O corpo próprio é o pilar da filosofia de Merleau-Ponty. Seja na sua Fenomenologia da percepção ou em sua última ontologia, esboçada em O visível e o invisível, o corpo é quem abre o caminho, na filosofia merleau-pontyana, de se superar os impasses ocasionados pelas filosofias da consciência (isto é, aquelas filosofias que estabelecem a consciência ou a subjetividade como ponto de partida).
O primeiro ponto a destacar é que o corpo de que falamos, nosso corpo, não é aquele de que fala as ciências positivas. De fato, nosso corpo próprio, tal como o vivenciamos, não é uma coisa, um objeto de estudos das ciências positivas, não é um feixe de ossos, músculos e sangue, não é uma rede de causas e efeitos, não é o suporte para uma alma ou para uma consciência. Todas essas características, diz Merleau-Ponty, são projeções que fazemos a posteriori em relação ao corpo. Quer dizer, não o vivenciamos desse modo, não nos comportamos assim em relação a ele. Nosso corpo próprio, para-nós, é a forma de nossa imersão no mundo, o modo fundamental de sermos e estarmos no mundo, de nos relacionarmos com ele e ele conosco. Nosso contato primeiro com o mundo é sensível, e isso só é possível porque somos um corpo, porque compartilhamos, com ele, de uma mesma carne.
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| Henri Matisse, Nu azul. |
Nosso corpo tem uma característica especial. Quando, por exemplo, seguro minha mão esquerda com minha mão direita, percebo que há em meu corpo certa reflexão; a mão que toca e a mão tocada podem se alternar em seus papéis. Há reversibilidade. Meu corpo, portanto, é táctil e tocante. O mesmo ocorre com os demais sentidos. Meu corpo é um ser visível, em meio a uma infinidade de outros seres visíveis, mas com essa peculiaridade: ele também é vidente. Vejo, mas também posso ser visto. Inclusive, sou visível para mim. Meu corpo é sonoro, mas também pode se fazer ouvir e pode ouvir-se quando emite sons. Ouço quando falo e ouço quem me fala. Sou sonoro para mim mesmo e para outrem.
Por isso, quando percebemos um corpo, um gesto, uma expressão, uma fisionomia, podemos nos reconhecer neles, reconhecer que ali há um outro, cujo corpo é semelhante ao meu e que, portanto, me é compreensível e comunicável, tal como sou para ele.
Há ainda uma outra característica de nosso corpo próprio: a possibilidade que ele tem de se “dilatar”, expandir seus limites de percepção e atuação para além do estabelecido por nossa anatomia. Vejamos esse exemplo de Merleau-Ponty na Fenomenologia da percepção: “Uma mulher mantém sem cálculo um intervalo de segurança entre a pluma de seu chapéu e os objetos que poderiam estragá-la, ela sente onde está a pluma, assim como nós sentimos onde está nossa mão. Se tenho o hábito de dirigir um carro, eu o coloco em uma rua e vejo que "posso passar" sem comparar a largura da rua com a dos pára-choques, assim como transponho uma porta sem comparar a largura da porta com a de meu corpo”. Nesse sentido, prossegue o filósofo, habituar-se a usar um chapéu, ou um carro, “é instalar-se neles ou, inversamente, fazê-los participar do caráter volumoso de nosso corpo próprio. O hábito exprime o poder que temos de dilatar nosso ser no mundo ou de mudar de existência anexando a nós novos instrumentos”.
Em suma, é pelo corpo, pelos sentidos, que temos nosso contanto originário com o mundo, que podemos nos sentir parte dele, e nos comunicarmos tanto com ele quanto com os outros seres. A intersubjetividade, portanto, é sustentada por uma intercorporeidade fundamental, por um verdadeiro “diálogo” inter-corpos (se pensamos em relação à sexualidade, por exemplo, pode ficar mais fácil de entender como nossos corpos, durante os momentos de sedução, desejo e do próprio ato sexual, parecem comunicar-se entre si, sem intervenção de uma “consciência”). É pelo corpo, enfim, que em seus últimos escritos – dos quais destacamos Signos e O visível e o invisível – que Merleau-Ponty visa superar a antiga clivagem sujeito-objeto, consciência-mundo, buscando nesse contato primitivo, anterior a toda tematização, a toda idealização, uma nova proposta de ontologia, que não foi concluída por conta de sua morte prematura: uma ontologia do sensível.
Para quem se interessar:
MERLEAU-PONTY. Fenomenologia da percepção (Ed.Martins Fontes), sobretudo a Primeira Parte.
________________. O visível e o invisível (Ed. Perspectiva).



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