quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Por que votar em Mercadante?

Saber a “ficha corrida” de um candidato é um aspecto essencial na hora de escolhermos em quem depositar nosso voto. Mas, o que está em jogo, na hora das eleições, não é apenas uma disputa entre qualidades individuais mais aparentes (isto é, não se trata de escolhermos o melhor orador, o mais simpático, etc.). Especialmente, quando se trata de cargos executivos. Mas, é fato que temos, no Brasil, a tendência a particularizar nosso voto, e, em geral, damos pouca importância ao que está “por trás” do candidato – desde suas propostas mais concretas, ao staff que o acompanhará no governo, passando por algo que entendo ser fundamental na escolha de nossos governantes, pois é, afinal, o que orientará seu governo: sua visão global sobre a sociedade e sobre o futuro. Por isso, esse texto não tratará da pessoa de Mercadante, que tem defeitos e virtudes como todos – mas, sobretudo, tem aquilo que deveria ser uma obrigação de todo postulante a um cargo público: é ético. Nem fará um balanço de sua atuação como senador, e seu papel (muito importante, diga-se de passagem) no sucesso do governo Lula. O que pretendo, é falar um pouco sobre o projeto político que, neste momento, o estado de São Paulo necessita urgentemente – e que, dentre os candidatos ao Palácio dos Bandeirantes, apenas Mercadante poderá, de fato, executar.


Sempre acreditei que, no caso brasileiro, há duas vertentes que devem orientar todo e qualquer projeto político progressista para o país: diminuir ao extremo a desigualdade social e melhorar a educação (no sentido amplo do termo) em todos os níveis. Concentrar-me-ei nesses dois eixos, uma vez que, em São Paulo, ambos foram bastante negligenciados ao longo dos 16 anos de governo do PSDB neste estado.


São Paulo é o estado mais rico do país. No entanto, nossos níveis de desigualdade não são menores que a média brasileira. E mesmo considerando que essa média tenha efetivamente diminuído nos últimos anos, a melhora nacional nesse quesito, nada, ou quase nada, teve a ver com as políticas públicas tucanas. Pelo contrário. Em São Paulo, não há uma política consistente de diminuição da pobreza e do fosso que separa ricos e pobres. A solução do PSDB (e de seu fiel escudeiro, o DEM) passa bem longe de tentar erradicar o problema. Lembremos, por exemplo, que quando prefeito da capital, Serra autorizou seu secretário de governo a instalar tapumes e fechar viadutos de SP, com o intuito de impedir que mendigos dormissem debaixo das pontes. Uma espécie de “higienização” digna das velhas políticas fascistas. Esconder a pobreza resolve alguma coisa? Depende: para a elite (e para uma boa parcela da classe média) resolve. Afinal, o problema saindo de seu campo visual, deixa automaticamente de existir.


Contudo, o maior crime do governo tucano em São Paulo, foi o descaso com a educação. Aprovação automática, baixos salários para professores, baixo investimento em infra-estrutura e, 16 anos depois, São Paulo tem alguns dos piores índices de educação do país. É uma espécie de “assassinato branco” cometido com algumas gerações de jovens que, mal sabendo ler e escrever, saem da escola sem formação para o mercado de trabalho, para exercer sua cidadania, e para a vida. Se você não acredita, se acha que tudo isso é papo de petista, que Serra e Alckmim são grandes governantes, sérios, e que, como dito na propaganda oficial, “aqui tem trabalho bem feito e SP é um estado cada vez melhor”, basta perguntar para qualquer um, mas qualquer um mesmo, que já tenha tido a oportunidade de ministrar aulas em escolas públicas estaduais. Pense que, por trás de sua resposta, dos inúmeros alunos que seu interlocutor viu passando de ano sem saber absolutamente nada, não estão apenas estatísticas. Trata-se de milhares de jovens que, em um estado tão rico como o nosso, terão ou (tiveram) suas vidas comprometidas para sempre pelo absoluto abandono da educação paulista.

Novamente, porém, teremos a chance de começar a melhorar esse quadro. Destaco o começar, porque, como todos sabem, construir algo é um processo muito mais lento e gradual do que destruir. O projeto político de Mercadante é o único que caminha, de fato, na direção oposta ao que vimos em SP nos últimos 16 anos. É o único que realmente visa valorizar a educação (pondo fim à famigerada reprovação automática, valorizando o professor, equipando as escolas, promovendo e fortalecendo a cultura, dentre outras medidas), diminuir a pobreza e a desigualdade no estado, e fazer com que São Paulo possa aproveitar todo o potencial econômico e humano que tem. É o único projeto que prioriza o social, que não vê o estado como uma grande empresa feita para lucrar. Por isso, não se trata apenas de escolher entre Alckmim e Mercadante (ou qualquer outro candidato). Trata-se, na verdade, de escolher entre duas visões diferentes de estado; entre duas visões sobre o que é prioritário em um governo: se é o famigerado “choque de gestão” tucano, ou se é a preocupação em dar condições de vida melhor para a população.


A maior prova de que, para além de características individuais, a política é feita de projetos coletivos, vem justamente do plano nacional, comparando-se a atuação dos últimos governos na educação superior (aquela que compete diretamente ao executivo federal). Nos oito anos de governo do renomadíssimo sociólogo Fernando Henrique Cardoso (e direi isso com pesar, pois também sou formado em Ciências Sociais, e acho que FHC foi um dos expoentes dessa área), foram construídas 0 universidades; 0 extensões universitárias; 0 escolas técnicas. Sim, zero! No governo do operário Lula, aquele que não é poliglota, que nunca deu aula na Sorbonne ou escreveu livros analisando política e economia, foram criadas 10 novas federais (em SP, a UFABC); 45 extensões universitárias (em SP, a UFSCar – campus Sorocaba, a Unifesp – campus litoral); e 214 escolas técnicas. Isso não diz respeito apenas a méritos ou deméritos pessoais de Lula ou FHC, ou à evidente sensibilidade do primeiro para as causas sociais. Isso diz respeito, também, aos programas políticos de cada partido, à forma como cada um deles enxerga o futuro e o potencial do país.


Por isso, e diante de uma possível vitória de Alckmim já no primeiro turno, o que significa a possibilidade real de vivenciarmos mais quatro anos de completo descaso com a educação e com a parcela mais necessitada da população, é que entendo ser indispensável darmos nosso voto de confiança não apenas a Mercadante, mas ao seu projeto de governo para o estado de São Paulo, o único em consonância com o que o Brasil precisa para continuar mudando.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

A Globo manda seu recado: não quer Dilma presidente

Segunda-feira, 09 de agosto de 2010. O Jornal Nacional, da Rede Globo, deu início ontem a uma série de entrevistas com os 3 principais candidatos à presidência do Brasil. Qual não foi a surpresa de muita gente, porém, com a forma como foi conduzida a primeira dessas entrevistas, com a candidata do PT, Dilma Rousseff*.

Bem, todo mundo sabe da opção favorável da Globo ao candidato José Serra. Por isso mesmo, não era de se esperar uma entrevista muito amistosa com Dilma. Contudo, a forma com que William Bonner se comportou na noite de ontem, rasgou até o frágil véu de imparcialidade que a emissora insiste em querer mostrar.

Primeiramente, Bonner tentou criar uma imagem distorcida da candidata, utilizando-se de colocações tais como “o presidente Lula disse que a senhora maltratou os ministros”. Ora, qualquer um sabe o tom de brincadeira em que o presidente disse tais palavras. Mas, quando tentou explicar o contexto, Dilma foi atropelada por Bonner. A cena se repetiu outras vezes: o apresentador perguntava – em tom que vacilava entre a intimidação e a leviandade – e, no meio da resposta da candidata, a interrompia para retrucá-la. Sempre de maneira pouco elegante. Uma espécie de inquisição ao vivo, em que não era dado à candidata o simples direito à resposta! Não à toa, num determinado ponto, em meio a mais uma interrupção de Bonner, até mesmo Fátima Bernardes – que, no começo, também havia tentado colar em Dilma a imagem de “chefona”, de alguém incapaz de diálogo, logo, não indicada a presidir um país como o Brasil – virou-se para o apresentador e pediu, sutilmente, para que ele se calasse.

Dilma, porém, saiu-se bem diante da maneira pouco usual de se conduzir uma entrevista (apenas para vocês terem uma ideia, comparem a entrevista na Globo com aquela dada poucas horas depois, no “Jornal das 10” da “Globonews”, canal a cabo da própria Globo, a maneira pela qual o jornalista André Trigueiro se comportou). Quando Bonner, falando da política de alianças do PT, perguntou, em tom sarcástico, se o partido nunca errou, Dilma simplesmente respondeu: “[No seu lugar,] eu perguntava outra coisa: onde foi que o PT acertou?”. Ou quando, diante da insistência completamente descontextualizada de Bonner, dizendo que as taxas de crescimento do Brasil são inexpressivas quando comparadas a outros países, como a Rússia, respondeu: “a queda da economia na Rússia no ano passado foi terrível. Criamos quase 1,7 milhão de empregos no ano da crise”. Só acho que ela deveria ter acrescentado: você sabe quantos a Rússia criou nesse período? Pois é...

Enfim, o que quero dizer é que é bom todo mundo ficar de olho. Não sei o que acontecerá nas entrevistas com os demais candidatos e quando o momento da eleição se aproximar. Mas, ontem, a Globo deu seu recado: não quer Dilma presidente. E, no que for possível, tentará minar sua candidatura. Lembremos que não é a primeira vez que isso ocorre. Em 89 eram Lula e Collor. Dois outros candidatos. A tática foi semelhante. E todo mundo sabe o final da história...

*Link para entrevista completa (com transcrição) aqui

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Se a vida fosse um filme...

Começo a semana com um singelo poema, que escrevi num daqueles momentos de dor, em que tudo o que desejamos é ver o tempo voar...
















Se a vida fosse um filme,
que alívio!
Não por seus finais,
geralmente felizes,
mas pelo ritmo acelerado
em que a vida é contada

Sim, porque são aqueles instantes
que se prolongam além do previsto
Aqueles minutos em que recapitulamos nossa
vida ao deitarmos
Ou então, aqueles segundos
em que a imagem do que fomos –
ou do que sonhávamos ser –
nos congestionam o pensamento

São eles, precisamente,
os mais capazes de arranhar a garganta
e nos rasgar feito papel

Sofrer é um detalhe,
o sofrimento está nos detalhes,
naqueles que permanecem para nos perseguir
quando estamos sós e vulneráveis

Os detalhes, sim,
os olhares,
o instante mínimo que se pode recordar.

Se a vida fosse um filme,
que alívio!
Quanta de nossa angústia
não seria lançada aos ventos
que varreriam para sempre
nossos momentos de dor?

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Sobre o primeiro debate

Esperei um pouco para falar do debate desta quinta-feira, pois o acompanhei por poucos momentos. Pelo que vi, e o que li depois, foi um debate morno. Nada, porém, fora do esperado. Não houve o desastre de Dilma, que a direita e parte da mídia torciam. Pelo contrário: em sua primeira participação num evento como esses, a candidata do PT saiu-se bem, dentro do previsto. Não se pode esperar que ela (nem nenhum outro candidato) se comporte com a desenvoltura de Lula. Mas, depois de um começo meio claudicante, Dilma se soltou e transpareceu segurança – não apenas para falar sobre os avanços do governo, do qual foi Ministra, mas, também para apresentar suas propostas, o que, afinal, é o que mais interessa. Deve crescer nos próximos debates.

Serra, no seu milésimo debate, continua tentando enganar o eleitor de outros estados, prometendo para o Brasil o que fez em SP. Só não disse se vai começar estendendo a aprovação automática das escolas estaduais paulistas também para as Universidades Federais, ou se instalará praças de pedágio a cada dois quilômetros nas rodovias brasileiras. Quem sabe, comece mandando expulsar os mendigos dos centros das capitais do país – como fez quando era prefeito da capital – já que essa foi a melhor solução que ele encontrou para acabar com a pobreza. Ah é, mas o candidato tucano (de maneira muito conveniente, tentando afastar-se da sombra do governo FHC) disse que não se deve ficar olhando para o passado. Ora, mas como preparar o futuro, sem conhecer os erros e os acertos anteriores? Quanto aos demais candidatos, Marina estava um tanto apática e Plínio de Arruda Sampaio, sem nada a perder, acabou se destacando pelas “diretas” que deu nos outros candidatos. Foi quem apimentou o debate - que não deverá mudar o panorama atual.

Mas, o que mais me chamou a atenção foi, após o debate, o presidente nacional do PSDB, o Senador por Pernambuco Sérgio Guerra, (esse aí abaixo) dizer que Dilma é “burra”, que “tem um problema intelectual” (veja a matéria do site "Vi o mundo" aqui). Claro, nada acontecerá com o deputado. Se fosse José Eduardo Dutra, presidente do PT, quem dissesse isso de Serra, a Veja faria matéria de capa no fim de semana exigindo a extradição de Dutra para a Sibéria, e pedindo a impugnação do registro do partido. Mas, como é do outro lado, aí tudo bem.

O que importa, porém, é que, poucos instantes após o fim do debate, Guerra deu mais um sinal de completo desespero. Não sei quantas vezes ainda terei que usar essa expressão aqui, mas a verdade é que Guerra, Serra e o PSDB, jamais acreditaram na possibilidade de que o candidato tucano pudesse perder para Dilma, ainda mais no primeiro turno, possibilidade essa que cada vez mais torna-se factível. Como viram que não deverão reverter nos debates o cenário apontado nas pesquisas (como eu disse acima, parte da mídia – aquela capitaneada por sujeitos do naipe de um Reinaldo Azevedo – esperava um retumbante fracasso de Dilma, o que faria a candidatura da petista despencar e a de Serra emplacar; mas, embora tentem “provar” o contrário, o fracasso não aconteceu), só lhes resta atacar, ofender, inventar mentiras...Aliás, nada diferente do que faziam contra Lula, lembram?

Enquanto isso, Dilma se prepara, busca melhorar, apresenta suas propostas em consonância com o que foi feito nos últimos anos, e, devagarzinho, constrói sua vitória.

São Paulo: a hora da reformulação

Pouco consigo dizer do jogo de ontem. O São Paulo fez tudo o que podia, venceu, mas por conta do gol marcado pelo Inter no Morumbi, acabamos perdendo a vaga. Quer dizer, na verdade, perdemos a vaga no jogo ridículo de semana passada, quando o São Paulo entrou, como eu disse em post anterior, (leia  aqui) com uma postura de time de segunda divisão.

O que acho mais importante destacar, agora, é que a desclassificação de hoje marca o fim de uma era. Entre 2003 e 2010 disputamos 7 Libertadores seguidas (recorde), ganhamos 1, chegamos a 1 final e 2 semi. Além disso, ganhamos o Mundial de Clubes em 2005, além de 3 Brasileiros. Mas não creio em uma nova Libertadores em 2011. Acho pouquíssimo provável que o SPFC se recupere nesse Brasileiro a ponto de conseguir uma vaga para a competição continental do próximo ano. Por isso, é hora de se planejar, de fato, sem pressa, para que, nos anos subsequentes, repitamos o sucesso da primeira década do século XXI.

Isso significa que, agora, mais do que nunca, o São Paulo precisa de uma reformulaçao urgente. Além de Hernanes, que vai para a Lazio; e Marcelinho Paraíba, que sequer chegou ao São Paulo e deve ir pro Sport; a lista de dispensa não pode deixar de contar com nomes como Richarlyson, Miranda, Carlinhos Paraíba, Renato Silva, Cléber Santana, Marlos e Dagoberto. Para seus lugares, o mínimo que se pede, é um bom lateral-direito e um bom meia armador, além de jogadores de boa qualidade que possam oxigenar o ambiente, e que compreendam o que significa jogar no clube mais vencedor do país.

Sobre Ricardo Gomes (que ontem foi bem), acho que já disse tudo o que penso sobre seu trabalho profissional há algumas semanas (link aqui).  Como era de se esperar, não teve seu contrato renovado pelo clube. Agora, espero que Juvenal Juvêncio, que sai o ano que vem da presidência, termine sua gestão um técnico à altura da grandeza do São Paulo (claro, isso significa que não dá para ser o Dunga nosso próximo técnico). Por enquanto, não há muito mais a dizer. É esperar o desenrolar dos fatos.



quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A hora de Serra mostrar a cara

Nesta quinta, 05/08, às 22 horas, na Band, teremos o primeiro debate entre os candidatos à presidência. Estou curioso para ver como o Serra se comportará. Não tenho dúvidas que o candidato tucano acreditou, lá atrás, que chegaria a esse debate com vantagem sobre a candidata do PT. Não esperava que, antes mesmo de a campanha na TV começar (e, consequentemente, de a figura de Dilma associar-se ainda mais à de Lula), já tivesse que partir para o ataque, buscando reverter um quadro que, a continuar como está, pode dar vitória à candidata governista ainda no primeiro turno.

Conforme eu disse em posts anteriores (links aqui e aqui), o desespero nos bastidores da campanha já começou. E, todos os dias, brotam notícias de antigos aliados que estão omitindo que apóiam Serra para presidente. Querem salvar seus votos do naufrágio da candidatura serrista. O último foi o líder da oposição no Senado, Arthur Virgílio, que tenta desvincular sua imagem da do candidato à presidência pelo seu partido. Isso para não falar de seu língua-de-aluguel, o "conspirador da elite" Diogo Mainardi, que, condenado na Justiça por conta da verborragia destilada contra o jornalista Paulo Henrique Amorim (e, segundo o próprio Mainardi, tendo "medo de ser preso"), resolveu fugir do país.

De qualquer forma, o fato é que, até agora, Serra tentou blindar-se de todas as maneiras: antes, falava que não era candidato, quando todos sabiam que era. Buscava se resguardar. Uma vez iniciada a campanha, não faz comícios, corpo a corpo, e deixou para seu vice (ou mesmo para FHC) fazer o “jogo sujo” das críticas a Dilma, a Lula e ao PT.  Só aparece em entrevistas nas quais já sabe de antemão as perguntas, e nas quais sabe que não terá réplica do entrevistador. Enquanto isso, a candidata petista viaja o Brasil expondo suas ideias e propostas, dando ao eleitor a chance de conhecê-la, e conhecer seu projeto para o país. Mas, nesta quinta, será a vez de Serra – finalmente – mostrar sua cara. Que, como vocês já podem imaginar, não deverá ser das melhores.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O que a filosofia tem a nos dizer sobre a morte?

“E de repente ficou claro para ele que aquilo que o estava oprimindo, e que parecera não querer deixá-lo, agora esvanecia-se por todos os lados. Sentiu-se cheio de pena por eles, deveria fazer alguma coisa para tornar-lhes isso tudo menos doloroso, libertá-los e libertar-se desse sofrimento. ‘Tão certo e tão simples’, pensou. ‘E a dor? O que foi feito da dor? Onde está você, dor?’.
Pôs-se a esperar por ela. Ficou esperando.
‘Sim, aqui está. Bem...e daí?. Deixe que ela venha. E a morte, onde está?’
Procurou seu antigo medo da morte e não o encontrou. ‘Onde está? Que morte?’ Não havia medo porque também não havia morte.
Em seu lugar havia luz.
‘Bem, então é isso!’, exclamou em voz alta. ‘Que bom!’ (...).
- Acabou! – disse alguém perto dele, o que ele repetiu dentro de sua alma.
‘A morte está acabada’, disse para si mesmo. ‘Não existe mais’”.

(Leon Tolstoi, A morte de Ivan Ilitch)



Tratar da morte é sempre um assunto muito delicado. Em geral, as pessoas buscam fugir desse tema, como se fosse algo que nada tem a ver com elas. Quer dizer, em geral, evita-se a discussão sobre sua própria morte. Basta ligar a TV para vermos que a morte alheia é um assunto que desperta grande interesse do público, especialmente quando ela ocorre de maneira, digamos, pouco usual. Mas, voltando ao nosso ponto, é fácil, por exemplo, encontrarmos pessoas mais supersticiosas, para quem falar de sua morte pode “atraí-la” ou, ao menos trazer “maus fluidos”. É preciso, porém, pensar por outro prisma. O que a filosofia pode dizer sobre a morte? Antes de tudo, que ela é, basicamente, um acontecimento simbólico, dotado de significação e sentido – cada sociedade, cada época a tratam de um determinado modo. Além disso, se pensarmos em termos individuais, a morte é apenas a descoberta de nossa incontornável finitude, de nossa temporalidade e de nossa identidade, o momento em que nossa realidade humana deixa de ser-no-mundo, isto é, deixa de existir.

O filósofo estóico Sêneca dizia que compreender a morte é essencial para “bem viver”. Em seu tratado Sobre a brevidade da vida, ele afirma que, justamente porque não entendem o fato da morte, os homens não sabem usufruir de sua vida. Reclamam da falta de tempo, da brevidade da existência, mas não se dão conta de que isso ocorre porque desperdiçam a maior parte dela. Diz ele que “a vida, se bem empregada, é suficientemente longa (...) não temos uma vida breve, mas fazemos com que seja assim”. De acordo com o ideal de vida estóico, a vida bem vivida é, resumidamente, aquela livre do jugo das paixões, das agitações das ocupações diárias, uma vida contemplativa, de elevada harmonia com a Natureza (em uma passagem, por exemplo, diz Sêneca: “quando vires, com freqüência, uma toga pretexta ou um nome célebre, no foro, não tenhas inveja, já que essas coisas se obtêm a custo da própria vida”). Segundo o filósofo, ocorre que os homens, no fundo, acreditam serem imortais, e perdem sua vida se ocupando de coisas sem real importância, crendo que, num futuro que nunca chega, encontrarão a paz, o descanso e a felicidade. Daí afirmarem que a vida é breve. Para se “viver bem”, é preciso, justamente, dirimir essa ilusão – papel que, para Sêneca, cabia à Filosofia.

Michel de Montaigne, filósofo cético do século XVII, e nesse ponto bastante próximo a Sêneca, atestava: “Qualquer que seja a duração de nossa vida, ela é completa. Sua utilidade não reside na quantidade de duração e sim no emprego que lhe dais. Há quem viveu muito e não viveu. Meditai sobre isso enquanto o podeis fazer, pois depende de vós, e não do número de anos, terdes vivido bastante”. E prosseguia: “Meditar sobre a morte é meditar sobre a liberdade; quem aprendeu a morrer, desaprendeu de servir; nenhum mal atingirá quem na existência compreendeu que a privação da vida não é um mal; saber morrer nos exime de toda sujeição e coação”.

No que diz respeito à filosofia contemporânea, sobretudo aquelas ocupadas com temas existenciais, as questões da finitude humana, e consequentemente, da morte, ganharão grande destaque. Para Heidegger, por exemplo, porquanto somos seres sempre lançados para o futuro, é inevitável que nos ocupemos de nossa própria morte. Para esse filósofo, “a morte é a possibilidade mais própria, irremissível, certa e, como tal, indeterminada e insuperável” de nossa realidade humana. Morrer é um ato solitário (é nossa possibilidade mais própria). Quem morre vai só, ninguém pode morrer por outrem (ela é irremissível). Aos que ficam, resta apenas a dor da perda e a saudade. É verdade, observa Heidegger, que no cotidiano, buscamos mascarar essa situação, buscamos fugir da angústia implicada em nossa realidade de seres-para-a-morte, e agimos como se ela não nos dissesse respeito. Em geral, dizemos, ou pensamos: “um dia vou morrer, mas não será agora”. Na perspectiva heideggeriana, é preciso recuperar a verdadeira dimensão da morte, assumi-la como minha possibilidade mais própria, viver essa verdade, autenticamente, sem medo (porque, embora indeterminada, ela é certa e insuperável). Apenas assim, poderemos usufruir de nossa liberdade, dar a nossa existência um sentido mais próprio, uma significação que ela, a princípio, não tem. Numa palavra, sem medo da própria morte, tornamo-nos senhores de nossa vida, e, por conseguinte, ampliamos o exercício de nossa liberdade.

O escritor André Malraux, dizia que “o trágico da morte, é que ela transforma a vida em destino”. Enquanto não morrermos, porém, teremos um futuro sempre aberto. Somos seres temporais, lançados no mundo, e mudamos a todo instante. Nossa morte sela nosso destino para sempre. Mas ela é uma contingência (ou, como disse Heidegger, indeterminada). Há nisso um caráter de absurdo, talvez, como afirma Sartre, justamente por não sabermos quando ela chegará. De qualquer forma, até que esse acontecimento nos atinja, é preciso viver (isto é, criar) nossa vida livre e intensamente, sem nos preocuparmos com o tamanho de sua duração. E, dentre outras coisas, isso implica em deixarmos de tratar a nossa morte como algo alheio, distante, ruim, e a encararmos sem receio, como um acontecimento estritamente nosso – o mais particular e mais próprio de todos, o último ato de nosso ser-no-mundo, de nossa existência.

Bem, antes que isso descambe para algum tipo de auto-ajuda, termino esse texto retomando estas belas e profundas palavras de Montaigne: “é preciso aprender a morrer para saber viver”.

*Quem quiser se aprofundar no tema, sugiro, antes de tudo, ler a maravilhosa novela A morte de Ivan Ilitch, de Leon Tolstoi, que abre este texto. Poucos trataram o tema da morte (e, consequentemente, da vida) tão bem quanto o escritor russo.

Em termos de filosofia, há, por exemplo:

HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo, ed. Vozes (sobretudo § 46-53);
MONTAIGNE, Michel de. Ensaios, Martins Editora.
SÊNECA. Sobre a brevidade da vida, ed. L&PM.