Difícil falar ainda no calor do momento. Mas, o resultado é inapelável: anos e anos de forte campanha midiática e cultural contrária deram resultado. A capilaridade da esquerda foi destroçada nessas eleições. Na esmagadora maioria das cidades grandes e médias, PT e PCdoB foram praticamente varridos do mapa. O sucesso do PSOL de Marcelo Freixo, no Rio, infelizmente é apenas a exceção que confirma a regra. A esquerda encontra-se, toda ela, na defensiva.
Mais do que nunca, nessa situação dramática, é hora de juntar os cacos e, com serenidade e capacidade de autocrítica, se unir e se repensar. Uma reorganização da esquerda brasileira – toda ela – é urgente. O Brasil não merece o futuro que se avizinha.
Neste 28 de setembro de 2016, completam-se 50 anos do falecimento de um dos maiores artistas do último século: o pai do surrealismo, o francês André Breton.
Conheci Breton na época de faculdade. Quer dizer, já tinha ouvido falar do surrealismo, nas aulas de literatura do colegial sobre as vanguardas artísticas modernas, mas foi mais tarde que o movimento realmente chamou minha atenção. “Acredito na resolução futura destes dois estados, tão contraditórios na aparência, o sonho e a realidade, numa espécie de realidade absoluta, de surrealidade, se assim se pode dizer”. Era a plena exaltação da liberdade, da imaginação, da criatividade, do sonho – mas, sem deixar de lado o real. Conjugação difícil, sem dúvida, mas não impossível, como Breton demonstrava.
Com efeito, a leitura dos Manifestos do surrealismo foi marcante, dentre outras coisas, porque representava, naquele momento, a tradução do que procurava para minha vida: a conjunção entre a rebelião romântica expressa no imperativo de “mudar a vida”, de Rimbaud, com o “transformar o mundo”, orientado por uma perspectiva não dogmática, de Marx – ambos, entrelaçados pela psicanálise freudiana. “Do ponto de vista intelectual”, explicava em 1930, “tratava-se, trata-se ainda, de por à prova por todos os meios e de fazer reconhecer a qualquer preço o caráter factício das velhas antinomias destinadas hipocritamente a prevenir toda agitação insólita por parte do homem, nem que fosse por lhe dar uma ideia minguada de seus meios, ou por desafiá-lo a escapar em dimensão válida à coerção universal”.
Depois dos referidos Manifestos, vieram Vasos comunicantes, os poemas, o romance Nadja, o Manifesto por uma arte revolucionária e independente (escrito com Diego Rivera e Léon Trotsky) e a abertura para outras expressões artísticas surrealistas: o cinema fantástico de Luis Buñuel e Federico Fellini, a pintura de Magritte, Juan Miró e daquele que considero o maior pintor do século XX, Salvador Dalí (cuja obra, em grande parte, tive o enorme prazer de apreciar em uma exposição em Paris, em 2013, num dos momentos mais sublimes de minha estadia por lá).
Nesses tempos obscuros que vivemos – poderia dizer: surreais, no sentido mais pejorativo que por vezes se aplica ao termo –, que a arte de Breton possa servir de alento ao espírito e combustível para não deixar morrer os nossos sonhos mais altos de liberdade: “No meu modo de entender nada existe de inadmissível. O irreal é tão verdadeiro como o real. O sonho e a realidade são vasos comunicantes”.
Os tempos estão mudando... pessoalmente, uma nova fase profissional, há tempos sonhada, está prestes a começar. O país, por outro lado, vive tempos difíceis. A tardia, conquanto justíssima, cassação de um dos cânceres da política brasileira, Eduardo Cunha, não apaga a mácula do golpe jurídico-parlamentar impetrado inicialmente por ele contra a presidenta Dilma Rousseff. Sem dúvida, um tempo de resistência se abre, mas, sem ilusões: o próximo período será muito difícil, como muitos já estão começando a se perceber.
E Bob Dylan, nesse momento, é uma ótima pedida. Aliás, não só nesse: Dylan é sempre essencial. Por isso, fiquem com essa apresentação de 1964 do cantor e compositor inglês, interpretando um de seus clássicos, The times are a-changin'.
31 de agosto de 2016. Um dos dias mais trágicos da história
do Brasil. Dia em que nossa jovem democracia foi solenemente escanteada – sem tanques,
ao vivo na TV, dentro do Parlamento – praticamente sem reação efetiva por parte das vítimas.
É fato que os últimos anos de governo Dilma foram bem ruins. No entanto, jamais foi isso que esteve em jogo. O que sempre se quis foi esvaziar a soberania popular. Por isso, é difícil encontrar palavras nesse
momento. A verdade é que Dilma, que mais uma vez se revelou uma mulher extraordinária durante seu interrogatório na última segunda, tinha seu destino selado há meses. Outra verdade, é que um sem número de seus "juízes" não tinha o menor traço de envergadura moral para dirigir-lhe a menor acusação. Mas, assim o foi. E, nesse sentido, parece ainda inimaginável que o país, que há poucos anos parecia ter
encontrado uma mínima identidade e se encaminhava, ainda que a pequenos passos, rumo a
um estado de bem estar para a maior parte de sua população, hoje se encontre
nesse estado: prostrado, impassível, impotente ou iludido, diante de uma oligarquia que fez o impossível
para retomar, sem qualquer intermediário, as rédeas do país. Oligarquia cujos
braços se estendem por todos os poderes da República, e cujo único intuito, por
trás do falso discurso anticorrupção, é reinserir o Brasil na vanguarda do
atraso, conservando, assim, seu poder.
Finalmente, não tenham dúvidas: muitos dos que, ainda sem maior
clareza, comemoram a queda de Dilma, sobretudo por não terem um apreço pessoal
por ela, logo sentirão na pele os efeitos de seu apoio ou omissão diante dessa
nova modalidade de golpe parlamentar-jurídico-midiático. Modalidade que,
experimentada em países menores, jamais se poderia crer que atingiria um país
com o peso e a (aparente) solidez do Brasil. Dura e cruelmente, porém, atingiu. A
débil luz no fim do túnel acesa no início deste século se apagou. Resta saber se e quando teremos força para reacendê-la.
As Olimpíadas foram,
inegavelmente, um sucesso. Do lado de fora, mostramos, mais uma vez, do que
somos capazes. Os jogos serviram para levantar um pouco nossa autoestima e
recuperar nossa imagem diante de mundo, ambas tão desgastadas após o show de
horrores do último 17 de abril, data da votação na Câmara dos Deputados do
impeachment da presidenta Dilma. Do lado de dentro, grandes competições, descoberta
de novos esportes, novos ídolos, recordes e momentos históricos que já deixam saudades.
Nesse quesito, aliás, é preciso
perguntar: e agora? A pergunta é pertinente porque, apesar de ter alcançado seu
melhor resultado em termos de medalhas, o esporte olímpico brasileiro tem um
futuro um tanto quanto sombrio. Primeiramente, por conta de um problema
crônico, que já abordei aqui no blog, logo após os jogos de Londres: a histórica
falta de uma política esportiva de base, desde as escolas, que utilize o esporte
em sua mais importante faceta em um país como o nosso: aquele da inclusão
social. As ações até aqui arroladas nesse sentido ainda são tímidas, e estão
longe de contemplar todo o potencial que temos. Quem sabe, o uso das
instalações olímpicas que ficaram de legado não possam ser mais um passo rumo a
esse ideal...
Ademais, no âmbito dos atletas de
ponta, a situação que se avizinha pode ser catastrófica. Afinal, o governo
Temer já anunciou que pretende por um ponto final nos programas de ajuda
governamental aos atletas (que se estendem dos patrocínios de empresas estatais
ao Bolsa-Atleta, passando também pelo acordo com as Forças Armadas). A grande
maioria de nossos competidores no Rio era agraciada com algum apoio desse tipo,
inclusive vários de nossos medalhistas. A melhora na classificação final, diga-se,
é indissociável desse suporte, que se estende desde meados da década passada.
Caso Temer realmente extinga essa
política de ajuda ao esporte, tanto sua capilarização fica extremamente
prejudicada, quanto o desempenho em Tóquio 2020 corre sérios riscos de ficar
aquém do que poderíamos. Por isso, passada a ressaca pós-Olimpíada, é fundamental
que a sociedade, a começar pelos atletas, se organize e pressione (muito) para
que a política de Estado de apoio ao esporte não seja mais uma área a sofrer os
retrocessos do governo golpista.
Amado por muitos, odiado por outros
tantos, Fidel Alejandro Castro Ruz completa neste sábado, 13 de agosto de 2016,
90 anos. Marca incrível para qualquer ser humano comum. Mais surpreendente
ainda para quem, segundo o insuspeito Guiness
Book, sofreu mais de 600 tentativas de assassinato enquanto comandou Cuba,
entre 1959 e 2006, e ousou desafiar o maior poder
econômico-político-militar-cultural jamais visto.
Menos pelos erros inegáveis ou pelos
acertos igualmente inquestionáveis enquanto governante – o balanço fica para outra oportunidade –, Fidel entrou para a
história, a meu ver, sobretudo como símbolo da luta pela solidariedade e emancipação
dos povos da América Latina no século XX.
Para ilustrar aquilo que entendo
ser o seu maior legado, permito-me contar rapidamente de uma historinha de quando
estive em Cuba, há quatro anos: estava conhecendo a famosa Bodeguita del medio, em Havana, quando, no intervalo do grupo
musical que se apresentava, saí para tomar um ar. Do lado de fora, comecei a conversar
com a cantora do grupo e com o segurança do local. Este, ao saber que eu era
brasileiro, perguntou-me de imediato o que eu fazia. Ao ouvir que era estudante
de filosofia, ele me disse: “Que bom, um filósofo brasileiro! Vocês têm muito a
pensar, a fazer. Têm que ajudar Lula e Dilma a continuar transformando o
Brasil, ajudar a transformar América”.
Aquelas palavras, para mim tão
certeiras, mas absolutamente inesperadas, vindas de um cidadão comum, me
tocaram por vários motivos. Um deles, foi precisamente porque ela expressava
uma consciência crítica e uma solidariedade a que não estamos acostumados. Mas que,
já notara, não eram incomuns naquele país. Mérito, sem dúvida, da consciência que
o líder da Revolução Cubana incutiu no povo de seu país. “A batalha mais importante é a batalha das ideias”, costuma dizer.
Enfim, essa é a maior herança,
para mim, que fica de Fidel Castro: ter demonstrado, à América e aos países do
dito “terceiro mundo”, que eles poderiam ser senhores de seu destino. Como fica
claro no vídeo abaixo, que contém um dos mais célebres discursos – se não o mais
– do líder cubano, proferido na ONU, em 1979, essa foi, desde sempre, sua luta.
É ela, ao fim e ao cabo, que permanecerá. É por essa herança que a história o
julgará. E é ela que hoje deve ser celebrada.
“As bombas podem matar os
famintos, os doentes, os ignorantes, mas não podem matar a fome, as doenças, a
ignorância. Tampouco podem matar a justa rebeldia dos povos, e no holocausto
também morrerão os ricos, que são os que mais têm a perder neste mundo”.
Momentos em que tudo parece dar certo são raros. Muitos,
inclusive, duvidam que eles possam ocorrer. Eu talvez estivesse entre os
céticos. Mas, hoje, não posso negar, minha vida passa por uma ótima fase. Aprovação
em concurso para professor, mudanças positivas à vista, casamento indo bem, planos para o
futuro, em suma, um sentimento de realização, tanto pessoal quanto
profissional.
Não sei o que ocorrerá na sequência, se as coisas
continuarão a correr bem, se conseguirei superar os desafios que me aguardam
daqui para frente. Mas, hoje, só posso agradecer. Agradecer às pessoas ao meu
redor, à minha família, pelo que me proporcionou, à Angelica, pelo apoio incondicional e pela paciência, enfim, agradecer à vida.
E, para isso, deixo vocês com uma belíssima canção que
ilustra esse momento. Aquela que talvez seja a mais bela voz da MPB, Elis
Regina, numa interpretação sublime de Gracias
a la vida, da argentina Violeta Parra.