segunda-feira, 18 de agosto de 2014

A campanha eleitoral na TV e o fator Marina

Nesta terça-feira tem início a campanha eleitoral no rádio e na televisão. Com ela, logo virão, também, os primeiros debates. É o momento em que grande parte da população volta seus olhos para o pleito, busca conhecer os candidatos e decide seu volto. Se isso, por si só, já torna este o grande momento da corrida eleitoral, neste ano, a campanha em nível federal, ao menos no início, terá um componente diferente e inesperado. Afinal, a trágica morte do candidato pelo PSB, Eduardo Campos, na última quarta-feira, certamente mudará o cenário da disputa presidencial - como já indicado na pesquisa Datafolha publicada nesta segunda (veja aqui).

Ainda que essa pesquisa esteja forte e propositalmente contaminada pelo impacto do acidente de Campos,  e que Marina sofra uma queda nas intenções de voto nas próximas semanas, entendo que ela ao menos reflete certa tendência: uma disputa ferrenha pela passagem ao segundo turno entre Aécio Neves e Marina Silva. Este quadro, que me parece estava quase que descartado com a presença de Campos, a meu ver, se dá por dois fatores. Em primeiro lugar, porque sua sucessora na cabeça de chapa, Marina Silva, é uma candidata mais forte eleitoralmente. Isso não só porque ela tem o recall dos votos recebidos em 2010, que a deixaram em terceiro lugar naquela eleição para presidente, mas também por sua messiânica auto-proclamação de "encarnação do espírito das ruas” que surgiu em junho de 2013, ideia que muitos compraram (Campos, por exemplo, não conseguiu, em nenhum momento, se apresentar como interlocutor dessa parcela da sociedade). Não à toa, até meados do primeiro semestre, quando seu nome ainda era testado nas pesquisas, Marina aparecia com uma margem de votos bastante superior àquela conseguida, até a última semana, por Eduardo Campos, fato confirmado na referida pesquisa desta segunda-feira. Inegavelmente, muitos desses eleitores de Marina eram/são aqueles que se identificam com a abstração política que as manifestações do ano passado acabaram representando (o “contra tudo e contra todos”, que nada mais é do que a negação da própria política), o que sem dúvida alavanca sua candidatura. Basta ver a diminuição no patamar de votos brancos e nulos entre as pesquisas anteriores e esta para notar. Em segundo lugar, como ficou claro desde o anúncio do falecimento de Campos, e se reafirmou em seu velório, a tragédia com o ex-governador de Pernambuco deverá ser explorada para fins políticos pela coligação que ele encampava, e que Marina dará continuidade, o que também deverá gerar, ao menos num primeiro momento, algum dividendo eleitoral.

Na verdade, já antes do acidente fatal de Campos, eu entendia ser muito difícil que Dilma pudesse ser vitoriosa ainda no primeiro turno, como as pesquisas têm apontado. Isso porque imaginava que, na reta final da campanha, caso as candidaturas de oposição realmente não decolassem, alguma denúncia furada haveria de aparecer para desgastar a imagem da candidata petista e lhe tirar os votos para uma vitória na primeira rodada. Com o fator Marina, ainda mais do jeito como surgiu, a perspectiva de segundo turno torna-se quase uma certeza. Mas, embora seja eleitor de Dilma, não creio que essa possibilidade seja intrinsecamente ruim. Entendo que Dilma possui capital político, realizações e um programa político concreto para vencer qualquer candidato. Não à toa, mesmo com o bombardeamento constante em cima de seu governo, as pesquisas têm lhe dão ampla vantagem sobre os adversários. Caso vá ao segundo turno contra Aécio, teremos uma reedição do embate das últimas eleições. Neste caso, a disparidade entre o projeto petista e o tucano dá todas as vantagens para a atual presidenta. Caso sua adversária seja Marina – cujo programa, para mim, ainda é uma incógnita –, apenas espero (talvez ingenuamente) que haja uma disputa de ideias e propostas progressistas, à altura da história e das tradições de PT e PSB (ou seja, que possamos ter um segundo turno mais à esquerda, sem medo do retrocesso motivado pelo fantasma do tucanato) e não uma disputa entre a política e a não-política. Isso, sim, seria terrível para o país.

No fundo, muito dos rumos dessas eleições vai depender da forma como Marina conduzirá sua campanha. Se se enveredará pela via messiânica da negação da “política tradicional” (que, insisto, da forma como está posta, é a negação da própria política) ou se formatará um programa sólido – e qual será o viés do mesmo. Mas, ainda é precipitado para avançar em análises mais profundas. Nestes primeiros dias, naturalmente, o impacto da morte de Campos ainda deixará o cenário nebuloso. Até o final do mês, no entanto, creio que já haverá condições de apontar um caminho mais seguro sobre o desenrolar dessa disputa.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Fim de um ciclo

Esta terça-feira, 12/08, marcou o fim de um ciclo em minha vida. Terminei meu doutorado em Filosofia na Universidade Federal de São Carlos, defendendo a tese “Alteridade e alienação: os impasses da intersubjetividade na filosofia de Sartre”. Tudo ocorreu bem, e fiquei muito feliz com o resultado final. Essa tese é o coroamento de um trabalho de longos anos (desde minha graduação, para ser mais preciso) e é extremamente prazeroso ver todo esse esforço  finalmente reconhecido e recompensado!

Deixo, agora, de ser estudante, depois de tanto tempo, e passo a me dedicar exclusivamente à docência. Por ora, como professor substituto do Departamento de Educação, Ciências Sociais e Políticas Públicas da Unesp, campus Franca.

A tod@s que me acompanharam ao longo dessa caminhada, especialmente aos meus pais e minha esposa, Angelica, meu muito obrigado! E a vida segue, rumo a novos desafios!

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Maquiavel e a política como disputa de forças pelo exercício do poder

Tendo em vista que começamos a campanha eleitoral de 2014, me pareceu oportuno escrever algumas linhas sobre o pai da política moderna: Nicolau Maquiavel.

Maquiavel é, possivelmente, um dos pensadores mais polêmicos (senão o mais) da filosofia política. E isso se explica, fundamentalmente, porque é com o filósofo florentino que tem início o deslocamento – que caracteriza a modernidade – entre a questão política e a reflexão ética, fazendo daquela um domínio praticamente autônomo em relação a esta última.

Mais do que o governante virtuoso ou o bom cidadão – questões concernentes ao âmbito privado e, mais ainda, assumidas como praticamente inalcançáveis nos termos antigos, tendo em vista o caráter finito e falho de nossa condição humana – o que interessa ao pensamento moderno é compreender o surgimento e as formas de exercício do próprio poder. Ou seja, como ele se mantém, e como devem ser organizadas as instituições nas quais aquele poder é exercido, sobretudo para que ele não se degenere em despotismo e tirania. Nesse sentido, a questão que o pensamento político moderno levanta é a seguinte: sem o recurso a Deus (difundido na teoria do direito divino dos reis, hegemônica na Idade Medida) ou ao conceito de “animal político” oriundo do aristotelismo, como se justifica a existência de um poder (Imperium) autônomo, criado pela própria sociedade para agir sobre ela? Como ele se realiza?

É sobre o pano de fundo deste questionamento que Maquiavel começa a operar aquele deslocamento entre ética e política, redefinindo este campo. Com efeito, dois elementos primordiais inscrevem Maquiavel na modernidade: 1) recusa à dimensão metafísica da reflexão política, abandonado em nome do realismo da “verdade efetiva” das coisas (o que o conduz à análise científica da história dos regimes políticos, especialmente de Roma, sem pressupostos teológicos ou metafísicos); e 2) confiança na ação humana como meio de transformação da vida social, ou seja, a compreensão da política como domínio da liberdade sobre o destino (fortuna).

Assim, uma das consequências mais importantes da posição maquiaveliana é compreender que a política não visa um fim de cunho moral, mas que ela se explica por uma lógica imanente a si mesma. Nas mãos do filósofo florentino, a política torna-se, portanto, uma ciência. Nesse sentido, convém observar, a primeira definição de Maquiavel acerca deste conceito é a de que a política é um exercício do poder. Logo, que sua coerência e sua eventual “moralidade” se encerram na própria tarefa de conservar o poder, garantindo a estabilidade do corpo político e, portanto, da vida social, sem a qual não é possível viver em paz e progredir (vale lembrar que a Florença de Maquiavel sofreu com numerosas crises políticas, trocas de governo etc., o que levaram à cidade à ruína).

No entanto – e essa é uma das principais novidades trazidas pela reflexão maquiaveliana – o exercício da atividade política (ou seja, do poder) se assenta na divisão social que atravessa a vida pública. Como explica, por exemplo, no capítulo IX de O príncipe: “Em todas as cidades acham-se essas duas tendências diferentes e isso vem do fato de que o povo não quer ser governado nem oprimido pelos poderosos, e estes desejam governar e oprimir o povo”. Cumpre observar que os desejos que dividem a cidade não são simetricamente opostos, mas de ordens diferentes. Não se trata da luta entre duas classes que desejam dominar uma à outra: os poderosos, sim, desejam governar e oprimir. Mas, o povo, apenas deseja não ser governado ou oprimido.

Sendo assim, é preciso complementar aquela primeira definição acerca da política: ela não é apenas exercício do poder, mas é, fundamentalmente, uma disputa de forças pelo exercício do poder. Ora, o pensamento antigo pautava a busca pelo regime ideal tendo em vista o reforço à coesão e à harmonia na vida pública. Em Maquiavel, passa-se quase o oposto. Pois, o filósofo não enxerga nessa disputa, nascida da oposição entre os desejos que permeiam a sociedade, um fator indesejável a priori, mas um caminho fecundo para a prosperidade social. Tudo depende, no seu entender, da resposta política oferecida pela sociedade para canalizar aquele conflito. O caso de Roma, neste aspecto, é exemplar.

Nos Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio, Maquiavel lembra que, em Roma, a agitação popular obrigou os poderosos a reconhecer a plebe como sujeito político, ou seja, como iguais. Assim foram criados os tribunos da plebe, câmaras compostas exclusivamente de representantes populares que atuavam junto ao Senado em defesa dos interesses plebeus. Essa saída institucional, diz o pensador, ao incluir no exercício do poder um setor outrora excluído da atividade política, promoveu um aumento da liberdade pública (da virtú popular), que patrocinou a construção da grandeza romana. Com efeito, no entendimento de Maquiavel, “as cidades crescem em poder e em riqueza enquanto são livres”, ou seja, quando seus membros têm garantia de que podem produzir e acumular bens, casarem-se e ter filhos, pois estão seguros de que poderão desfrutar de sua riqueza no futuro, tanto eles quanto sua prole. Esta segurança decorre diretamente da participação ou não no poder. Pois, na medida em que cada membro da República tem acesso ao poder – o mesmo poder dos demais, diga-se –, ele sabe que terá condições reais de evitar, por exemplo, o surgimento qualquer casuísmo que atente contra seus interesses (como uma mudança repentina nas leis, promovida por um grupo qualquer, que tome arbitrariamente seus bens ou seu patrimônio).

Nesse sentido, acrescenta ainda Maquiavel, “não é o interesse particular que faz a grandeza dos Estados, mas o interesse coletivo”. E o interesse coletivo se identifica, numa República democrática (a forma de regime mais estável, logo, mais desejável), primeiramente à liberdade e à sua preservação. Pois apenas num cenário de ampla liberdade pode-se ter segurança de que as leis serão respeitadas e que nenhum interesse particular prevalecerá sobre a res publica (coisa pública). E tendo em vista os desejos que caracterizam cada grupo social, não é difícil compreender porque o filósofo florentino reputa ao povo a defesa da liberdade. Segundo Maquiavel, há no povo “uma vontade mais firme de viver em liberdade”, porquanto a liberdade (ou seja, a participação no poder, a manutenção de seu caráter público) é precisamente a condição necessária para que ele possa se contrapor ao desejo da elite e não ser oprimido. Afinal, quando o povo é excluído do poder, ou seja, perde sua liberdade, o desejo que prevalece é a opressão por parte dos poderosos. Assim, se a política é uma disputa de forças pelo exercício do poder, é na República democrática que a atividade política encontra as condições de florescer, pois é nela em que há maior grau de liberdade para o maior número de cidadãos.

Enfim, no que diz respeito à definição do campo político, o que resta de mais importante do pensamento de Maquiavel é a tese de que, sendo uma obra exclusivamente humana, a ação política prescinde de justificativas transcendentes à sua lógica própria ou estranhas à sua dinâmica interna. Como consequência, a boa reflexão política é aquela que se atém à “verdade efetiva” das coisas, à “análise concreta de uma situação concreta”, como diria Lênin, séculos mais tarde. É este princípio que proporciona um diagnóstico exato da correlação das forças que disputam os rumos da vida social numa dada sociedade e num dado momento, permitindo ao governante a tomada de decisão mais eficaz para a conservação do poder, ou aos grupos em disputa, encontrar o melhor caminho para verem seus anseios contemplados. Por isso, ensina Maquiavel, não há espaços, na política, para generalizações precipitadas, tampouco para mistificações idealistas da realidade. Eis, finalmente, o sentido das recomendações ao detentor do poder expressas em sua obra mais famosa, O príncipe recomendações que tanto horror causaram à sua época, mas que hoje se mostram em plena consonância com a  essência da política real.

Referências bibliográficas

MAQUIAVEL, Nicolau. Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio – “Discorsi”. 3ª edição revista. Trad. Sérgio Bath. Brasília: UnB, 1994.
____________________. O príncipe. In: Col. Os Pensadores. Trad. Olívia Bauduh. São Paulo: Ed. Nova Cultural, 1999.


segunda-feira, 21 de julho de 2014

É disso que o futebol brasileiro precisa?

Quem esperava alguma sinalização de mudança após o fiasco da seleção brasileira na Copa do Mundo, certamente se decepcionou com os últimos acontecimentos no reino da CBF. Sabidamente, uma mudança radical exigiria, como primeiro ato, a saída da cúpula que comanda nosso futebol – algo que todo mundo sabe que não acontecerá num futuro breve. No entanto, alguns passos mínimos, ainda que restritos ao âmbito da seleção brasileira (única coisa que interessa a Marins e Del Neros da vida), poderiam dar fôlego àquela esperança. Mas, o que vimos, em minha opinião, foi seu sufocamento.

Primeiramente, com a escolha de Gilmar Rinaldi como coordenador geral de seleções. Retomando a pergunta que motiva o post: é de um coordenador como Gilmar que nosso futebol precisa? A resposta, a meu ver, é negativa. E explico o porquê.

Empresário de atletas até a véspera de sua indicação, e tendo como única experiência uma passagem rápida e não muito feliz pelo Flamengo no distante 1999, o ex-goleiro do rubro-negro carioca e do São Paulo não me parece um nome adequado para a função, justamente pelo evidente conflito de interesses entre sua carreira pregressa e sua nova função. Não se pode esquecer que seu grande feito na passagem pelo Flamengo foi ter “descoberto” dois jogadores dos quais viria a ser empresário tão logo saísse da Gávea: o atacante Adriano e o zagueiro Juan.

Não quero dizer que isso vá acontecer novamente; tampouco estou insinuando que Gilmar seja pessoa de caráter duvidoso. Longe disso. Mas, como diz o ditado, não basta ser honesto, é preciso parecer. E é claro que qualquer atitude que minimamente sugira um favorecimento futuro do ex-empresário ou de atletas a ele ligado, será vista com enorme desconfiança por parte dos torcedores e da imprensa. E num momento de extrema falta de credibilidade do futebol brasileiro, o que menos precisamos é que esse tipo de suspeita fique pairando no ar...

Para se somar a Gilmar, a CBF anuncia amanhã o retorno de Dunga como novo técnico da seleção. Referindo-me mais uma vez à pergunta título desta postagem: é Dunga o técnico para este momento delicado do futebol brasileiro? Antes de uma resposta, é preciso refletir.

Por um lado, é verdade que a seleção de Dunga foi possivelmente a melhor que vimos depois de 2002. A mais sólida e a mais competitiva. Apesar de erros crassos em suas convocações (de Afonso Alves à ausência de Neymar na Copa de 2010, dentre outros), Dunga montou um time que poderia ter saído vitorioso na África do Sul – o único título entre os “profissionais” que não conquistou no comando da seleção – não fosse o péssimo segundo tempo do jogo contra a Holanda. Para os mais pragmáticos, portanto, a escolha seria legítima.

No entanto, é preciso examinar algumas coisas. Em primeiro lugar, que as dificuldades daquele fatídico jogo contra os holandeses, em 2010, foram, em grande parte, frutos diretos de erros do próprio Dunga. Afinal, foi ele quem levou para aquele mundial, por sua própria vontade, por estar “preso” a alguns jogadores, um banco de reservas visivelmente abaixo da média – portanto, potencialmente inoperante em caso de alguma dificuldade, como se comprovou naquela quarta-de-final. Some-se a isso o fato de que  o único trabalho de Dunga nos últimos quatro anos, no Internacional em 2013, tenha sido um retumbante fracasso. Deste ponto de vista, mesmo a visão pragmática que justificaria a escolha do capitão do tetra pode ser contestada.

Além disso, há aqueles que defendem a escolha de Dunga pela isonomia com que tratou os meios de comunicação durante sua passagem como técnico da seleção. Trocando em miúdos: não concedeu privilégios à Rede Globo. Naturalmente, essa postura me agradou. Mas, por si só, essa posição – cujo caráter extraordinário, aliás, demonstra que o buraco do nosso futebol é mais embaixo – não basta. A meu ver, é preciso mais para conduzir a seleção brasileira.

Nesse sentido – e é este o ponto que mais me incomoda – me parece claro que o problema da seleção, e em grande parte, do futebol jogado em nosso país, é principalmente de ordem conceitual. Precisamos, há tempos, desenvolver um novo conceito de futebol, que absorva o que temos (ou tivemos) historicamente de melhor – o talento individual, a capacidade de drible e improvisação – com as exigências táticas do futebol contemporâneo. Uma nova cultura de jogo e de compreensão do esporte. Para isso, é preciso treinamento, estudo, aperfeiçoamento, trabalho duro. Até porque, há de se reconhecer que nossa safra não é das melhores (uma das expressões mais bem acabadas, diga-se, dos problemas estruturais de nosso futebol, os quais não temos condições de examinar aqui, mas que são bem conhecidos por todos – um deles, aliás, foi mencionado en passant no parágrafo anterior).

Ora, me parece que, ao resgatar Dunga, a CBF se encaminha em sentido oposto: fecha os olhos para a necessidade de uma revisão conceitual de nosso futebol – algo que Dunga demonstrou não ter condições de fazer - em nome de uma estratégia imediatista, semelhante àquela adotada por Felipão no último período: apostar no poder da camisa amarela, na mística da seleção brasileira, no “nós contra eles”, no futebol como guerra. Troca-se o trabalho por um atalho. Pode dar certo? Em termos de resultado, sim. É futebol, é um jogo, e a seu modo, o futuro time de Dunga pode se encaixar, ganhar confiança e conquistar seus objetivos. Mas, outra vez, é preciso voltar à questão central: é isso o que precisamos, pensando no papel que a seleção brasileira poderia ou deveria desempenhar na formatação geral de nosso futebol? Neste caso, não vejo como responder, senão negativamente.

De tudo isso, a conclusão que se impõe é clara – e infeliz: estamos, mais uma vez, desperdiçando uma oportunidade de ouro de recuperar o prestígio e o brilho de um dos maiores patrimônios culturais do povo brasileiro.


sexta-feira, 18 de julho de 2014

Notas sobre política internacional

Líderes dos Brics e da Unasul, na reunião de Fortaleza
Semana agitada no cenário político internacional. Ao mesmo tempo em que os ventos da mudança sopram desde o sul, velhos conflitos se aprofundam. 

Brics – comecemos pelo lado positivo. A reunião dos Brics (agrupamento de países que reúne o Brasil, a Rússia, a China, a Índia e a África do Sul) ocorrida nesta semana, em Fortaleza, trouxe a esperança de que uma nova ordem mundial está nascendo. Afinal, o principal fruto dessa reunião foi a criação de um Banco de Desenvolvimento, que servirá de contraponto às instituições financeiras já existentes, como o Banco Mundial e o FMI - hegemonicamente controladas pelos Estados Unidos e pelos países da Europa central. Um dos aspectos mais importantes do novo banco é que todos os países fundadores (os membros dos Brics) têm o mesmo poder, uma vez que o número de ações é o mesmo para cada membro (cada país entrou com uma cota de US$ 10 bilhões).

Cabe ressaltar que a proposta do Banco dos Brics é, sobretudo, financiar obras de infraestrutura em países emergentes – ou seja, não apenas os membros do grupo. Isso significa uma possibilidade de financiamento para países em desenvolvimento, que não recebem crédito suficiente das principais instituições financeiras internacionais. Nesse sentido, também nesta semana, um primeiro passo foi dado: no dia seguinte à criação do novo organismo financeiro internacional ocorreu, em Brasília, um inédito encontro entre a Unasul (União de Nações Sul-Americanas) e os presidentes do Brics. A reunião teve como finalidade apresentar os benefícios e possibilidades que o recém-fundado Banco de Desenvolvimento tem a oferecer aos países da América do Sul.

Ou seja, a política de integração dos países emergentes ganha um novo pilar de sustentação. Trata-se, sem dúvidas, do início de uma nova configuração na ordem política mundial: multipolar, pacífica, democrática e inclusiva. Uma ordem na qual os países emergentes, do “sul”, reafirmam sua busca por autonomia em face da hegemonia econômica e política dos EUA e da Europa.

Genocídio em Gaza – ao mesmo tempo em que a esperança de uma nova geopolítica mundial ganha força, é terrível o que tem ocorrido  novamente na Faixa de Gaza. Um verdadeiro genocídio por parte do Estado de Israel contra a população palestina - a grande maioria civil, que sequer tem condições de se defender. Um massacre, um crime contra a humanidade! Agora, para piorar, Israel deu início a uma ofensiva por terra, e o número de vítimas tende a aumentar ainda mais. Um desastre humanitário absoluto!

Diante disso - e do sentimento de impotência que nos acomete as imagens chocantes da covardia israelense - este blog se soma às milhões de vozes espalhadas pelo mundo que exigem o imediato cessar fogo israelense, e conclamam por um Estado palestino livre! Apenas assim, com o território da Palestina legitimado, o infindável conflito naquela região poderá ter fim, e teremos paz.

Queda do avião da Malaysia Airlines – para terminar, o ainda obscuro caso do abatimento do avião da Malaysia Airlines. Ao que tudo indica, o ocorrido trará grandes consequências diplomáticas, especialmente para a relação entre Rússia, Ucrânia e EUA. Contudo, é preciso aguardar o desenrolar dos fatos. Há ainda muito disse-me-disse. Suspeita-se, por exemplo, que o alvo não seria o avião malaio, lotado de civis, mas o jato em que viajava o presidente russo, Vladimir Putin. Teria havido, portanto, um "engano" - que, no entanto, custou quase 300 vidas!

O fato é que, seja quem for o culpado por essa barbárie, merece punição. Apenas espero, porém, que, para isso, outros tantos crimes não sejam cometidos.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

4 anos de blog!

Nesta semana, o blog completa quatro anos ininterruptos de existência! Antes de tudo, gostaria de agradecer enormemente a todos os leitores e leitoras, conhecidos ou desconhecidos, que passaram ou continuam passando por aqui neste período, que deixaram seus comentários, seus elogios e críticas (muito mais elogios do que críticas, digo sem falsa modéstia), que “curtiram” as postagens no Face, que compartilharam. É realmente gratificante este retorno!

Quando comecei este espaço, queria construir um lugar onde pudesse escrever sobre os mais variados assuntos de meu interesse, de um ponto de vista bastante particular, e sem maiores preocupações de ordem técnica ou acadêmica. Lá em 2010, o blog foi bastante alimentado, no início, pela acirrada disputa eleitoral daquele ano, que consagraria a vitória da presidenta Dilma Rousseff. Neste ano, novamente, passada a Copa, é hora de voltarmos nossa atenção para as eleições. Claro que, no próximo período, postagens sobre outros assuntos já recorrentes por aqui, da filosofia ao futebol, passando pela música, cinema, poesia ou questões do cotidiano, se farão presentes. Mas, inegavelmente, a tendência é uma concentração maior naquele que, sem dúvida, é o assunto mais importante para nós, brasileiros, neste ano de 2014.

E embora já saiba que, por conta de motivos profissionais, o tempo disponível será exíguo nos próximos meses, farei o possível, como sempre, para atualizar o blog com frequência. Assim, convido a todos os amigos e amigas a seguirem prestigiando o Filosofia e coisas da vida. E, aos que o fizeram até aqui, novamente, meu muito obrigado!

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Parabéns, Alemanha!

Numa final emocionante, a Alemanha se sagrou tetracampeã do mundo de futebol. Confesso que torci para a Argentina nesta decisão, e entendo que os sul-americanos tiveram as melhores chances para definir a partida. Não o fizeram, e o jovem Mario Götze foi implacável no segundo tempo da prorrogação. Título justo pelo conjunto da obra alemã. A taça da Copa das Copas (aquela que diriam que não aconteceria, lembram?) está em boas mãos!