terça-feira, 28 de junho de 2016

Sobre nostalgia - ou os anos 1980

Sou da tese de que uma pessoa que se agarra demasiadamente ao passado, é porque não está satisfeita com seu presente ou, pior ainda, porque não vê boas expectativas com o futuro. De um ponto de vista crítico, filosófico, quando a nostalgia toma conta, há de sempre se perguntar se esse sentimento não tem como fermento oculto aquela desilusão ou se, pelo contrário, se trata de um (necessário) refresco para o espírito em nossa labuta diária.

Faço essa ressalva, porque a nostalgia pode surgir em momentos específicos – o que me parece ser algo completamente normal e mesmo saudável – e não ser um estado de espírito, sendo, assim, prejudicial. Eu, por exemplo, sou uma pessoa permeada, desde muito cedo, por arroubos nostálgicos. E admito que tenho, por vezes, de me equilibrar entre ser dominado por um mergulho afetivo que arrisca um desprendimento do presente – a sensação de deslocamento, de ter nascido na época errada –, e aquela boa nostalgia, que ajuda restaurar a mente e ajuda a iluminar a trajetória da existência de cada um. Ainda no meu caso, a combinação entre estrada, direção, música e a mente um pouco vazia, é catalisadora daquela nostalgia latente. Foi num desses momentos, aliás, que a ideia desse arremedo de crônica começou a surgir.

Em boa parte das vezes, meu sentimento de nostalgia se volta para a tenra infância, o que significa, para alguém nascido em 1985, o fim dos anos 1980 e início dos anos 1990. Não por acaso, portanto, aquela que, para muitos, é a “década perdida”, para mim assume um colorido todo especial – e único. E é também um pouco sobre ela que desejo falar.

Para os efeitos desse texto, me permito violar o calendário, e considerar que a década de 1980 se estende, aproximadamente, até o ano de 1992, 1993. Permito-me essa alteração, porque entendo que é nesse momento que seus ecos econômicos, políticos, culturais, estéticos etc. definitivamente se encerram, dando voz a um novo período que, de algum modo, se estende até hoje.

Não pretendo aqui fazer um balanço daquela década, mas, para não perder o veio filosófico, convém fazer uma brevíssima contextualização, inclusive para compreender a contradição entre aquilo que, em termos emprestados de Hegel, pode-se chamar de “espírito objetivo” de uma época e o “espírito subjetivo”, isto é, a vivência individual daquele momento (que, imagino, se assemelhará a de muitos leitores desse texto que viveram aquele período).

Do ponto de vista mundial, os anos de 1980 são considerados a “década perdida”, sobretudo por conta dos reveses econômicos globais. Mais importante, no entanto, é o fato de que, nesse decênio, uma nova visão de mundo começa a se consolidar, estabelecendo-se em definitivo a partir de 1992, 1993, como disse anteriormente, o que coincide com o fim da Guerra Fria, isto é, com o colapso da União Soviética e o triunfo definitivo do capitalismo, do liberalismo e do american way of life. Na economia, essa nova visão recebe o nome de “neoliberalismo”. Em termos culturais, fala-se de “pós-modernismo”. Na política, prefere-se “nova ordem” ou “globalização”. Não importa propriamente a denominação, já que se trata de facetas de um mesmo processo, de determinação de uma nova forma de enxergar o mundo, uma nova racionalidade, que acompanha o rearranjo fo capitalismo global. Nela, se privilegia, como nunca antes, o individualismo, a aparência, o prazer instantâneo etc., em detrimento do coletivo, da permanência, da duração. A superficialidade de grande parte da arte nesse período, por exemplo, é uma ilustração dessa mudança (basta ver as músicas mais executadas, ou os filmes mais assistidos, e comparar, por exemplo, com os anos 1970).

Não que tudo o que ocorreu naquela década se explique por esses fatores. Isso seria cair na perigosa armadilha do determinismo que, querendo explicar tudo a partir de um único fator, acaba não explicando nada. Mas, em linhas gerais, as observações acima ajudam a delimitar minimamente o cenário.

Cena do filme Curtindo a vida adoidado
No entanto, para quem, de algum modo, viveu aquele período, recebeu suas influências e carrega, ainda que inconscientemente, suas marcas, as coisas são ainda mais complexas, pois atravessadas por sentimentos e lembranças. Não é preciso apelar à psicanálise para saber o quanto as experiências da primeira infância são decisivas para os rumos que nossa vida tomará. Basta um autoexame sincero para constatá-lo.

Por exemplo: a aludida “superficialidade” da arte – pelo menos, da indústria cultural. Curtindo a vida adoidado, De volta para o futuro ou Clube dos cinco, são filmes paradigmáticos do espírito dos anos 1980. Por trás do entretenimento, acredito que o sucesso dessas películas é inseparável da percepção de uma juventude em conflito, num momento de transição de valores, cada vez mais ensimesmada em sua vida particular, instigada a fugir da realidade, posto que o presente apontava para um futuro repleto de incertezas (diferente do que ocorrera com a geração anterior). De algum modo, portanto, esses filmes são (também) ilustrações, provavelmente sem o desejarem, de uma ideologia em gestação. Mas, experimente dizer isso para quem assistia esses filmes nas Sessões da tarde ou nos Cinema em casa da vida...

Aliás, ainda nesse âmbito artístico, citei mais acima a música como uma via de entrada para nostalgia, porque é especialmente através dela que eu me volto para aquele período. Claro que programas de TV, personagens, ou brinquedos e objetos em geral, têm esse poder de remissão. Muitas das coisas do vídeo abaixo me conduzem diretamente a 1989, 1990... Mas, o caso da música é diferente.

O grupo A-ha, no clipe de "You are the one"
Desde quando comecei a definir meu gosto musical (já na segunda metade dos 90), sempre tive a impressão de que certas canções ou artistas me transportavam para meus primeiros anos de vida, como na experiência da madeleine do personagem principal do romance de Marcel Proust, No caminho de Swann. Claro que isso se dava porque muitas delas eram realmente daquela época – o rock nacional, depois o hard rock/glam metal e o pop –, e exprimiam, a seu modo, o “espírito” dos 80. Mas não era – e não é – só isso. Na verdade, sinto como se as tivesse ouvido em algum momento – no rádio, na TV – e as registrado vagamente em minha memória. Assim, cada nova audição parece como uma tentativa de recuperar a experiência original. Primeira vez que, em alguns casos, houve mesmo, sobretudo ligadas a artistas voltados para o público infantil (Xuxa, Mara Maravilha, Balão Mágico etc.), mas que, em outros, já não é tão certo, pois meus pais não eram fãs de música internacional, embora tivéssemos alguns LPs e K7s em casa.

Um exemplo que me vem de pronto à mente: “You are the one”, do A-Ha. A primeira vez que ouvi essa música, digamos, conscientemente, me senti lidando com uma velha conhecida. Provavelmente já era mesmo, posto que ela fez bastante sucesso, e a banda tocava muito por aqui. Mas, até hoje, tenho a sensação de que a escutei inicialmente em um bom momento da infância – talvez brincando, ou no colo da minha mãe. Outras tantas músicas, principalmente de hard rock, têm o mesmo efeito, ainda que, possivelmente, não as tenha escutado quando criança. Vai entender...

Silvio Santos e os jurados do "Show de calouros"
Outro caso curioso ocorreu há alguns anos, quando estava morando em Paris. Logo nos primeiros dias, no metrô, alguém entrou no vagão para tocar violino em troca de alguns trocados. Logo nos primeiros acordes, comecei a cantarolar junto, bem baixinho o que ouvia. Tratava-se de uma canção folclórica russa (dado que descobri depois), que ainda ouviria outras tantas vezes, sempre na mesma situação. Para mim, porém, ela representava outra coisa: era a música de abertura do Show de calouros, famoso programa comandado por Silvio Santos e que, claro, assistia quando criança. Durante a execução, viajei para minha antiga casa, sem sair do lugar. Desnecessário dizer que, naquele dia, fui ao Youtube (um privilégio de nossa época!) para rever aquela abertura...

Exemplos assim poderiam ser multiplicados. Mas, mas como a lida cotidiana não perdoa, e esse texto já ficou maior do que eu imaginava, é hora de voltar a 2016. Em outro momento, quem sabe, uma nova divagação desse tipo possa surgir. Afinal, desde que não sejamos tomados por ela, um pouco de nostalgia pode ser um verdadeiro elixir para a alma! 

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Trocam-se os burros...

A tardia chegada de Tite ao comando da seleção brasileira equaciona minimamente uma enorme injustiça cometida em 2014. Minimamente porque, antes de qualquer coisa, o ex-treinador corintiano terá a inglória tarefa de tentar recuperar os dois anos perdidos sob o “comando” de Dunga (como se já não bastassem as sequelas deixadas pelo desastre Felipão).

Em que pese esse passivo, contudo, não tenho muitas dúvidas de que, com Tite, o Brasil deverá se classificar sem maiores sustos para o mundial da Rússia em 2018. Ainda que, vale desde já registrar, com um futebol que provavelmente decepcionará quem, como eu, acha que a seleção, enquanto patrimônio cultural de nosso país, deveria sempre ter como meta jogar um futebol vistoso – e não se preocupar com o resultado, pura e simplesmente. Mas, reconheço: na atual situação, essa discussão fica em segundo plano.

Nesse sentido, aliás, também é sempre de bom tom frisar o mais importante: conquanto a correta troca de Dunga por Tite deva resolver as questões de campo da seleção, no cômputo geral, ela representa apenas a troca dos burros. A carroça CBF, atolada em seu mar de corrupção e incompetência, permanece a mesma. E é nela que estão guardados os maiores problemas do futebol brasileiro.

domingo, 29 de maio de 2016

Vivemos um "estado de exceção"? Considerações a partir de Agamben

Uma das pautas que se impõe atualmente na política brasileira, intensificada após o afastamento da presidenta Dilma, é a de que estaríamos vivendo em um “estado de exceção”, no qual direitos e garantias constitucionais estariam sendo aplicados (ou não) de forma discriminatória. Para ajudar nessa discussão, é útil recuperar a tematização proposta pelo filósofo italiano Giorgio Agamben, que deu novo fôlego na contemporaneidade no tratamento da exceção.

Publicado em 2003, na esteira das primeiras movimentações do governo norte-americano após 11 de setembro, Estado de exceção se inscreve na perspectiva do projeto  de setembro, Homo sacer, iniciado na década de 1990, no qual se trata de rediscutir a biopolítica de Michel Foucault através de um cruzamento original dos pensamentos de Hannah Arendt e da Escola de Frankfurt (notadamente, Walter Benjamin). Como ponto de partida, Agamben adota a ideia do Direito como mecanismo que defende e ameaça a vida concomitantemente. Em Estado de exceção, particularmente, trata-se de reconstruir o conceito jurídico-político que dá título à obra, definindo o estado de exceção como uma zona de indistinção que está simultaneamente dentro e fora do direito. A vida humana, neste caso, é capturada como mera “vida nua”. Ou seja, na suspensão do direito, a vida fica desprotegida como pura vida natural, não pertencendo mais às pessoas, mas à vontade, ao arbítrio do soberano, que tem o poder de suspender os direitos e, como consequência, a ordem jurídica.

Aqui, Agamben recupera um debate conceitual entre Carl Schmitt, jurista alemão partidário do nazismo, e Walter Benjamin – cuja morte se deveu exatamente à perseguição nazista aos judeus. Para Schmitt é o soberano quem decide sobre o estado de exceção, na medida em que se encontra incluído no direito a sua própria suspensão. Ou seja, o estado de exceção se inscreve no contexto jurídico, conquanto sua efetivação implique na “suspensão de toda ordem jurídica”. Nas palavras de Schmitt, “o estado de exceção é sempre algo diferente da anarquia e do caos e, no sentido jurídico, nele ainda existe uma ordem, mesmo não sendo uma ordem jurídica”.

Benjamin, por seu turno, inverte a concepção de Schmitt. Não se trata de uma decisão do soberano aplicá-lo, mas evitá-lo, pois, segundo o autor, “quem reina já está desde o início destinado a exercer poderes ditatoriais num estado de exceção, quando este é provocado por guerras, revoltas ou outras catástrofes”. Nesse sentido, cumpre relembrar a VIII tese sobre a história, escrita em 1940 – que será importante para o entendimento de Agamben – na qual Benjamin proclama: “A tradição dos oprimidos nos ensina que o ‘estado de exceção’ em que vivemos é na verdade a regra geral. Precisamos construir um conceito de história que corresponda a essa verdade. Nesse momento, perceberemos que nossa tarefa é originar um verdadeiro estado de exceção; com isso nossa posição ficará mais forte na luta contra o fascismo. Este se beneficia da circunstância de que seus adversários o enfrentam em nome do progresso, considerando como uma norma histórica. O assombro com o fato de que os episódios que vivemos no século XX ‘ainda’ sejam possíveis, não é um assombro filosófico. Ele não gera nenhum conhecimento, a não ser o conhecimento de que a concepção de história da qual emana semelhante assombro é insustentável”.

Para Agamben, o estado de exceção é uma zona de indistinção, ou seja, não é nem exterior, nem interior ao ordenamento jurídico. Assim, o problema de sua definição encontra-se, justamente, em uma esfera de indiferença em que dentro e fora não se excluem, mas se indeterminam. Destarte, suspender a norma não implica em sua anulação, ao passo que a zona de anomia, indeterminação, não é destituída de relação com a ordem jurídica.

Com efeito, o estado de exceção é um vazio de direito porque é um “espaço anômico onde o que está em jogo é uma força-de-lei sem lei”, portanto, força-de-lei. Trata-se, segundo Agamben, de “um estado da lei em que, de um lado, a norma está em vigor, mas não se aplica (não tem força) e, em que de outro lado, atos que não têm valor de lei adquirem sua força é essa indefinibilidade e a esse não-lugar que responde a ideia de uma força-de-lei. [...] a força-de-lei, separada da lei, o imperium flutuante, a vigência sem aplicação e a ideia de uma espécie de ‘grau zero’, são algumas das tantas ficções por meio das quais o direito tenta incluir em si sua própria ausência e apropriar-se do estado de exceção, ou, no mínimo, assegurar-se uma relação com ele Assim, consequentemente, o estado de exceção se configura como um espaço de indistinção que conjuga o vazio de direito no espaço anômico, como um vazio e uma interrupção do direito. O estado de exceção é uma zona de indiferença entre o caos e o estado da normalidade, uma zona de indiferença capturada pela norma, de modo que não é a exceção que se subtrai à norma, mas ela que, suspendendo-se, dá lugar à exceção”.

Em outras palavras, o estado de exceção é “a abertura de um espaço em que aplicação e norma mostram sua separação e em que uma pura força-de-lei (isto é, aplica desaplicando) uma norma cuja aplicação foi suspensa. Desse modo, a união impossível entre norma e realidade, e a consequente constituição do âmbito da norma, é operada sob a forma da exceção, isto é, pelo pressuposto de sua relação. Isso significa que, para aplicar uma norma, é necessário, em última análise, suspender sua aplicação, produzir uma exceção. Em todos os casos, o estado de exceção marca um patamar onde lógica e práxis se indeterminam e onde uma pura violência sem logos pretende realizar um enunciado sem nenhuma referencia real”.

Recuperando a intuição de Walter Benjamin, Agamben defende que o estado de exceção, enquanto paradigma de governo, tem se tornado regra nas instituições políticas contemporâneas. Nesse sentido, o filósofo assinala o paradoxo da soberania (a exceção como regra), o investimento na vida pelo poder (o biopoder), e a falsa universalidade do projeto moderno (principalmente com relação aos diretos humanos e à liberdade). A partir dessas considerações, Agamben visa entender o movimento que leva a excepcionalidade como um mecanismo de suspensão da ordem jurídica tornar-se um paradigma de governo eminentemente presente na política contemporânea – inclusive nas democracias mais avançadas.

Assim, diante da necessidade de responder a uma situação de emergência qualquer (política, militar, econômica), os governos (mesmo os democráticos) adotam uma série de medidas de cunho totalitário, sob a justificativa de que tais medidas serviriam para proteger o Estado e suas instituições. Por conseguinte, estes argumentos confeririam caráter jurídico às situações não contempladas ou sequer previstas pela normalidade constitucional.

À luz dessas considerações, é possível afirmar que o Brasil vive um estado de exceção? Creio que a resposta seja: parcialmente, sim. Afinal, se não vivemos um momento de suspensão completa do direito, das garantias individuais etc., há em curso um processo que, a meu ver, atesta a legitimidade daquela hipótese.

É preciso esclarecer: para além de quaisquer julgamentos acerca da política econômica ou outras decisões tomadas pelo governo Dilma, houve, nos últimos anos, um fator de desestabilização da ordem política brasileira, a Operação Lava Jato, a partir da qual aquele estado de exceção começou a se desenhar. Ora, como os áudios divulgados nos últimos dias reforçam, essa tem sido a grande preocupação da classe política nacional, de um espectro a outro. Mas, vale lembrar que, inicialmente, a Lava Jato estava claramente destinada a enfraquecer ou mesmo extinguir um grupo político específico – basta ver sua circunscrição aos governos petistas, quando se sabe tratar-se de um problema muito mais antigo, o que já é um prenúncio de um estado de exceção. Contudo, a partir de certa altura, ela parece ter saído do controle, exigindo uma intervenção direta do centro do poder para sua detenção. Diante da recusa de Dilma em participar – ao menos, no grau esperado – desse conluio, a solução foi aplicar a ela o processo de impeachment, sob qualquer pretexto minimamente contemplado no texto constitucional (exatamente para que não se configurasse a ideia de golpe e, portanto, de excepcionalidade). A partir desse momento, o que se tem é a propagação de ideias e movimentos destinados a criar um contexto de insegurança jurídica e intensificação de perseguições (especialmente pelo mau uso do mecanismo de delação premiada), com o intuito de reverter os estragos políticos das investigações em curso, redimensionando-as à esfera previamente estabelecida, isto é, o governo Dilma, Lula e o PT.

Diante disso, cabe indagar: será possível retornar a esse status quo ante? Pessoalmente, duvido. A percepção de que o desenrolar do presente nos encaminha  para um estado de exceção pleno – no qual o arbítrio extrapole ainda mais os atuais limites, ainda que sob roupagem “democrática” – é cada vez mais nítida. E a própria dinâmica da realidade parece se opor – e se impor – àqueles que desejavam apenas “acabar com a raça da esquerda”.


quarta-feira, 18 de maio de 2016

Muito pior do que a encomenda

Menos de uma semana, e o governo golpista de Michel Temer já mostrou a que veio. A escolha de um ministério exclusivamente masculino, no qual não há lugar para pastas como a Cultura ou os Direitos Humanos, e, de quebra, com sete (!!!) investigados na Lava Jato foi apenas o tenebroso cartão de visitas. Da última sexta-feira para cá, uma série de declarações do primeiro escalão do novo governo, somadas às suas primeiras ações, estão (ou deveriam estar) aterrorizando todos aqueles que minimamente conscientes e preocupados com o futuro do país.

Os temas até aqui elencados foram variados e extremamente sensíveis: pauta extensa de privatizações; Reforma da Previdência com elevada idade mínima para se aposentar; diminuição do SUS; apoio ao pagamento de mensalidade em Pós-Graduação das universidades públicas; revisão de programas sociais (“Minha Casa, Minha Vida” e “Bolsa Família”); política repressiva em relação aos movimentos sociais; postura agressiva em relação aos países do “Eixo Sul” e de submissão aos EUA e à EU; dentre outros. A síntese da nova política pode ser encontrada nas afirmações dos novos Ministros da Fazenda e da Justiça, a saber: “direito adquirido é um conceito relativo”, e “nenhum direito é absoluto”, respectivamente.

Com efeito, o pano de fundo de ambas as declarações demarca o fio condutor da política de Temer: opor direitos sociais constitucionalmente assegurados à (suposta) necessidade de um severo ajuste fiscal para reequilibrar o orçamento e “acalmar os mercados”. É isso que nos aguarda. Uma política de desmonte da Constituição que, admito, está sendo exposta em ritmo mais rápido que imaginava. A cada manhã, a cada acesso à internet ou a cada edição dos telejornais, uma nova desagradável surpresa. “Ordem e progresso” é, pelo seu anacronismo e reacionarismo, o lema perfeito para este governo.

Contudo, ainda não parece possível afirmar que Temer terá condições de implementar seu plano até o fim. Não apenas pelo tempo escasso (ainda que fique até 2018), ou por dissensos em sua base, mas, sobretudo porque, não obstante a tentativa de desmoralização da esquerda que culminou no afastamento provisório da presidenta Dilma, a resistência ao golpe permanece – e pode se fortalecer. E, mais importante, não apenas por parte do núcleo de sustentação ao antigo governo. Alguns apoiadores do golpe, por exemplo, já começaram a manifestar preocupações públicas com os primeiros gestos do governo Temerário. E, claro, há também a possibilidade de uma parte mais expressiva da população que, mesmo crítica ao PT e a Dilma, é dependente do bom funcionamento do Estado, se insurgir quando se perceber vítima da manipulação grosseira à qual foi submetida. A ver. E a persistir na luta.

domingo, 8 de maio de 2016

Belchior - Alucinação

Aluncinação, segundo LP de Belchior, está completando 40 anos de lançamento. Misturando uma sonoridade que remete a Bob Dylan, com uma lírica praticamente sem precedentes, o disco é recheado de clássicos como "Apenas um rapaz latino-americano", "Como nossos pais", "Velha roupa colorida",  "Fotografia 3x4", dentre outras. É a música brasileira na sua melhor performance.
Apenas: ouçam!

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Cecília Meireles - Motivo

Post de número 300 do blog, em pouco menos de seis anos de atividade ininterrupta! Quero agradecer enormemente todos os leitores e leitoras, tanto aqueles mais assíduos, quanto os eventuais. Este espaço foi criado, sobretudo, como um exercício de liberdade de reflexão, de disseminação da filosofia, de crítica social e política e de divulgação artística. Creio que tem sido fiel a seu princípio.
Para celebrar essa marca, brindo vocês com um tocante poema de Cecília Meireles, intitulado Motivo.












Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

O caminho se faz ao caminhar - sugestões à esquerda após o fim da Nova República

17 de abril de 2016 marca, a meu ver, o fim da "Nova República", iniciada em 1985. Nesse período desde a redemocratização assistimos, dentre outras coisas, à estratégia hegemônica da esquerda, simbolizada pelo PT, de adentrar ao sistema político formatado pelo centro liberal (o PMDB) e tentar modificá-lo por dentro. Inicialmente rejeitado, o partido soube se transformar para “ser aceito” e promover positivas mudanças gradativas em estruturas historicamente carcomidas, mas com o compromisso tácito de jamais questionar seriamente as regras do jogo. Contudo, exatamente por esse compromisso, o programa de mudanças esbarrava frequentemente em barreiras de inflexibilidade ímpar. Esses limites podem ser sintetizados na malfadada ideia de “governabilidade”, que, para ser respeitada, afastou setores importantes no âmbito social e ajudou a enfraquecer e desmoralizar a própria esquerda, através de alianças esdrúxulas que representaram sacrifícios programáticos importantes nas gestões petistas.

Não obstante essas concessões, neste domingo, em grande parte pelo trabalho dos outrora “aliados”, se decidiu que o PT – e, com ele, não nos enganemos, TODA a esquerda brasileira – não são mais aceitos no jogo. Aproveitou-se um momento de fraqueza do governo petista, depois de anos de bonança, para se restabelecer o status quo ante (por isso a ideia de fim da Nova República). Basta ver que os partidos que apoiaram o governo hoje foram essencialmente os mesmos que apoiaram a eleição de Lula em 2002, para se ter uma ideia do cenário. Com isso, inaugurou-se uma nova etapa na vida pública brasileira, cujo desenlace ainda não sabemos qual será. Apenas podemos ter a certeza de que não deverá ser como antes. Por isso, não importa o que ocorra doravante, e mesmo se Dilma, por milagre, não for destituída no Senado, a esquerda como um todo (porque, insisto, toda ela será afetada), tem, a meu ver, um dever inescapável: reinventar-se e, ao mesmo tempo, reinventar a luta por outro sistema. Isso não significa abrir mão de disputar eleições, governar cidades, estados etc. nas regras atuais. Significa, mais do que tudo, romper com a ilusão de que por essa via exclusiva haveria possibilidade de construir um novo projeto de nação. De que sacrificar-se por aliados ocasionais para abocanhar minutos de TV ou votos no Congresso seria mais importante do que pensar um projeto de médio e longo prazo.

Não é tarefa fácil e tampouco rápida. Pode levar anos, décadas até. Mas, em minha modesta opinião, já a partir dessa semana, líderes de todos os partidos desse campo, de Lula a Rui Costa Pimenta, os diversos movimentos sociais organizados, intelectuais progressistas, cidadãs e cidadãos anônimos que se identificam com a justiça social, a liberdade e a solidariedade, deveriam começar a construir pontes e estabelecer um espaço de diálogo franco e imune a sectarismos de toda ordem. Recuperar e revigorar a discussão teórica, bem como o trabalho de base. Pensar em projetos, no papel da educação cidadã e da cultura na formação das futuras gerações. Estabelecer pautas mínimas de ação, criar consensos e aprender a processar as divergências sem que isso signifique ruptura definitiva. Fazer um balanço da trajetória da esquerda brasileira até aqui, seus erros e acertos. Falar e (em particular para o PT) ouvir. Afinal, quando a esquerda cai, as colorações que separam os diversos grupos são anuladas pelo ódio de quem vê em todos nós um inimigo comum.

O que vai sair disso? Um novo partido, uma frente supra-partidária? Não sei. Mas, como disse um poeta, “o caminho se faz ao caminhar”. Um primeiro passo poderia, por exemplo, ser uma luta unificada por eleições gerais nesse ano, a partir da qual aquelas diretrizes poderiam começar a ser postas em prática. De todo modo, no dia de ontem a esquerda viu que urge construir seu próprio caminho. Ou amargará um longo período de ostracismo e, pior ainda, de perseguição.

Portanto, à luta, que está no DNA de toda nossa tradição!