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domingo, 4 de dezembro de 2016

Chapeocense, Ferreira Gullar e o aprendizado da vida

Desnecessário dizer o quão pesada foi a semana que passou. Optei por nada escrever até agora, porque não conseguia achar palavras capazes de descrever a tragédia. Eis que, nesse domingo, também se foi o grande poeta maranhense Ferreira Gullar. E, por essas trágicas casualidades, encontrei nos versos de "Aprendizado" uma forma de expressar um pouco desse drama cheio de contradições que é viver. Drama que desvela suas entranhas justamente quando nos deparamos com a fragilidade da vida.


Aprendizado
(Ferreira Gullar)

Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.

Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão

que a vida só consome
o que a alimenta.


quarta-feira, 28 de setembro de 2016

50 anos sem André Breton

Neste 28 de setembro de 2016, completam-se 50 anos do falecimento de um dos maiores artistas do último século: o pai do surrealismo, o francês André Breton.

Conheci Breton na época de faculdade. Quer dizer, já tinha ouvido falar do surrealismo, nas aulas de literatura do colegial sobre as vanguardas artísticas modernas, mas foi mais tarde que o movimento realmente chamou minha atenção. “Acredito na resolução futura destes dois estados, tão contraditórios na aparência, o sonho e a realidade, numa espécie de realidade absoluta, de surrealidade, se assim se pode dizer”. Era a plena exaltação da liberdade, da imaginação, da criatividade, do sonho – mas, sem deixar de lado o real. Conjugação difícil, sem dúvida, mas não impossível, como Breton demonstrava.

Com efeito, a leitura dos Manifestos do surrealismo foi marcante, dentre outras coisas, porque representava, naquele momento, a tradução do que procurava para minha vida: a conjunção entre a rebelião romântica expressa no imperativo de “mudar a vida”, de Rimbaud, com o “transformar o mundo”, orientado por uma perspectiva não dogmática, de Marx – ambos, entrelaçados pela psicanálise freudiana. “Do ponto de vista intelectual”, explicava em 1930, “tratava-se, trata-se ainda, de por à prova por todos os meios e de fazer reconhecer a qualquer preço o caráter factício das velhas antinomias destinadas hipocritamente a prevenir toda agitação insólita por parte do homem, nem que fosse por lhe dar uma ideia minguada de seus meios, ou por desafiá-lo a escapar em dimensão válida à coerção universal”.

Depois dos referidos Manifestos, vieram Vasos comunicantes, os poemas, o romance Nadja, o Manifesto por uma arte revolucionária e independente (escrito com Diego Rivera e Léon Trotsky) e a abertura para outras expressões artísticas surrealistas: o cinema fantástico de Luis Buñuel e Federico Fellini, a pintura de Magritte, Juan Miró e daquele que considero o maior pintor do século XX, Salvador Dalí (cuja obra, em grande parte, tive o enorme prazer de apreciar em uma exposição em Paris, em 2013, num dos momentos mais sublimes de minha estadia por lá).

Nesses tempos obscuros que vivemos – poderia dizer: surreais, no sentido mais pejorativo que por vezes se aplica ao termo –, que a arte de Breton possa servir de alento ao espírito e combustível para não deixar morrer os nossos sonhos mais altos de liberdade: “No meu modo de entender nada existe de inadmissível. O irreal é tão verdadeiro como o real. O sonho e a realidade são vasos comunicantes”.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Cecília Meireles - Motivo

Post de número 300 do blog, em pouco menos de seis anos de atividade ininterrupta! Quero agradecer enormemente todos os leitores e leitoras, tanto aqueles mais assíduos, quanto os eventuais. Este espaço foi criado, sobretudo, como um exercício de liberdade de reflexão, de disseminação da filosofia, de crítica social e política e de divulgação artística. Creio que tem sido fiel a seu princípio.
Para celebrar essa marca, brindo vocês com um tocante poema de Cecília Meireles, intitulado Motivo.












Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Meditação sobre o tempo

Uma reflexão em versos sobre este tema tão profundo e incompreendido (e que, também por isso, tantas vezes já surgiu por aqui). O poema é de Paul Fleming, poeta alemão do seculo XVII.













Meditação sobre o tempo

por Paul Fleming
Tradução: Augusto de Campos

Vives no Tempo sem saber o que é o Tempo;
Ignoras de onde vens e no que te deténs.
Sabes apenas que num Tempo foste feito
E que num outro Tempo ainda serás desfeito.
Mas o que foi o Tempo que te trouxe incluso?
E o que há de ser aquele que te faz sem uso?
O Tempo é sim e não, o homem se multiplica,
Mas o que é este Sim-e-Não ninguém explica.
O Tempo morre em si e a si mesmo renasce.
O de que tu e eu viemos, de nós mesmos nasce.
O homem está no Tempo e o Tempo está no homem,
Mas o Tempo resiste enquanto o homem some.
O Tempo é o que és e és o que é o Tempo,
Embora tenhas menos do que o Tempo tem.
Ah, se esse outro Tempo, sem Tempo, chegasse
E a nós, de nosso Tempo, esse Tempo arrancasse,
E de nós mesmos, nós, para sermos também
Como esse Tempo, que nenhum Tempo contém.

Gedanken über die Zeit

Ihr lebet in der Zeit und kennt doch keine Zeit;
so wisst, ihr Menschen, nicht von und in was ihr seid.
Dies wisst ihr, dass ihr seid in einer Zeit geboren
und dass ihr werdet auch in einer Zeit verloren.
Was aber war die Zeit, die euch in sich gebracht?
Und was wird diese sein, die euch zu nichts mehr macht?
Die Zeit ist was und nichts, der Mensch in gleichem Falle,
doch was dasselbe was und nichts sei, zweifeln alle.
Die Zeit, die stirbt in sich und zeugt sich auch aus sich.
Dies kömmt aus mir und dir, von dem du bist und ich.
Der Mensch ist in der Zeit; sie ist in ihm ingleichen,
doch aber muss der Mensch, wenn sie noch bleibet, weichen.
Die Zeit ist, was ihr seid, und ihr seid, was die Zeit,
nur dass ihr wenger noch, als was die Zeit ist, seid.
Ach dass doch jene Zeit, die ohne Zeit ist, käme
und uns aus dieser Zeit in ihre Zeiten nähme,
und aus uns selbsten uns, dass wir gleich könnten sein,
wie der itzt jener Zeit, die keine Zeit geht ein.


terça-feira, 24 de novembro de 2015

Até quando?













Depois de um longo hiato sem tentar escrever poesia, deixo com vocês um pequeno exercício de libertação da alma. Porque, parafraseando alguém, se a arte não salva a vida, salva o instante.

***

Até quando?

Viajei com a mala
repleta de sonhos
Mas retorno
com um vazio de esperanças

Abstrato
Acordo, ergo a cabeça, olho para o lado:
apenas móveis velhos
fora do lugar...

Até quando será possível
suportar
o acúmulo trágico dos fatos?

Até quando a impotência
que mortifica a alma
poderá se prolongar?

Até quando sentimentos humanos
serão vítimas
das letras frias de um contrato?

Até quando haverá medo
de se perder
e nunca mais se encontrar?

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Poema em linha reta












Fernando Pessoa, imprescindível para um momento de incertezas e questionamentos sobre si mesmo...


Poema em linha reta
(por Álvaro de Campos)

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

terça-feira, 5 de maio de 2015

O velho Leon e Natália em Coyoacán

Acho O velho Leon e Natália em Coyoacán um dos melhores poemas de Paulo Leminski. Primeiro, por propor uma trama romântica a partir de dois personagens que admiro, Leon Trotsky e sua esposa, Natalia Sedova. Mas, além disso, e mais fundamentalmente, porque ele sempre me remete àqueles dias extraordinários, que pela dificuldade que nos impuseram, ou pela mudança de destinos que nos provocam, se tornam únicos, singulares em nossas vidas, e cuja memória, embora dolorosa, sempre nos acompanhará. “Nunca mais vai haver um dia como em Petrogrado aquele dia”. Quem nunca teve seu “dia em Petrogrado” para dizer: que um dia como esse nunca mais se repita?

No entanto, também em muitos dias positivamente extraordinários, nos quais tive alguma experiência que se tornaram únicas, irrepetíveis (as “primeiras vezes”, por exemplo) os versos da última estrofe curiosamente me vêm à mente. Neste caso, não como desejo, como é o tom do poema, mas com certa dose de lamento: nunca mais vai haver um dia como aquele, pois as circunstâncias são outras, e eu também já sou outro.

Enfim, independete da interpretação que se faça, o fato é que se trata de uma bela composição, de um de nossos melhores poetas do século XX.

O velho Leon e Natália em Coyoacán
(Paulo Lemniski)

desta vez não vai ter neve como em petrogrado aquele dia
o céu vai estar limpo e o sol brilhando
você dormindo e eu sonhando

nem casacos nem cossacos como em petrogrado aquele dia
apenas você nua e eu como nasci
eu dormindo e você sonhando

não vai mais ter multidões gritando como em petrogrado aquele dia
silêncio nós dois murmúrios azuis
eu e você dormindo e sonhando

nunca mais vai ter um dia como em petrogrado aquele dia
nada como um dia indo atrás de outro vindo
você e eu sonhando e dormindo

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Passado, presente, futuro

Depois de um longo hiato, o blog volta a publicar um pouco de poesia. Desta vez, escolhi um poema de um de meus escritores preferidos, José Saramago. Porque em tempos incertos do ponto de vista pessoal/profissional, compartilho da mesma inquietação do autor: "Falta ver, se é que falta, o que serei".












Passado, Presente, Futuro
(por José Saramago)

Eu fui. Mas o que fui já me não lembra:
Mil camadas de pó disfarçam, véus,
Estes quarenta rostos desiguais.
Tão marcados de tempo e macaréus.

Eu sou. Mas o que sou tão pouco é:
Rã fugida do charco, que saltou,
E no salto que deu, quanto podia,
O ar dum outro mundo a rebentou.

Falta ver, se é que falta, o que serei:
Um rosto recomposto antes do fim,
Um canto de batráquio, mesmo rouco,
Uma vida que corra assim-assim.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Bem no fundo

Um poema do sempre genial Paulo Leminski para esses dias de ansiedade e preocupação.












Bem no fundo

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Parolagem da vida

Uma semana de mudanças se inicia em minha vida. Novo emprego, nova fase, novos passos, novos sonhos. Neste espírito, deixo vocês com um poema, do sempre genial Carlos Drummond de Andrade, sobre os vaivéns de nossa vida.
















Parolagem da vida
Carlos Drummond de Andrade

Como a vida muda.
Como a vida é muda.
Como a vida é nula.
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.
Tudo que se perde
mesmo sem ter ganho.
Como a vida é senha
de outra vida nova
que envelhece antes
de romper o novo.
Como a vida é outra
sempre outra, outra
não a que é vivida.
Como a vida é vida
ainda quando morte
esculpida em vida.
Como a vida é forte
em suas algemas.
Como dói a vida
quando tira a veste
de prata celeste.
Como a vida é isto
misturado àquilo.
Como a vida é bela
sendo uma pantera
de garra quebrada.
Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.
Como a vida chora
de saber que é vida
e nunca nunca nunca
leva a sério o homem,
esse lobisomem.
Como a vida ri
a cada manhã
de seu próprio absurdo
e a cada momento
dá de novo a todos
uma prenda estranha.
Como a vida joga
de paz e de guerra
povoando a terra
de leis e fantasmas.
Como a vida toca
seu gasto realejo
fazendo da valsa
um puro Vivaldi.
Como a vida vale
mais que a própria vida
sempre renascida
em flor e formiga
em seixo rolado
peito desolado
coração amante.
E como se salva
a uma só palavra
escrita no sangue
desde o nascimento:
amor, vidamor!

sábado, 19 de outubro de 2013

Poética

Em homenagem ao centenário de Vinícius, o "poetinha", celebrado neste 19 de outubro.




















Poética

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço
-Meu tempo é quando

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Soneto de aniversário

Nesse dia mais do que especial para minha esposa, Angelica, dedico a ela este poema, de Vinícius de Moraes.

Angel, que venham muitas outras primaveras!
















Soneto de aniversário
(Vinícius de Moraes)

Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.

Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.

Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.

E eu te direi: amiga minha, esquece....
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Dedução

Para minha eterna namorada, Angelica, alguns versos do poeta russo Vladimir Mayakovsky, que sobrescrevo integralmente:

















Dedução


(Vladimir Mayakovsky)

Não acabarão nunca com o amor,
nem as rusgas,
nem a distância.
Está provado,
pensado,
verificado.
Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos
e faço o juramento:
Amo
firme,
fiel
e verdadeiramente.

segunda-feira, 25 de março de 2013

A persistência da memória

Depois da pausa de algumas semanas, volto a atualizar o blog com um poema que escrevi há alguns anos, inspirado no quadro A persistência da memória, de 1931, de Salvador Dalí – que considero um dos mais inspiradores e criativos da história. Nos últimos meses, Paris recebeu uma grande exposição sobre o pintor, que contava com suas principais obras, inclusive esta. Tive a felicidade de vê-la há cerca de um mês, e foi neste momento que me lembrei desses versos, que agora decido compartilhar com vocês. Além disso, o tema da memória vem bem a calhar depois de alguns dias em que perdas, parciais ou definitivas, tomaram conta da minha vida.
















A persistência da memória
(Inspirado no quadro de Salvador Dalí)


A memória persiste
                                   Dalí,
daqui,
                        de
                                 to
                                 dos
                                        os
            lu
                  ga
                        res,
um fluxoininterrupto
de ameaças fotográficas
                        a sobrevoar
                        nossas cabeças

Testemunha solitária
de um funeral inacabado,
trafega ao toque de
                        seios
                           e
                       senhas
sob a luz artificial
que dá contorno à noite

                        [a luz branca de esquecimento
                         a esfera sem começo nem fim
                         o medo do silêncio que passou
                                                       v o a n d o
                                                           pelo vidro do
                                                                       carro]

A memória assiste,
aqui,
                        ali,
aos velhos filmes e as mulheres sem maquiagem
E resiste,
                 Dali,
   daqui,
ao calor e ao champanhe que bor
                                                      bu
                                                           lha
                                               Vaidades

A memória persiste
e nos diz:
-Esqueçam!


quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O analfabeto político

Com as eleições se aproximando, e com a recorrência daqueles discursos orientados na linha "todos os políticos são iguais", "odeio política" etc., achei que seria de bom tom tratar do assunto. Mas, qualquer texto que escrevesse aqui, seria menos bem sucedido do que o poema O analfabeto político, do alemão Bertolt Brecht. Por isso, decidi reproduzi-lo, como uma verdadeira advertência da necessidade de participarmos ativamente da vida política de nossa cidade, de nosso estado, de nosso país.

O analfabeto político
por Bertolt Brecht

O pior analfabeto
é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala,
nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo da vida,
o preço do feijão, do peixe, da farinha,
do aluguel, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.
O analfabeto político
é tão burro que se orgulha
e estufa o peito dizendo
que odeia a política.
Não sabe o imbecil que,
da sua ignorância política
nasce a prostituta, o menor abandonado
e o pior de todos os bandidos:
O político vigarista,
pilantra, corrupto e lacaio
das empresas nacionais e multinacionais.


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Um pouco de Neruda

Para começar bem a semana, um dos meus poemas preferidos do chileno Pablo Neruda. Trata-se do poema 15 do livro Veinte poemas de amor y una canción desesperada, publicado em 1924. Ao final, uma tradução do mesmo para o português.















Me gusta cuando callas

Me gustas cuando callas porque estás como ausente,
y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
y parece que un beso te cerrara la boca.

Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas, llena del alma mía.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palabra melancolía.

Me gustas cuando callas y estás como distante.
Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
Déjame que me calle con el silencio tuyo.

Déjame que te hable también con tu silencio
claro como una lámpara, simple como un anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.

Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.


Gosto de ti calada

Gosto de ti calada porque estás como ausente,
e me ouves de longe, e esta voz não te toca.
Parece que os teus olhos foram de ti voando
e parece que um beijo fechou a tua boca.

Como todas as coisas estão cheias da minha alma
tu emerge das coisas, cheia da alma minha.
Borboleta de sonho, pareces-te com a minha alma,
e pareces-te com a palavra melancolia.

Gosto de ti calada e estás como distante.
E estás como queixando-te, borboleta em arrulho.
E ouves-me de longe, e esta voz não te alcança:
vais deixar que eu me cale com o silêncio teu.

Vais deixar que eu te fale também com o teu silêncio
claro como uma lâmpada, simples como um anel.
Tu és igual à noite, calada e constelada.
O teu silêncio é de estrela, tão longínquo e tão simples.

Gosto de ti calada porque estás como ausente.
Distante e dolorosa como se houvesses morrido.
Uma palavra então, um sorriso basta.
E eu estou alegre, alegre porque não é verdade.


terça-feira, 1 de novembro de 2011

E agora, José?

Com um pouco de atraso, minha singela homenagem ao maior de todos os poetas brasileiros, pelos 113 anos de seu nascimento, celebrados no último dia 31 de outubro.





















José

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio – e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

domingo, 7 de agosto de 2011

Soneto para Angelica

Para celebrar nosso noivado, um singelo poema que escrevi para meu amor, Angelica.
















Soneto para Angelica

Quando eu percorria ruas desertas
Em dias gris, ou em noites sombrias
Adentrava portas entreabertas
Mas, nada encontrando, tudo perdia

Então meu coração erguia montes
Contra os ares frescos da primavera
E maldizia que tamanho afronte
A vida, sem porquê, o impusera

Mas, um dia, uma lágrima inocente
Decretando para sempre a minha sorte
Abrigou o infinito no meu peito

E, desde então, tuas mãos pacientes
Construíram um amor que de tão forte
Das imperfeições se faz perfeito.

terça-feira, 28 de junho de 2011

"Ô saisons, ô châteaux"

Bem, semestre terminando, hoje tenho prova final de francês. E, para entrar no clima, nada como alguns belos versos de um dos grandes nomes da poesia francesa, o gênio precoce Arthur Rimbaud. O poeta, cuja obra foi toda escrita antes de seus 20 anos de idade, é um marco na poesia simbolista, e influenciou, por exemplo, movimentos importantes do século XX, como o dos beatniks e o existencialismo.

Abaixo, segue o poema Ô saisons, ô châteaux, seguido da tradução para o português (livre) feita pelo poeta brasileiro Augusto de Campos.




















Ô SAISONS, Ô CHÂTEAUX

Ô saisons, ô châteaux,
Quelle âme est sans défaut ?

Ô saisons, ô châteaux,
J'ai fait la magique étude
Du bonheur,que nul n'élude.

Ô vivre lui, chaque fois
Que chante son coq gaulois.

Mais ! je n'aurais plus d'envie,
Il s'est chargé de ma vie.

Ce charme ! il prit âme et corps,
et dispersa tous efforts.

Que comprendre à ma parole ?
Il fait qu'elle fuit et vole !

Ô saisons, ô châteaux !
Et, si le malheur m'entraîne,
Sa disgrâce m'est certaine.

Il faut que son dédain, las !
Me livre au plus prompt trépas !

- Ô Saisons, ô Châteaux !


CASTELOS, ESTAÇÕES
(tradução de Augusto de Campos)

Castelos, estações,
Que almas é sem senões?

Castelos, estações.

Eu fiz o mágico estudo
Da Felicidade, eis tudo.

Que eu possa ouvir outra vez
Cantar seu galo gaulês.

Desejos? Dores? Olvida.
Ela é a luz da minha vida.

O Encanto entrou em minha alma.
Doravante tudo é calma.

O que esperar do meu verso?
Que voe pelo universo.

Castelos, estações!

E se me arrastar o mal,
Seu fel me será fatal.

Que a morte com seu desprezo
Me liberte desse peso!

- Castelos, estações!

domingo, 5 de junho de 2011

Amanhã é segunda

Em "homenagem" a esse triste, mas inevitável momento, quando você percebe que o fim de semana já está acabando, e a segunda-feira vem aí, um poema que escrevi há algum tempo.


















Amanhã é segunda

Só mais um gole
de conhaque, pra ver a noite passar
Amanhã é segunda. Fosse sexta, e eu te esperava
cheio de novidades
Namoraríamos um pouco, logo depois do cinema
Por fim, quem sabe, uma cervejinha,
entrecortada por beijos e fritas.
Mas a sexta já passou. O sábado, então, nem vi por onde
se meteu. Amanhã é segunda. Um trago no conhaque, os gols
da rodada e voilà, já é hora de dormir!

Com o barulho da gente chegando,
as despedidas da gente partindo,
Em cada qual, uma rotina
Pra todo corpo, descanso findo

Domingo, domingo...
eita troço sem sentido!