deparava-se com impedimentos para celebrar o casamento entre entendimento e verdade. Bacon, na aurora de nossa época, havia nomeado estes empecilhos: credulidade, aversão à dúvida, temeridade no responder, vangloriar-se com o saber e ter conhecimentos parciais. A vitória sobre estes impedimentos residiria no saber, isto é, na capacidade racional humana. Ao utilizá-la, o ser humano vence a superstição, desencanta a natureza e a si mesmo, e transforma seu conhecimento em técnica. “Saber é poder”, dizia Bacon.

Nesse sentido, o esclarecimento é justamente o movimento da razão que pretende racionalizar o mundo, tornando-o manipulável pelo ser humano. No mundo mitológico, quando o sacerdote invocava as forças da natureza em benefício do ser humano, por exemplo, ele nada mais pretendia do que reverter o poder dominante destas forças, para que elas não concorressem na destruição do universo humano.  Já no caso da técnica, a supremacia, o poder e a possibilidade de domínio situam-se do lado do homem. “O esclarecimento comporta-se com as coisas como o ditador se comporta com os homens. Este os conhece na medida em que pode manipulá-los. O homem de ciência conhece as coisas na medida em que pode fazê-las”.

Portanto, na época moderna, o progresso do conhecimento é o progresso do domínio – da natureza e dos próprios homens. O Iluminismo, numa palavra, nada mais é do que a passagem do mito à razão esclarecida, à “maioridade”, como diria Kant. Não se trata, porém, de um movimento que não cobra uma pesada contrapartida: “o preço que os homens pagam pelo aumento de seu poder é a alienação daquilo sobre o que exercem o poder”. Nesse sentido, posta a identificação entre conhecimento e dominação, a instrumentação para o domínio recobriu a totalidade do que se entende como o próprio exercício da racionalidade. Uma das principais consequências é que, na sociedade esclarecida, o pensar se transforma em instrumento das ciências positivas. Tudo – inclusive o ser humano – se reduz a uma coisa, manipulável externamente. Com isso, porém, aquilo que era dinâmico e criativo perde sua autonomia e autoconsciência. O pensamento é reificado, transformado em coisa, em algo fixo, passivo e automático.

Por isso, Adorno e Horkheimer dizem que o pensamento esclarecido é um pensamento que não se pensa. É o indivíduo e a ciência que não refletem sobre os fins e as consequências de suas ações: “o esclarecimento pôs de lado a exigência clássica de pensar o pensamento porque ela desviaria do imperativo de comandar a práxis”. Mas, o que seria “pensar o pensamento”? Refletir criticamente sobre as condições do pensar em geral e sobre o conteúdo do que se pensa. A sociedade massificada recusa esta exigência e a classifica como delírio. Por exemplo, os produtos culturais da indústria da comunicação de massa não favorecem a reflexão, mas reproduzem o que é necessário à conservação do status quo. Também, o conhecimento científico não pensa as condições socio-históricas e lógicas de sua produção, bem como seus valores e usos. A meta da ciência praticamente se reduz a criar algo “útil”, economicamente viável. Tampouco o trabalhador assalariado pensa nas reais condições da economia mercantil e se dá conta do mecanismo social da alienação.

Em suma, na sociedade bem administrada, o ser humano não se pensa. A razão instrumental é cega, não se enxerga, não reflete. Por isso, converteu-se, de mecanismo promotor da emancipação, em uma nova – e poderosa – forma de barbárie, que só pode ser combatida dialeticamente pelo trabalho paciente do próprio pensamento. Esta é a tarefa que a teoria crítica se põe.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Tempo para trabalhar

Por falta de tempo devido aos compromissos profissionais e pela precipitação de acontecimentos no mundo político, nada havia escrito no blog a respeito de futebol e do São Paulo FC desde a saída de Muricy Ramalho, há quase três meses. Quem me acompanha nas redes sociais, porém, em especial no Twitter, sabe do apreço que tive pela contratação do técnico Juan Carlos Osorio e que nutro por seu trabalho até aqui. Agora, minimamente superada a turbulência das últimas semanas (pelo menos, assim o espero), que certamente se agravaria em caso de eliminação para o Ceará na Copa do Brasil, me parece oportuno externar uma posição mais bem embasada.

Entendo que a vinda de Osorio é o maior acerto – talvez, o único – dessa gestão desastrada, para dizer o mínimo, de Carlos Miguel Aidar. Contudo, me parece desnecessário lembrar a canalhice (para mim, é este o termo apropriado) que fizeram com o trinador colombiano, ao omitirem, no momento em que o procuraram, a situação financeira dramática que vive o clube. Com efeito, o desmanche promovido por Aidar nas últimas semanas compromete sobremaneira o trabalho de Osorio (e mesmo o próprio ânimo do técnico em permanecer no futebol brasileiro). Por conseguinte, prejudica uma avaliação mais precisa sobre ele.

Esse quadro, no entanto, só vem corroborar algo que, mesmo se não houvesse o desmanche, me parece a postura correta que a diretoria deveria seguir: dar tempo para Osorio trabalhar. Quem teve a oportunidade de morar em outro país sabe a demora que pode ocorrer no entendimento e na adaptação aos costumes, ao dia a dia do novo lugar. Para quem, como o colombiano, chega numa posição de comando, e se depara com a situação desconhecida descrita acima, essa dificuldade se agrava.

Por isso, a meu ver, o melhor a fazer, neste momento, é o seguinte: levar 2015 como der (imagino uma classificação de meio de tabela no Brasileiro e uma eliminação nas quartas ou, no mais tardar, nas semifinais da Copa do Brasil) e dar carta branca para Osorio pensar um time para 2016. Estabelecer um projeto de médio prazo, sem pressão para resultados imediatos. Ora, por quê? É verdade que Osorio não é gênio, o “Guardiola sulamericano”, ou algo assim. E, sim, ele vai errar ainda, e muito, em escalações, em acreditar em jogadores que nós, torcedores, sabemos que não têm condições de oferecer nada, em improvisos... Além disso, também terá de aguentar as trapalhadas de Aidar e sua trupe. Entretanto, Osorio é inegavelmente um trabalhador, estudioso, uma mente arejada num futebol (e num clube) que agoniza. Alguém que propõe um futebol para além da retranca e do contra-ataque, que quer fazer o SPFC jogar como o grande clube que é. E, acima de tudo, o treinador colombiano é uma reserva de bom caráter e hombridade num ambiente visivelmente putrefato.

Assim, se há um pilar que pode servir para reestruturar minimamente o há anos cambaleante São Paulo, ao menos dentro de campo, este é justamente Osorio. Mas, trata-se de um trabalho que leva tempo, ainda mais sem dinheiro para grandes contratações. Logo, de nada adianta cobrá-lo apenas pelo próximo jogo. Há de se enxergar alguns passos adiante. E, de mais a mais, nunca é demais lembrar: construir é sempre mais difícil do que destruir.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

O alvo

Nos últimos dias, a estratégia de alguns setores da elite brasileira, capitaneados pela grande mídia, começou a ficar mais nítida. Após o (à primeira vista) surpreendente recuo em relação ao eventual impeachment de Dilma, a sanha golpista parece se direcionar a outro incontornável personagem: o ex-presidente Lula.

Primeiro, houve a divulgação de um grampo telefônico, no qual Lula conversa com um empreiteiro preso na Operação Lava Jato. Depois, no final de semana, a publicação ilegal de seu sigilo bancário, mostrando o montante milionário arrecadado (legalmente, é bom frisar) com palestras após o final de seu mandato – parte delas, feitas a pedido de empresas citadas na mesma operação policial. E finalmente, no domingo, durante as manifestações e em suas repercussões, a ênfase dada pelos analistas da grande imprensa à proeminência da figura do ex-presidente nos protestos (simbolizada no boneco inflável de Brasília) demonstrou de modo praticamente inequívoco: Lula é o alvo.

A equação parece simples: de um lado, Dilma continuaria enfraquecida, com baixíssima popularidade, especialmente por conta da economia e, porque não, de sua inabilidade política. Assim, na “corda bamba”, seria obrigada a ceder ainda mais a pautas como aquelas da “Agenda Brasil”, proposta pelas classes dominantes e seus porta-vozes no Congresso e dentro do próprio governo. De outro, se inviabilizaria Lula politicamente através de um indiciamento, ou mesmo, no sonho de muitos, com a prisão do ex-presidente. Se haverá argumentos consistentes e provas, não interessa: o que vale é a narrativa em curso, que visa criar um clima de que Lula é “o chefe” de uma organização criminosa e, portanto, o fim “natural” ao qual a Lava Jato deve chegar. Se essa tese prosperar, ademais, o PT – que anda tão perdido e acuado quanta a presidenta – levaria sua pá de cal e, com ele, toda a esquerda (não se enganem: para esse pessoal, PT, PCdoB, PSOL, PSTU, representam exatamente a mesma coisa).

Para isso, falta “combinar com os russos”, isto é, com o povo que elegeu Dilma e Lula. Na última semana, a “Marcha das Margaridas”, o encontro da presidenta com os movimentos sociais, os atos em frente ao Instituto Lula, demonstram que o enredo – se for este mesmo – não será realizado tão facilmente. Com efeito, mesmo descontentes com o governo, fica claro também que muitos setores estão dispostos a resistir a qualquer forma de golpismo, como esta, mais ou menos camuflada, que agora se tenta emplacar.

sábado, 8 de agosto de 2015

Sobre o atual momento político

Vamos lá: algumas apostas sobre o aparente surto de bom senso da dupla FIESP/FIRJAN (Federação das indústrias de SP e RJ, respectivamente) e das Organizações Globo no final desta semana tumultuada.

A meu ver, FIESP e FIRJAN fazem um cálculo puramente econômico. O país em crise é ruim para seus representados. E, nesta semana, ficou claro que o ajuste fiscal do governo pode fazer água no Congresso, onde há uma rebelião generalizada das “bases”, capitaneada por Eduardo Cunha. A nota, ecoando o que alguns grupos de mídia já vinham anunciando, parece dizer algo do tipo: “Vocês foram longe demais. A crise política não pode mais atrapalhar nossa recuperação econômica”. Cunha, de fato, deve ter sua queda política selada nas próximas semanas.

A Globo vai em linha semelhante. Até porque, verdade seja dita, os governos petistas foram e continuam sendo bastante genero$o$ com as empresas da família Marinho. Ademais, em um momento de baixa de audiência e perda de sua credibilidade, a Globo, provavelmente, não quer ser novamente tachada de golpista (como em 1964 e 1989). Por isso, não pode embarcar (abertamente, pelo menos) na insanidade de novas eleições proposta pelo PSDB de Aécio. Apoiariam uma destituição da presidência apenas em um caso extremo, visando, assim, passar para o grande público a (falsa) ideia de imparcialidade.

Como cereja no bolo, os dois grupos ainda tomam as rédeas do governo. É aquela velha lógica chantagista: “Nós lhes demos apoio na hora mais difícil. No momento oportuno, esperamos nossa retribuição”. Ou seja, em troca de apoiar a legalidade democrática, garantem que nada vindo de Brasília vai atrapalhar seus negócios. Ao mesmo tempo, tornam o governo refém de sua agenda pelos próximos três anos.


E, nesta quadra, um último dado relevante. O presidente da República, de fato (ou seja, reconhecido por estes setores), passa a ser Michel Temer. É parte fundamental da “troca” que se desenhou. Se ela vai vingar? Não sei. Mas, ao que tudo indica, é o que se pretende.